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domingo, 6 de agosto de 2023

A Face Oculta (1961): O Excêntrico Western de Marlon Brando


O romance The Authentic Death of Hendry Jones, de autoria de Charles Neider (1915-2001) serviu de base para a produção do excêntrico western A FACE OCULTA (One –Eyed Jacks, 1961), tendo no roteiro  Calder Willingham (1922-1995)  e Guy Trosper (1911-1963), onde conta-se o destino de dois ladrões de bancos que após praticarem um assalto em Sonora, no México, se separam porque só havia um cavalo.  O argumento ainda teve como roteiristas Rod Serling (1924-1975, de Além da Imaginação) e o cineasta Sam Peckinpah (1925-1984), mas estes acabaram não recebendo crédito pelo trabalho. Entretanto, o maior interessado no projeto era o ator Marlon Brando (1924-2004) que ambicionava levar avante uma produção assinada por sua empresa. Em 1957, Brando havia fundado a sua produtora, a Pennebaker, e esta produziu De Mãos Dadas com o Diabo (Shake Hands with the Devil) em 1959, dirigido por Michael Anderson (1920-2018).

Stanley Kubrick e Marlon Brando.
Marlon Brando, o diretor.

Marlon Brando, depois da saída de Stanley Kubrick, assume a direção de A FACE OCULTA (1961)
Acertado com roteiristas e produção, faltava para Marlon encontrar um diretor. No início, queria Stanley Kubrick (1928-1999) na direção, e Marlon viveria o “mocinho” da trama, o bandoleiro Rio. Contudo, não demorou e houve divergências entre Kubrick e o astro. Kubrick queria Spencer Tracy para um dos papéis centrais, o do xerife Dad Longworth, e Brando, como dono da produtora, não concordou, pois queria Karl Malden (1912-2009) para interpretar Dad. Malden tinha contrato firmado com a Pennebaker e visto que Brando jamais admitiria Tracy no papel de Dad Longworth, Stanley Kubrick saiu da direção após sérios desentendimentos com o ator. Assim, Brando assumiu a direção, e Malden, a parte de Longworth.

Brando supervisionando uma câmera VistaVision. A FACE OCULTA foi o último filme da Paramount a usar esta tecnologia.
Brando na direção de A FACE OCULTA (1961)
Marlon a supervisionar o roteiro.
Contudo, as histórias que cercam este Western Milionário não estão apenas nas discussões entre Marlon Brando e Stanley Kubrick. O projeto, originalmente, era mesmo para ser uma ambiciosa produção, que durariam cinco horas de projeção. E os investimentos foram extrapolados. Era para custar 1,8 milhão de dólares, mas acabou custando seis milhões de dólares, e era para ser rodado em seis semanas, mas levou sete meses para as filmagens serem concluídas, consumidos depois de dois anos de trabalhos. As rodagens começaram em dezembro de 1958 e concluídas em julho de 1959, e retomadas em dezembro de 1960 para cenas adicionais (incluindo um desfecho diferente exigido pela Paramount). Das 35 horas de filme impresso, o diretor e astro Brando selecionou material para cinco. Extremo perfeccionista, o ator gastou mais de 300 mil metros de filme virgem e editou tudo entregando A Face Oculta para a Paramount distribuir com cinco horas de duração. Ao término das montagens (que levou ainda dois anos), os produtores associados  tiveram-se na contingência de reduzir ainda mais a metragem da fita, que ao final, foram reduzidas para 2h e 21 minutos. Brando ficou furioso.

Brando e o produtor Walter Seltzer.
Brando em posicionamento de câmera.

Brando, um extremo perfecionista.
Embora a edição final sacrificasse duas horas de filme, sendo comprometida a unidade geral da obra, o resultado é brilhante, com sequências esplendidamente realizadas. Não muito bem aceito pela crítica à época de seu lançamento, após várias revisões, A Face Oculta tem hoje status de faroeste clássico. É esteticamente um dos mais belos westerns já filmados, com a excelente fotografia de Charles Lang (1902-1998), interpretações primorosas, e uma história perfeitamente bem desenvolvida, ainda que bastante violenta para a época. E vale destacar a música do veterano Hugo Friedhofer (1901–1981).

Karl Malden ficou com o papel do vilão, Dad Longworth. Stanley Kubrick queria Spencer Tracy para a parte.
ELENCO
Além das presenças centrais de Marlon Brando e Karl Malden, A Face Oculta é cercada de atores conhecidos e vistos nos westerns dirigidos por Ford, Hawks, ou Anthony Mann, o que vem a valorizar ainda mais a fita dirigida por Brando. Temos Ben Johnson (1918-1996), notório cowboy fordiano, embora tempos depois brigasse com o cineasta e nunca mais tivesse feito um filme para John Ford. A mexicana Katy Jurado (1924-2002), que já namorou Brando e já havia feito trabalhos no gênero, como Matar ou Morrer (1952), de Fred Zinnemann.  Outro grande destaque é o ótimo ator Timothy Carey (1929-1994), formado pela Actor’s Studio de Elia Kazan e um dos atores mais requisitados pelo diretor, que apesar de poucos minutos em One- Eyed Jacks, aparece no filme para "levar uma surra de Brando e ser morto por ele". 

Katy Jurado no papel de Maria, esposa de Dad.
No panorama, podemos ver: a atriz e dançarina Margarita Cordova e Timothy Carey, encostados no balcão. Sentados, Larry Duran e Brando. Em pé, como garçom, Ray Teal.
Rio (Brando) em luta com Howard (Timothy Carey)
O notável Elisha Cook Jr (1903-1995), famoso por ter sido morto por Jack Palance em Os Brutos Também Amam (1953) de George Stevens, no papel de um empregado de banco - e ainda a despontar Rodolfo Acosta (1920-1974), Hank Worden (1901-1992), outro ator da trupe de John Ford - Sam Gilman (1915-1985), Slim Pickens (1919-1983), Ray Teal (1902-1976), John Dierkes (1905-1975) – e destaque para a talentosa porto-riquenha Miriam Colon (1936-2017), também saída do Actor’s Studio.

Marlon Brando em A FACE OCULTA (1961)

A TRAMA
Trata-se de um western psicológico. Em Sonora, México, no ano de 1885, após assaltar um banco, o bandoleiro Rio (Marlon Brando) juntamente com seu comparsa e amigo, Dad Longworth (Karl Malden), são cercados pelos Guardas Rurales (os policiais ou vigilantes da fronteira entre o México e os Estados Unidos), e como ambos só têm um cavalo para poder escapar dos guardas, Dad se voluntaria para pegar montaria forte em uma aldeia próxima, enquanto Rio tenta driblar os policiais em pleno deserto. Chegando a aldeia, Dad, motivado pela ganância, consegue dois cavalos, levando todo o dinheiro do assalto e abandonando Rio para os Rurales. Rio é preso, capturado, e sentenciado a cinco anos na prisão local.

Rio (Brando) não poupa nem as senhoras de um assalto a banco.
Rio e seu comparsa e amigo, Dad Longworth, fugindo dos policiais rurales...
...mas Rio não contava que seria traído pelo melhor amigo.
Depois de cinco anos, Rio consegue fugir com um companheiro de cela, o mexicano Modesto (Larry Duran, 1925-2002), tendo em mente se vingar de Dad por sua traição. Depois de várias buscas pelo paradeiro de Longworth, Rio se alia a dois outros fora-da-lei: Bob Amory (Ben Johnson) e Harvey Johnson (Sam Gilman), que pretendem assaltar um banco de um vilarejo de Monterrey, cujo xerife é Dad Longworth. Assim, Rio se dirige ao vilarejo e encontra Dad como um respeitável homem da cidade, casado com Maria (Katy Jurado) e com uma filha adotiva, Louisa (Pina Pellicer, 1934-1964).

Rio escapa da prisão depois de cinco anos, acompanhado pelo companheiro de cela, o mexicano Modesto (Larry Duran).
Harvey Johnson (Sam Gilman) e Bob Amory (Ben Johnson): Sócios de Rio mais interessados em roubar um banco.
Depois de muitas buscas, Rio encontra o ex-comparsa e traidor Dad Longworth (Karl Malden), agora como um respeitável xerife de um vilarejo.
Rio simula refazer amizade com Longworth para melhor executar seu plano de vingança, mas o que ele não contava é que ele terá um sério relacionamento com Louisa, e se apaixonará pela moça. Sabendo que Rio andou saindo com Louisa, Dad convoca seus homens e capturam Rio, para que este seja açoitado por Dad em público. 

Dad apresenta a Rio sua esposa Maria (Katy Jurado) e sua filha adotiva, Louisa (Pina Pellicer).
O grandalhão Lon (Slim Pickens), auxiliar de Dad, que cobiça Louisa e persegue Rio.
A FACE OCUTA (1961)

Rio, dominado por Lon, será chicoteado em público por Dad Longworth.

Mais tarde, Louisa descobre estar grávida de Rio, e este ainda mantém seus planos de vingança para matar Dad Longworth, contudo, antes que isso ocorra, Rio é preso e está prestes a ser enforcado. O bandoleiro faz questão de lembrar ao ex-amigo que, mesmo sendo um homem da Lei respeitável de um vilarejo, ninguém conhece sua verdadeira Face Oculta e revela que esteve preso nos últimos cinco anos por culpa de Dad e que decidira se vingar de sua traição. 

A tortura imposta por Dad fará Rio ainda mais implacável com seu desejo de vingança.

MARLON E PINA – ROMANCE DENTRO
E FORA DAS TELAS

A Face Oculta estava previsto para ser rodado em 60 dias, mas demorou 190 dias para terminar as filmagens. Como sabe-se, Brando despediu Stanley Kubrick e ele mesmo assumiu a direção. Entretanto, no elenco havia uma atriz mexicana de 24 anos chamada Pina Pellicer, que fazia justamente o interesse amoroso de Rio, personagem de Marlon. Contudo, o romance que era apenas para ser no script, foi também levado para fora dos bastidores. Brando começou a namorar Pina, iludindo-a ao mesmo tempo em que reatava um antigo caso com uma atriz chamada Movita Castenada, que seria mais tarde sua segunda esposa (Brando oficialmente casou três vezes).

Brando e Pina Pellicer: Romance dentro e fora das filmagens.
Pina Pellicer e Marlon Brando: A FACE OCULTA (1961).
Katy Jurado, Marlon Brando, Karl Malden, e Pina Pellicer: A FACE OCULTA (1961).
Terminada as filmagens, Brando deixou bem claro para Pina que o namoro entre ambos terminara junto com o filme, o que ela não aceitou com facilidade. O filme entrou então para a fase de edição daquela tonelada de negativos filmados. No duelo final entre Rio (Brando) e Dad (Karl Malden), ambos morriam. Mas a direção da Paramount não aceitou esse final acreditando que ele seria rejeitado pelo público, e a fita poderia fracassar. Assim, em dezembro de 1960, a Paramount reuniu Brando e Pina Pellicer para rodarem outro final, com a cena em que Rio e Louisa aparecem a cavalo. Ele está apenas ferido, e ambos se despedem à beira-mar, jurando amor eterno. A despedida para Pina Pellicer era real, pois Brando já engravidara Movita e seu novo filho com ela estava para nascer. Foi quando ele viajou para o Taiti para conhecer as locações onde seria rodado O Grande Motim. No Taiti, Marlon conheceu uma linda  nativa, chamada Tarita. Jornais e revistas, e em especial as fofoqueiras Louella Parsons e Hedda Hopper, davam bastante destaque para a vida particular do ator, levando a esperançosa Pina ao desespero. Tempos depois,  Pina Pellicer cometeu suicídio com apenas 30 anos de idade, a 4 de dezembro de 1964. E não faltou quem culpasse Marlon Brando pela sua morte.

Pina e Marlon, comemorando juntos o aniversário durante pausa das filmagens de A FACE OCULTA, em 1959. Nascidos na mesma data, 3 de abril, Marlon comemorava seus 35 anos, enquanto Pina completava 25.
Marlon e Pina, em passeio durante uma pausa de filmagem.
Brando e Pina Pellicer, o casal romântico de A FACE OCULTA (1961)
Devido às duras críticas da época de seu lançamento, A Face Oculta foi a única experiência de Marlon Brando como cineasta, e lamenta-se que o ator nunca mais optou em dirigir  outro filme. A Face Oculta foi lançado nos cinemas americanos em março de 1961. Décadas mais tarde, a crítica mudou de opinião, e encontrou evidentes qualidades no western dirigido pelo astro. Foi também o último filme produzido pela Paramount usando a tecnologia  VistaVision. Entretanto, no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, A FACE OCULTA estreou em grande circuito, em abril de 1962, onde teve melhor receptividade por grande parte do público. Segundo Marlon Brando, seu Western pretendia ser um "assalto frontal ao templo dos clichês". 

Marlon Brando dirige e estrela A FACE OCULTA (1961)

Divulgação nos jornais cariocas em 1962.

Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em abril de 1962.



POSTER ORIGINAL


PAÍS – Estados Unidos

ANO - 1961

GÊNERO - Western

DIREÇÃO -  Marlon Brando

PRODUÇÃO - Walter Seltzer, Georges Glass, e Frank P. Rosenberg, para Pennebaker produções em distribuição da Paramount Pictures.

ROTEIRO - Guy Trosper e Calder Willingham, com base na novela The Authentic Death of Hendry Jones, de Charles Neider.

FOTOGRAFIA - Charles Lang, em Cores

MÚSICA - Hugo Friedhofer

METRAGEM - 141 MINUTOS


A FACE OCUTA
MARLON BRANDO é RIO!

KARL MALDEN é DAD LONGWORTH!


MARLON BRANDO – RIO

KARL MALDEN – DAD LONGWORTH

KATY JURADO – MARIA LONGWORTH

PINA PELLICER – LOUISA LONGWORTH

BEN JOHNSON – BOB AMORY

SLIM PICKENS – LON DEDRICK, AUXILIAR DO XERIFE

LARRY DURAN – CHICO MODESTO

SAM GILMAN – HARVEY JOHNSON

TIMOTHY CAREY – HOWARD TETLEY

MIRIAM COLON – RUIVA

ELISHA COOK JR – CARVEY

RODOLFO ACOSTA – CHEFE DOS RURALES

RAY TEAL – BARNEY, O BARMAN

JOHN DIERKES – CHET

PHILIP AHN – TIO

HANK WORDEN – DOC

MARGARITA CORDOVA – DANÇARINA DE FLAMENCO


domingo, 11 de junho de 2023

Conspiração do Silêncio (1955): Thriller de Suspense Detetivêsco. Último Filme de Spencer Tracy para MGM

Divulgação

Ao receber o primeiro roteiro de CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO (Bad day at Black Rock), Spencer Tracy (1900-1967) recusou-se a fazer o filme. Revisto e modificado, o ator aquiesceu e disse: “vamos em frente!”. De acordo com a biografia do ator, a versão original do roteiro não dizia que o personagem John J. MacReedy tinha apenas um braço. Os produtores queriam que Tracy o interpretasse, e para convencê-lo atuar, incluíram esta característica no personagem principal. Os produtores acreditavam que nenhum ator resistiria à tentação de interpretar um herói deficiente físico. O roteiro original previa que John J. MacReedy conseguia acender fósforos com apenas um braço. Spencer Tracy estava com dificuldades em realizar esta cena e sugeriu ao diretor John Sturges (1910-1992) que seu personagem usasse um isqueiro Zippo, alegando que todo veterano de guerra conhecia e possuía um. A sequência de abertura com o trem foi incluída após várias exibições-teste, nas quais o público reagiu mal à abertura original.

O Produtor e futuro chefe da MGM, Dore Schary

Para fechar o negócio, um executivo da MGM entrou em contato com Spencer Tracy pouco antes das filmagens, e disse: "Não se preocupe, Sr. Tracy, uma cópia do roteiro foi enviada para Alan Ladd e ele concordou em fazer o papel". No entanto, numa sexta feira, três dias antes de iniciar as filmagens, em Lone Pine, no deserto de Mojave, EUA, Tracy entrou no escritório de Dore Schary (1905-1980), então chefe dos estúdios da empresa e produtor do filme, e disse: “Dore, tenho más notícias. Melhor arranjar outro para o  papel. Não queria mesmo fazer este filme”. Vale lembrar que, nesta época, Tracy tinha 54 para 55 anos de idade, e vinha atravessando um processo de alcoolismo crônico.

Spencer Tracy e o produtor Dore Schary

Os dois eram amigos de longa data, e Schary considerou: “Spence, talvez tenha que ser duro com você, cara. E veja bem: Já dispendemos cerca de 300 mil dólares com o filme. E se você se recusar a fazê-lo serei obrigado a mover um processo contra você”. 

Tracy olhou-o fixamente e perguntou:

-Vc esta brincando?
-Não, não estou – respondeu Schary com veemência.
Tracy voltou a fita-lo longamente e mandou brasa:
-Você fica neste escritório com ar refrigerado no maior bem-bom, enquanto estou me matando de suor naquele inferno que é Lone Pine.
-Mas eu vou suar com você! -replicou Schary
-Okay! Verei você então em Black Rock na segunda feira.

Dore Schary orientando os astros principais do filme, os talentosos Spencer Tracy e Robert Ryan. 

O astro e o produtor se encontraram no calorento deserto de Lone Pine, dando início então aquele que seria um dos melhores filmes da safra de 1955, e o último de Spencer Tracy para a Metro-Goldwyn-Mayer após duas décadas de contrato com o estúdio, e no qual teve a oportunidade de nos brindar com um de seus mais vibrantes e notáveis desempenhos, e que valeu-lhe sua 5ª indicação para as premiações da Academia. Foi também o último filme que fez sob a orientação direta de Dore Schary. Este havia substituído Louis B. Mayer na chefia da Metro, cujo os estúdios localizavam-se em Culver City. Em 1953, contudo intrigas de gabinete começaram a minar as bases do executivo, e em novembro de 1956, Schary foi derrubado do comando.

Poster alemão 

CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO foi o primeiro filme do estúdio MGM a ser lançado em Cinemascope (usado amplanente em todos os espaços, copiando a árida passagem do deserto onde cobre toda ação). A trama direciona-se dois meses após o término da II Guerra Mundial. No vilarejo de Black Rock chega um veterano de guerra, John MacReedy (Spencer Tracy), que tem só um braço. Apesar da sua aparência calma e eremita, e também por sua deficiência física, sua presença incomoda cada vez mais os moradores do local, em parte por ser o primeiro visitante em 4 anos (literalmente o trem nunca parava nesta estação) e por ficar cada vez mais evidente que todos estão escondendo alguma coisa. Quando ele diz que está procurando Komoko, um japonês, a tensão aumenta entre os pequenos habitantes de Black Rock.  que parecem somente obedecer a Reno Smith (Robert Ryan, 1909-1973), um latifundiário manipulador e cínico que controla toda a pequena cidade. 

Spencer Tracy é John MacReedy, um misterioso homem que busca informações sobre um amigo japonês que o salvou durante a II Guerra, em uma cidade do interior dos EUA.
Robert Ryan é Reno Smith, latifundiário "dono" de Black Rock que se preocupa com a visita do estranho forasteiro à Black Rock.

Mais tarde, MacReedy descobre que Komoko foi morto por Reno, que era avesso aos japoneses. Alvo de hostilidades, ameaças e até de uma trama de assassinato, o forasteiro se dá conta de que Black Rock esconde um grande segredo que vem sendo guardado há muito tempo.

John Ericson é Peter Wirth, empregado do hotel de Black Rock e borra-botas de Reno.

Anne Francis é Liz Wirth, irmã de Peter e cúmplice dos desmandos em Black Rock.

Reno Smith não esta só e tem seus parceiros de vilania, como o estúpido e truculento Coley Trimble (Ernest Borgnine, 1917-2012), e Hector David (Lee Marvin, 1924-1987), além do borra botas Pete Wirth (John Ericson, 1926-2020), empregado do único hotel do vilarejo, e sua irmã Liz Wirth (Anne Francis, 1930-2011), apaixonada por Reno, que não dá a mínima para ela.

Reno tenta persuadir MacReedy a deixar a pequena cidade, que se recusa. Por isso, Reno manda seu "leão de Chácara"...

... o brutamontes Coley Trimble (Ernest Borgnine), a dar uns sustos em MacReedy.
Reno finge cortesia para com o recém-chegado, mas MacReedy não é nenhum bobo. A investida mais direta contra MacReedy parte por Coley, um brutamontes que tenta de tudo para assustar MacReedy, para que ele desista de procurar seu amigo japonês, fazendo de tudo para persuadi-lo. Até que chega o momento que, numa lanchonete de Black Rock, quando o veterano de guerra estava almoçando, Coley mais uma vez provoca-o, como se já não bastasse antes tentar pô-lo para fora da estrada enquanto dirigia.

Coley provoca McCready...

...que reage!

Coley não é páreo para o aparentemente frágil MacReedy, que não abre mão de seus conhecimentos em artes marciais aprendidas com o próprio Kamoko. 

O até então paciente MacReedy engolira todos os insultos, e em uma das cenas mais marcantes da película, o veterano sem um braço, em sua defesa pessoal, usa de alguns golpes de artes marciais (aprendidas com Kamoko durante a Guerra) sobre o brutamontes, que achava que poderia liquidar o aparentemente indefeso forasteiro. O ridículo Coley é levado ao chão, ferido, e enviado sob os cuidados de Doc Velie (Walter Brennan, 1894-1974), único médico de Black Rock que não compactua com os desmandos de Reno e seus comparsas.

O notável Walter Brennan é o Dr.  Doc Velie, único médico da pequena cidade que não pactua com os crimes de Reno Smith. 

Reno manda até no xerife da cidade, o fraco Tim Horn (Dean Jagger)

Falando em Doc, também tem na cidade um xerife sem pulso de ferro, Tim Horn (Dean Jagger, 1903-1991), cujo posto é apenas um conveniente para que o pequeno vilarejo afirme a presença de um representante da lei, mas na realidade, Tim, um alcóolatra, é tão manipulado por Reno como todo o resto da pequena cidade.

A atuação vilanêsca de Robert Ryan fez valer o preço do ingresso nas salas de cinema.

Walter Brennan, Spencer Tracy e John Ericson
Após a surra que Coley levou do velho MacReedy, este tenta de todas as maneiras acionar as forças policiais, mas é impedido pela ditadura de Reno, que intercepta qualquer meio de comunicação que o veterano de guerra faça, desde os telégrafos, telefonemas e até o uso de carros. A muito custo, a verdade vem a tona, graças a persuasão de MacReedy e de Doc sobre o jovem e inseguro Pete, que revela que Komoko foi realmente morto por Reno, por este não conseguir se alistar para lutar contra os japoneses.

Lee Marvin e Robert Ryan

Um jovem Lee Marvin vive Hector, um dos capangas de Reno Smith.

Hector, que assumira o posto de xerife no lugar do fraco Tim por escalação de Reno, é dominado e posto a nocaute por Doc e MacReedy, e este vai atrás de Reno, um sujeito sem o menor caráter e escrúpulos, a ponto de assassinar uma de suas aliadas, a não menos bandida Liz, irmã de Pete, que denuncia a presença de MacReedy em seu encalço.

Anne Francis como Liz, aliada de Reno.

Reno tenta matar em MacReedy...

... mas o veterano de guerra coloca Smith em seu devido lugar. 

Mesmo sem um braço, o veterano de guerra, sob a mira do rifle de Reno, consegue pegar uma garrafa vazia e enche-la com uma pequena poção de gasolina que ele consegue esvaziar do carro, fazendo assim um coquetel molotov contra o inimigo. É noite, e Reno atira em direção de MacReedy, que joga o recipiente sobre o vilão, que começa a incendiar-se e  pedir socorro.

Spencer Tracy em seu último filme para a MGM

Com a missão cumprida, MacReedy volta para casa.

Por fim, a quadrilha toda é dominada e entregue a Tim, encarregado de entregar Reno e os demais (Coley, Hector e Pete) as autoridades. MacReedy não viera apenas para encontrar o amigo japonês, mas também entregar a ele uma medalha que o filho dele, morto em combate, havia ganhado do governo dos Estados Unidos. Com Komoko morto, para quem entregaria esta honra? Resolveu entregar para Doc e a comunidade, como uma maneira de representar a paz estabelecida em Black Rock, após 24 horas de um péssimo dia, como diz literalmente o título original deste clássico.

Lee Marvin e Spencer Tracy

Tracy e Annie Francis.

A fita tem ingredientes interessantes, com mistura de história policial, detetivesca e com  suspense noir, com alguns elementos do western, muito embora não seja do gênero (há quem defina!),  mas sobretudo um thriller  com ambiente (de fundo social) tendo como cenário o Oeste do Século XX.  A visão de uma América de consciências mortas, quando os Estados Unidos ainda sofria os efeitos do Macarthismo , foi uma das primeiras utilizações criativas do então novo formato de tela Cinemascope.

Conspiração do Silêncio

Ernest Borgnine e Lee Marvin estão impecáveis em seus papéis de vilões, assim como o brilhante Robert Ryan como o mais famigerado deles. Spencer Tracy recebeu mais uma indicação ao Oscar (sua quinta) e o filme também foi indicado ao prêmio na categoria de melhor roteiro. Cinco dos membros do elenco tiveram um total de oito Oscars: Spencer Tracy tinha dois, e Walter Brennan teve três como coadjuvante. Lee Marvin, Dean Jagger e Ernest Borgnine tiveram uma estatueta cada.

Tracy e Ryan se enfrenatando sob os olhares do diretor Sturges e toda equipe. 
A Excelente direção de John Sturges ajudou a garantir a popularidade desta película, que lhe deu uma indicação ao Oscar de melhor direção por este suspense apreensivo que também aborda o preconceito racial. CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO foi baseado em história de Howard Breslin (1912-1964) e veio na esteira de outro grande clássico, Matar ou Morrer (1952) de Fred Zinnemann, realizado três anos antes, ao analisar a atmosfera do medo coletivo que se apossa em uma comunidade rural.  Um suspense efetivo e de impacto crescente, capaz ainda de prender a atenção no espectador de hoje (a temática racista e xenofóbica merece análise acurada), passados quase 70 anos de sua realização. A fotografia é de William C. Mellor (1903-1963) e a música de Andre Previn (1929-2019). 


John Sturges dirigiu CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO (1955)

Em cartaz nas grandes salas do Cine Metro no Rio de Janeiro

CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO (1955) foi estrondoso sucesso de crítica e público pelas salas de exibição no Rio de Janeiro em 1955 (e como filme da MGM, exibido nos três cinemas Metros então existentes na cidade). 

                                

FICHA 

TÉCNICA

Divulgação

    CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

(Bad Day At Black Rock)    

Ano de Produção: 1955

Gênero: Criminal – Suspense – Drama

Direção: John Sturges

Produção: Dore Schary, em produção e distribuição da Metro Goldwyn Mayer.

Roteiro: William Kauffman e Don McGuire, com base em romance de William Breslin

Fotografia: William C. Mellor (Em Cores)

Montagem: Newell P. Kimlay

Trilha Sonora:  Andre Previn

Metragem: 81 minutos

ELENCO

Spencer Tracy – John J. MacReedy

Robert Ryan – Reno Smith

Anne Francis – Liz Wirth

Dean Jagger – Tim Horn

Walter Brennan – Doc Velie

John Ericson – Pete Wirth

Ernest Borgnine – Coley Trimble

Lee Marvin – Hector David

Russel Collins – Mr. Hastings

Walter Sand – Sam

Harry Harvey - Condutor do trem.




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