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sábado, 15 de julho de 2023

Da Terra Nascem Os Homens (1958): O Primeiro Grande Western em Superprodução, Com Rara Temática Pacifista para o Gênero.


Raramente na década de 1950, época em que os filmes Western eram produzidos em alta escala, que Hollywood divulgava o gênero em tons pacifistas, muito embora alguns cineastas mais avançados como Anthony Mann (que dirigiu 5 grandes clássicos com James Stewartlançavam uma releitura ao estilo cinematográfico genuinamente americano. Entretanto, um destes grandes clássicos foi dirigido por outro grande diretor muito famoso, portador de genuínos clássicos do cinema por excelência, cujo nome é sinônimo de competência:  William Wyler (1902-1981).

O Cineasta William Wyler
Wyler certamente foi um dos maiores cineastas do século XX, mas  nunca se considerou um autor de filmes e nunca foi esta a sua pretensão, e por isso era ignorado pela turma francesa do Cahiers du Cinéma, legião esta que, justamente, inventou o conceito do cineasta ser o artesão da obra. Trabalhava por encomenda sim, muitas vezes para produtores independentes (como Samuel Goldwyn). Não é possível se detectar um estilo de narrativa, um tipo de fotografia, ou sequer um ângulo favorito, em que não haja a participação de Wyler. A única identidade comum entre seus filmes era a excelência, nas palavras do saudoso crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Em verdade, nunca fez um filme ruim, muito embora haja películas umas melhores do que as outras, mas certamente, grandes obras cinematograficamente culturais tem seu legado. 

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958) em exibição nos Estados Unidos.

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (The Big Country, 1958) foi o primeiro Western a ser, de fato, uma superprodução, pois em 1958, a televisão invadia os lares americanos (no Brasil, não foi diferente!), lançando muitas séries de faroestes, como As Aventuras de Rin Tin Tin, The Lone Ranger (Zorro & Tonto), Paladino do Oeste, Bat MastersonGunsmoke, o Homem do Rifle, entre outras - e no entanto, seria imperioso um investimento alto para não perder a concorrência com a telinha.  Para isto, nada como reunir um cineasta premiado e de renome internacional, atores consagrados, um compositor que pudesse prender o espectador com a trilha sonora (o magistral Jerome Moross), e um fotógrafo que pudesse dar todo o panorama que nenhum televisor poderia enquadrar (Franz Planer).
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Divulgação

O resultado deste esforço épico foi uma obra de 165 minutos de duração que custou cinco milhões de dólares, causando grande impacto e levando o público aos cinemas e, definitivamente, marcou aqueles que o assistiram por suas cenas de inigualável e impressionante beleza visual. Baseada no conto Ambush at Blanco Canyon de Donald Hamilton (o mesmo autor de  Pecado em Cada Alma e os livros do espião Matt Helm) e adaptada por Jessamyn West (1902-1984, autora Sublime Tentação, obra de Wyler realizada em 1956, com Gary Cooper).

Gregory Peck como Jim McKay, o mocinho de DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
Mas DA TERRA NASCEM OS HOMENS pretende, de fato, fazer jus ao seu título original. Se a pretensão do cineasta foi realmente fazer um filme estrondoso, valeu o espetáculo, pois levou uma história ao seu final sem provocar irritação irreparável no espectador. Para alguns críticos mais arredios, o fator negativo do filme reside justamente na sua mania de grandeza. Isto porque a temática da trama é marcada pela conduta do personagem de Gregory Peck (1916-2003), interessante e válida. Peck como Jim McKay é o herói que recusa-se agir de acordo com os métodos rudes e ásperos do Velho Oeste, que prova que a razão é mais superior que a violência. Tudo isso esta provado no argumento do personagem principal, às vezes um pouco confuso e cansativo na coordenação dos incidentes da história. Mas mesmo assim, vale o ingresso. 

Jean Simmons como a Professora Julie Maragon
O início e o final da fita seguem a fórmula clássica do gênero, com bastante ação a despertar o interesse do público. Mas o miolo da história se arrasta, assim como que impregnado pela vastidão enfadonha da planície arenosa, onde a escassez de água era o motivo de uma sangrenta e invencível divergência entre dois velhos fazendeiros, vivido respectivamente pelos magistrais Charles Bickford e Burl Ives.

Burl Ives como Rufus Hannessey, e seu inimigo caído ao chão, Major Terrill, vivido por Charles Bickford.
É certo que THE BIG COUNTRY possui, isoladamente, grandes momentos de criação cinematográfica motivadas pela mente de William Wyler. O espectador mais atento poderá observar, por exemplo, que o sentido de vastidão do campo domina toda obra, graças a esplendida fotografia de Franz Planer.

Steve Leach, vivido por Charlton Heston, capataz do rancho do Major Terrill, pai de Patricia (Carroll Baker).
Considerado o primeiro western de efeito esplendoroso nas proporções da tela do Techinirama – a começar pelos títulos de abertura de Saul Bass (1920-1996), ritmados com a música vibrante de Jerome Moross. Obviamente, em uma tela de televisão o efeito causa menos impacto, mas o filme impõe-se pelo seu cineasta, pelo elenco e pela temática pacifista, algo incomum no gênero. 

Divulgação



O Major Henry Terrill anunciado o noivado de Jim e Patricia...

...enciumando Steve Leach, que gosta da filha de seu patrão.
O pacífico Jim McKay em luta com Steve Leach.
James “Jim” McKay (Gregory Peck), um cavaleiro do leste e ex marinheiro, vai ao Texas visitar a noiva Patricia Terrill (Caroll Baker) e encontra uma região abalada pelo conflito de terras: dois barões do gado, o pai de Patricia, o Major Henry (Charles Bickford, 1889-1967), e Rufus Hannessey (Burl Ives, 1909-1995) disputam um rancho pertencente a Julie Maragon (Jean Simmons, 1929-2010) e que possuí a única fonte de água no território. 

Buck Hannessey (Chuck Connors) se interessa por Julie (Jean Simmons) e em uma noite ele tenta violenta-la...
...mas McKay intervém e agride Buck.

Buck (Chuck Connors) é alvejado pelo próprio pai (Burl Ives).
McKay põe-se ao lado de Julie, e como que não quer nada, vai aos poucos impondo sua política pacifista num ambiente hostil onde impera a lei da força bruta. O cavaleiro do Leste terá que provar seu valor ao tentar montar uma cavalo selvagem, chamar para briga no meio da noite o capataz do rancho dos Terrill, Steve Leech (Charlton Heston, 1923-2018) após recusar lutar com ele na frente de Patricia, e  para defender Julie lutar com Buck Hannessey (Chuck Connors, 1921-1992), filho de Rufus. 


Gregory Peck e Carroll Baker recebendo instruções do diretor William Wyler.
William Wyler e Gregory Peck eram grandes amigos, inclusive é o próprio astro de “A Princesa e o Plebeu” (outra fita de Wyler) que co-produziu este fascinante superespectáculo Western. Porém, durante as filmagens, Peck e Wyler se desentenderam feio. Tudo porque Wyler, um perfeccionista ao extremo, fazia questão de repetir muitas cenas as quais Gregory Peck, como co-produtor, reprovava e achava que estavam perfeitas. O cineasta disse a jornalistas – e fazia questão de dizer que falava abertamente para os jornais publicar – que não voltaria a dirigir o ator nem por um milhão de dólares. Com efeito, ambos jamais voltariam a se falar, até Wyler falecer em 1981.

Jean Simmons

CAST de DA TERRA NASCEM OS HOMENS. Notem que Jean Simmons não esta nada sorridente!
Jean Simmons acabou por aceitar o papel de Julie Maragon, mesmo não tendo simpatias por William Wyler. Tudo porque Simmons foi a primeira escolha do diretor para ser a protagonista em A Princesa e o Plebeu , mas Wyler voltou atrás e preferiu Audrey Hepburn. Simmons considerou a atitude de Wyler deselegante, mesmo não havendo ainda um contrato firmado. Contudo, por razões profissionais, Jean acabou pegando a parte de Julie, mas nunca reatou amizade com o diretor. A relação era estritamente profissional e ao longo de sua vida sempre se recusou a falar do cineasta.

Jerome Moross, compositor da trilha sonora de
DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
O fotógrafo Franz Planer e Gregory Peck
Da Terra Nascem os Homens é um western espetacular, valorizado por marcante comentário musical de Jerome Moross (1913-1983), uma das mais belas trilhas do gênero que segura todo o espetáculo. Valorizado também pela bela fotografia do austro-húngaro Franz Planer (1894-1963), o mesmo que fotografou Bonequinha de Luxo, A Princesa e o Plebeu, e Rei dos Reis.

Charlton Heston
Charlton Heston já era consagrado após o clássico Os Dez Mandamentos (1956), dirigido por Cecil B De Mille, porém teve que submeter-se a um “teste” com Wyler. DeMille sempre gostou de Heston e sugeriu a Wyler que desse ao astro de O Maior Espetáculo da Terra um dos papéis centrais. Até então, Heston havia feito sempre papéis de heróis, inclusive em westerns, e sem contar que o ator ainda estava estigmatizado pela crítica como canastrão comparado a Victor Mature, no início da carreira.

Charlton Heston em AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL em 1953.

Wyler deu a Heston o papel do antipático e rude Steve Leach, personagem comparado a um vilão. De início, o ator queria recusar o papel do capataz por achar que era pequeno, mas seu agente convenceu-o de que valeria a pena pela oportunidade de trabalhar ao lado de Gregory Peck, e sob a direção de William Wyler. Felizmente, Heston aceitou o conselho de seu agente, e para sua felicidade (e a do público e de seus fãs!), Wyler gostou tanto de seu desempenho que o pôs no ano seguinte para seu próximo filme, talvez um dos mais importantes do cineasta, Ben-Hur, com Charlton Heston como astro principal, outorgando grande responsabilidade na superprodução, que rendeu 11 premiações na Academia, incluindo um como Melhor Ator para Heston. 

O diretor William Wyler e a atriz Carroll Baker.
Carroll Baker chegou a ter também uma carreira longa, e anos depois, confessou que se tornou amante de produtor para subir em Hollywood, mas depois se arrependeu e foi estudar no Actor´s Studio onde encantou Elia Kazan que a usou como Baby Doll (1955), filme polêmico. Teve muitas chances no cinema, foi dirigida por John Ford (Crepúsculo de Uma Raça, 1962) e mesmo pelo nosso Hector Babenco (1946-2016) em Ironweed, em 1987, Muito estranho e inexplicável o sumiço de Baker no roteiro de Da Terra Nascem os Homens perto ao fim da história, pois sua personagem fica ausente da luta final.

O ator mexicano Alfonso Bedoya, em seu
último trabalho no cinema.
Destaque também para o ator mexicano  Alfonso Bedoya (1904-1957), falecido aos 53 anos por problemas relacionados ao álcool, que sequer chegou a ver o filme lançado. Bendoya foi o melhor de todos os atores mexicanos fazendo tipos característicos no cinema norte-americano, o primeiro deles em O Tesouro de Sierra Madre (1949, de John Huston), onde roubou muitas cenas até mesmo do astro principal, Humphrey Bogart. Em Da Terra Nascem os Homens, ele faz o papel do empregado dos Tirrell, Ramón Guiteras, que acaba tornando-se uma espécie de “Sancho Pança” para o personagem de Gregory Peck.  Ramón abandona os Tirrell para servir a Mckay e avisa-lhe dos perigos que corre. Na última cena, ele parte com o herói e Julie, dando a entender que seguirá seu destino com os dois. Nota-se um dublê de costas no lugar de Bendoya, que morreu antes do término das filmagens.

Burl Ives ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958).
Burl Ives era um ator de múltiplos talentos, pois também era radialista, cantor, escritor e músico. Começou a vida como esportista, sendo jogador de futebol americano, mas foi inserido no mundo da música, tornando-se um cantor de Folk e baladas, gravando mais de 30 álbuns para Decca e 12 para a gravadora Colúmbia. Sua carreira de ator começou na Broadway, onde é mais lembrado pelo público americano no papel de Big Daddy na versão de Gata em Teto de Zinco Quente, em 1938, papel que repetiria na versão cinematográfica de 1959 com Elizabeth Taylor e Paul Newman - mas somente em 1946 foi introduzido em Hollywood com Furacão Negro (Smoky) com Fred MacMurray e Anne Baxter.

O cantor Burl Ives

Burl Ives também era cantor e gravou inúmeros Long Plays.
Ives ficou notável como o rústico patriarca Buck Hannassey, o que valeu-lhe o Oscar como Melhor Ator Coadjuvante. Nesta época, ele já encontrava-se semi-aposentado do  show business, mas com o Oscar conquistado, muitas outras oportunidades se abriram para este gigante em todos os sentidos, seja na estatura física e no talento. Quando em 1989, aos 80 anos de idade, anunciou definitivamente sua aposentadoria, veio a estabelecer-se em Anacortes, Washington, com sua família, muito embora fizesse até quase ao fim da vida shows beneficentes. Um ano antes de seu falecimento, foi introduzido no Hall da Fama DeMolay, pois era um Grão Mestre da Maçonaria, grau 33 (o máximo), e toda sua família era vinda de maçons. Assim ele dizia:

Tive a sorte de nascer em uma família de maçons. Na verdade, minha irmã mais velha, Audrey, era matrona Grande da Ordem da Estrela do Oriente, em Illinois. Minha experiência DeMolay veio muito naturalmente por causa do meu pai e irmãos. Assim foi a minha juventude reforçada.

Burl Ives morreu em 14 de abril de 1995 aos 85 anos.


Divulgação do filme nos jornais cariocas, em exibição pelas salas do Rio de Janeiro.


FICHA 
TÉCNICA
Gregory Peck e Jean Simmons


País – Estados Unidos

Ano – 1958

Gênero - WESTERN

Direção – William Wyler

Produção – William Wyler, Robert Wyler e Gregory Peck, em produção e distribuição pela United Artists

Roteiro - James R. Webb, Sy Bartlett, Robert Wilder, com adaptação de Jessamyn West e Robert Wyler, com base na história de Donald Hamilton.

Fotografia – Franz Planer, em Cores.

Música – Jerome Moross

Metragem – 165 minutos.


Chuck Connors, Burl Ives e Gregory Peck


Gregory Peck – James McKay

Jean Simmons - Julie Maragon

Carroll Baker - Patricia Terrill

Charlton Heston - Steve Leach

Burl Ives - Rufus Hannassey

Charles Bickford - Major Henry Terrill

Alfonso Bedoya - Ramón Guiteras

Chuck Connors - Buck Hannassey

Chuck Hayward - Rafe Hannassey

Buff Brady - Dude Hannassey

Dorothy Adams- Mulher da família Hannassey

Chuck Roberson - Vaqueiro dos Terrill

Bob Morgan   -  Vaqueiro dos Terrill

John McKee - Vaqueiro dos Terrill

Slim Talbot - Vaqueiro dos Terrill

Jim Burk   - Blackie / Cracker Hannassey

Carey Paul Peck - Garoto de 11 anos

Jonathan Peck - Garoto de 14 anos

Ralph Sanford - Convidado na festa





sábado, 1 de julho de 2023

Os Canhões de Navarone (1961): Uma Missão Suicida e Quase Impossível, em Fita de Aventura Bélica Dirigida Pelo Injustiçado J. Lee Thompson.

Divulgação

Em 1943, os nazistas ocuparam a Ilha de Navarone, localizado no Mar Egeu, com o intuito de bloquear as forças inglesas infiltradas em Kheros, perto da Turquia. Na Ilha de Navarone, foi instalado, em alto penhasco, dois potentes canhões para destruir os navios aliados. Sob o comando do Major inglês Roy “Lucky” Franklin (Anthony Quayle, 1913-1989), forma-se uma unidade de sabotagem encarregada de penetrar na ilha e arrasar a fortaleza inimiga. 

Gregory Peck é o Capitão Keith Mallory, um ex- alpinista.
Peck como Mallory, e seus colegas Brown (Stanley Baker) e Miller (David Niven)

Anthony Quinn como Andrea Starvos, membro da Resistência Grega, ótimo matador.
Além do inglês Franklin, participam da arriscada missão o ex-alpinista americano, Capitão Keith Mallory (Gregory Peck, 1916-2003); um membro da Resistência Grega, Andrea Starvos (Anthony Quinn, 1915-2001); um especialista em explosivos, o cabo inglês Miller (David Niven, 1910-1983); o telegrafista e atirador de elite Brown (Stanley Baker, 1928-1977); e um jovem grego perito em matar, o soldado Spyros Pappadimos (James Darren, o Tony Newman da série de TV O Túnel do Tempo). Ao longo do caminho, juntam-se ao grupo, Maria Pappadimos (Irene Pappas, 1929-2022), irmã mais velha do soldado Spyros, e Anna (Gia Scala, 1934-1972), uma jovem grega torturada pelos nazistas.  Quando o major Franklin é ferido, o capitão Mallory assume o comando, surgindo tensões entre este e o cabo Miller, especialmente quando tomam conhecimento de que há um traidor entre eles.

Stanley Baker é Brown, telegrafista do grupo e matador de elite.
James Darren é o soldado Spyrus Pappadimus, um perito em matar.
Irene Pappas é Maria Pappadimus, que pertence a Resistência Grega.
Assim inicia a energética aventura de OS CANHÕES DE NAVARONE (The Guns of Navarone, 1961), uma das mais populares ações de guerra já realizadas para o cinema, com merecidos 13 milhões de dólares arrecadados só no mercado norte-americano desde sua estreia, em 1961. Os Canhões de Navarone mostra o cotidiano de um grupo de seis oficiais e soldados aliados que recebem uma missão tida por todos como impossível e suicida: chegar a ilha grega de Navarone dominada pelos nazistas, e destruir os poderosíssimos, moderníssimos, gigantescos canhões que dominam toda uma área do Mar Egeu e não permitem a passagem por ali dos navios aliados. O Comando tem prazo curtíssimo para executar a tarefa: dentro de seis dias, os nazistas invadirão outra ilha da região onde há dois mil soldados ingleses; para que eles possam ser retirados de lá dentro do prazo, Os Canhões de Navarone terão que ser destruídos antes do sexto dia.

O Produtor e Roteirista Carl Foreman, dialogando com o diretor J. Lee Thompson e o ator David Niven. 
Brown (Stanley Baker), Spyrus (James Darren) e Miller (David Niven)
Anna (Gia Scala), que pertence a Resistência, sentada à mesa com Spyrus (James Darren), Miller (David Niven) e Mallory (Gregory Peck)
Escrito e produzido por Carl Foreman (1914-1984), o célebre roteirista de Matar ou Morrer (1952) e A Ponte do Rio Kwai (1957), o espetáculo dirigido por J. Lee Thompson (1914-2002) foi rodado nas locações da Ilha de Rhodes, na Grécia, concorrendo para o Oscar (inclusive de melhor filme), mas acabou arrebatando a estatueta de melhores efeitos especiais. Em realidade, uma premiação muito justa, tendo em vista a estrepitosa galeria de cenas de combate e explosões (efeitos, para sua época, muito impressionantes). Mas para isso, foram necessários dois anos de filmagem para levar para as telas o magnífico Best Seller (publicado em 1957) do consagrado Alistair MacLean (1922-1987), o mesmo autor de O Desafio das Águias e Estação Polar Zebra, dois de seus romances que também viraram filmes. MacLean ainda daria uma sequencia literária para a saga de Navarone, Comando 10 de Navarone (Force 10 to Navarone), publicado em 1968 e que somente dez anos depois seria trasladado para o cinema, sob a direção de Guy Hamilton, com Robert Shaw no papel de Mallory e Harrison Ford como Barnsby.

Anthony Quinn em um show de interpretação, como Andrea Starvos, prestes a dar um bote contra os nazistas.
O Cabo Miller (David Niven), o Capitão Mallory (Gregory Peck) e o aventureiro grego Andrea Starvos (Anthony Quinn): Uma missão suicida. 
Os aventureiros sabotadores, com a missão de destruir OS CANHÕES DE NAVARONE (1961)
O elogio maior que se pode e deve fazer para OS CANHÕES DE NAVARONE é o espectador não sentir sua longa projeção (155 minutos), onde acompanha com atenção e interesse todo o desenvolvimento da trama. Por natureza, pode ocorrer como em tantas obras primas do cinema, algum tipo de deficiência em sua realização, o que não impede que ele constitua num entretenimento válido para aqueles que apreciam as dramáticas aventuras sobre a II Guerra Mundial. Narrando uma história que em realidade acaba cedendo à ficção, esta é suplantada com frequência inverossímil e fantasiosa, fazendo com que o espectador aceite o comportamento dos personagens como eles são narrados e apresentados para o agrado do público. 
Os canhões que precisam ser destruídos.
O Cabo Miller (David Niven) descobre um traidor no grupo. Quem será?
Com a missão cumprida, Mallory (Peck) e Miller (Niven), enfim, resgatados no mar.
Tudo porque os efeitos especiais que causaram tanta sensação em sua época hoje estão óbvios e obsoletos. Fica difícil o público de hoje não achar meio ridícula as cenas com miniaturas, com efeitos artificiais, cenas pintadas que eram colocadas em cima de outras, realmente fotografadas, e alguns cenários obviamente feitos em estúdio. Por outro lado, grandes estruturas como o próprio canhão tiveram que ser realmente construídas, que se realizados hoje, seriam feitos por meio de computação digital. Algumas cenas foram realmente perigosas, como a tempestade no mar, que foi feita em estúdio, mas as ondas eram tão fortes que David Niven quase morreu afogado, ou feitas em locação, como a escalada do penhasco, realizada em parte por estúdio e em locação. O curioso é que não chovia quando rodaram. A chuva foi colocada depois com uso de truques.

O grupo chega à Grécia.
Jensen (James Robertson Justice), representante do Governo Britânico, o Major Franklin (Anthony Quayle), comandante oficial da missão, e Mallory (Gregory Peck). James Robertson Justice também foi o responsável pela narração inicial.
Os Canhões de Navarone, um espetacular filme bélico!
Contudo, apesar de ser uma história fascinante, não se trata de um evento real. Não existe a Ilha de Navarone, nem a história é baseada em fatos verossímeis, mas sim de um dado real. A Inglaterra realmente trabalhou com pequenos comandos, grupos treinados para missões especificas, realmente houve uma resistência grega formada por guerrilheiros, mas eram divididos entre os comunistas e os de Direita, que nunca se entenderam. A Grécia antes da Guerra era uma ditadura, até a Itália resolver invadi-la. Foi apenas vagamente inspirado numa batalha famosa que foi a de Leros. Mas, de resto, é ficção. É a primeira das grandes aventuras bélicas com elenco internacional. Carl Foreman, pela sua própria formação, não era capaz de escrever uma mera aventura sem trazer uma mensagem, uma moral. Na época de seu lançamento, foi criticado por apresentar recados contra a guerra (que curiosamente hoje mantém o filme atual e superior a outros). Fala da futilidade da guerra, de como os dois lados sempre perdem, discute a necessidade ou validade dos delatores e a traição (um tema importante para Foreman, já que ele foi delatado como comunista nos inquéritos do governo durante a época do Caça às Bruxas). O que poucos percebem, entretanto, é a pretensão do roteiro de ser uma versão moderna da história mitológica de Jasão e os Argonautas (Os Canhões em si equivalentes ao mito do Minotauro), e com toques de Édipo, pretenciosamente chamada de A Lenda de Navarone.

O diretor J. Lee Thompson. Um cineasta injustiçado.
Divulgação

A atriz inglesa de origem italiana Gia Scala, que morreu prematuramente em 1972.
Foi o chefe da Columbia na época, Mike Frankovich (1909-1992), que  encaminhou para Carl Foreman o projeto. Foreman, a princípio, contratou o diretor inglês de comédias Alexander MacKendrick para dirigir o filme. Mas os atores não o aceitaram e MacKendrick foi mandado embora. Gregory Peck tinha direito a aprovar o diretor que quisesse e acabou selecionando outro britânico, J. Lee Thompson, achando que este mostrava sensibilidade e capacidade para cenas de ação (como o fez em Sangue Sobre a Índia, com Lauren Bacall). De fato, Lee Thompson é subestimado até hoje e não figura entre os grandes diretores do século XX. Em todas as entrevistas e documentários a respeito do filme, o elenco é unânime em elogiar a competência do cineasta, habilidade em conduzir atores, e seu método de ensaiar de manhã durante umas três horas, fazendo as marcações e explicando tudo para os astros.

James Darren, David Niven, Gia Scala
Gregory Peck e Anthony Quayle
Irene Pappas
No elenco, vale mencionar a participação breve de Richard Harris (1930-2002) como Barnsby, um oficial aliado, personagem que teria maior destaque na sequencia da aventura em Comando 10 de Navarone, aqui vivido por Harrison Ford. A grega Irene Pappas e a inglesa de origem italiana Gia Scala (atriz prematuramente falecida em 1972) participam de um elenco quase todo masculino, como duas integrantes da resistência que colaboraram com os aventureiros sabotadores. Em destaque, além da fotografia do especialista Oswald Morris (1915-2014), ainda tem o marcante comentário musical do Mestre Dimitri Tiomkin (1899-1979), o mesmo compositor de Matar ou Morrer a quem Carl Foreman confiou um de seus scores mais elaborados e criativos. Os Canhões de Navarone estreou nas salas cariocas em setembro de 1962, e até os dias de hoje, apesar dos efeitos especiais já estarem ultrapassados, é graças ao seu enredo de exuberante aventura que a obra de J. Lee Thompson figura entre um dos maiores espetáculos de ação já produzidos sobre a II Guerra Mundial, a exemplo de Os Doze Condenados (1967) e O Desafio das Águias (1968).  

Richard Harris, em breve participação
Gregory Peck e David Niven

O Fotógrafo Oswald Morris (de óculos), acompanhando os ângulos para as filmagens, com o diretor J. Lee Thompson e Gregory Peck.
A divulgação do filme nos jornais cariocas. OS CANHÕES DE NAVARONE estreou nos cinemas do Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1962.



POSTER

OS CANHÕES DE 

NAVARONE

(THE GUNS OF NAVARONE)

País – Estados Unidos/Inglaterra

Gênero – Aventura/Guerra

Ano de Produção – 1961

Direção: J. Lee Thompson

Produção: Carl Foreman, Leon Becker, e Cecil Ford, para a Colúmbia Pictures.

Roteiro: Carl Foreman, baseado no livro de Alistair MacLean.

Fotografia- Oswald Morris, em Cores

Música- Dimitri Tiomkin

Metragem – 155 minutos


Poster Original

ELENCO

Gregory Peck – Capitão Keith Mallory

David Niven – Cabo Miller

Anthony Quinn – Andrea Starvos

Stanley Baker – Brown

Anthony Quayle – Major Roy “Lucky” Franklin

James Darren – Soldado Pappadimos

Irene Pappas – Maria Pappadimos

Gia Scala – Anna

James Robertson Justice – Jensen/Narrador

Richard Harris – Barnsby

Bryan Foris – Corby

Allan Cuthbertson – Baker

Percy Herbert – Sargento Grogan

Walter Gotell – Muesel

Tutte Lemkow – Nicolai

       Albert Lieven – Comandante

Norman Wooland – Capitão do Grupo

Victor Beaumont – Oficial Alemão

Wolf Frees – Rádio Operador

Bob Simmons – Soldado Alemão em Navarone



Um Convidado Bem Trapalhão (1968): Blake Edwards faz Peter Sellers promover uma festa de arromba!

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