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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Os Profissionais (1966): A Resposta do Faroeste Norte-Americano Para os Westerns Europeus

Divulgação

Em 1966, os faroestes italianos estavam em franca ascensão, após o estrondoso sucesso da trilogia de Sergio Leone (Por Um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais, Três Homens em Conflito) e de obras como Django, de 1966, dirigido por Sergio Corbucci, e O Dólar Furado, de 1965. O novo estilo de se fazer westerns por parte de cineastas europeus já haviam conquistado as plateias. O velho estilo americano não parecia mais cativar o público, que exigia mais ação do que qualquer outra coisa. Prova disso, é que não demorou que ambos os lados, americanos e europeus, duelassem entre si para quem era o detentor das verdadeiras superproduções do gênero Western, gênero este que há de convir, é genuinamente americano por excelência. Mas que os europeus moldaram e ainda ajudaram a dar sobrevida ao gênero.


DIVULGAÇÃO

O diretor Richard Brooks, de branco, com sua equipe nas locações de OS PROFISSIONAIS, no México
O Cineasta Brooks, sem camisa, conversando com Lee Marvin, sob os olhares de Burt Lancaster e Woody Strode, num intervalo das filmagens.
Em geral, os faroestes italianos situavam suas tramas no México, lugar bem sugestivo, onde o foco era os mercenários tão bem retratados por Clint Eastwood nas obras de Sergio Leone. Nos westerns Spaghetti não existe o herói tão externado nos westerns americanos de praxe. Logo, para que Hollywood não perdesse o duelo com os estrangeiros, precisou fazer uma releitura e levar os elementos bem estigmatizados nos faroestes italianos para os faroestes norte-americanos. E isso exatamente veio a acontecer em Os Profissionais (The Professionals) em 1966, dirigido por Richard Brooks (1912-1992), outrora um roteirista conceituado que se tornou cineasta, e dos bons.

OS QUATRO "PROFISSIONAIS"
Jake  (Woody Strode), Ehrengard (Robert Ryan) e Fardan (Lee Marvin)

Os Profissionais é um western de proporção bem aventuresca, reabrindo de alto a baixo a fronteira mexicana, estrada esta percorrida em muitos dos faroestes italianos e que até mesmo o lendário cineasta Eric Von Stroheim já havia feito o mesmo itinerário em sua obra Ouro e Maldição, de 1928. Quando pensamos no velho México como rota de bandoleiros, o que desenhamos nas nossas mentes? Muita tequila, muitas muchachas, e claro, bandidos e toda crueldade de violência. E isso sem contar ainda que uma revolução estava em processo em 1917, onde dela se emergiu alguns mitos, como Pancho Villa ou Emiliano Zapata, mitos estes que o próprio cinema se encarregou de levar suas vidas para as telas, sempre às vezes com um pouco de lenda e romance. O interessante que Brooks ao levar seu western recorre a estes elementos de ação tão divulgados por Leone e Corbucci, sem é claro de deixar de prestar uma homenagem ao clássico O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston, onde Brooks aproximou seu western a uma energética tensão comparado a obra de Huston. Aliás, Os Profissionais relembra numa só vez outros filmes do gênero, contudo cada um com seu enquadramento ou temática, como por exemplo, a densidade pictoricamente dramática de Ouro e Maldição, as colonizações políticas de Viva Zapata, e até mesmo, do sarcasmo mercenário de Vera Cruz, de Robert Aldrich, onde há quem diga que os cineastas italianos se inspiraram neste filme para compor eles mesmos seus trabalhos ao estilo.

Fardan e Dolworth, dois "Soldados da Fortuna"
Ehrengard e Dolworth, examinando os riscos
O Aventureiro Jake e Maria
Seja como for, Os Profissionais restaurou a carreira de Richard Brooks, que estava em momentâneo declínio após o fracasso de seu filme anterior, Lord Jim, que o deixou bem abalado. Brooks era um de tantos diretores da década de 1960 para quem a aventura, além de um objetivo dominante, pode ser um verdadeiro exercício ao estilo. A aventura indômita e sem subterfúgios, dela emergindo uma emoção, uma nuance psicológica, mas sempre a frente do perigo, que também não se desprende de uma intenção ética se esse perigo coloca personagens em crise ou acelera o processo de uma decisão individual. No caso, o que se decide é o valor da revolução mexicana de 1917 e “os profissionais” do título irão discuti-lo nos momentos de trégua de suas aventuras, quando é preciso pensar antes de prosseguir com a caminhada.

Maria (Claudia Cardinale) e Raza (Jack Palance)
O barão Grant, vivido por Ralph Bellamy
Claudia Cardinale é Maria
WESTERN com ritmo de bang bang a italiana, traz vários personagens embarcados numa aventura em comum, e chegam até mesmo a serem solidários, chegando ao ponto de decidir entre o amor de Maria (Claudia Cardinale) e a arrogância de Grant (Ralph Bellamy,1904-1991). Sim, nossos “heróis” são mercenários, mas ainda tem escrúpulos, embora sejam contratados por Grant, um fazendeiro e político muito rico, que os contrata para resgatar a jovem mexicana Maria, sua esposa, que fora raptada por Raza (Jack Palance, 1919-2006), um bandoleiro mexicano. A recompensa atraí “os profissionais”.

Lee Marvin é Fardan

Robert Ryan é Ehrengard

Burt Lancaster é Dolworth
Woody Strode é Jake
Grant contrata quatro “profissionais” de guerrilha para resgatar sua mulher. São eles: Fardan (Lee Marvin, 1924-1987) e Dolworth (Burt Lancaster, 1913-1994), outrora adeptos de Raza; Ehrengard (Robert Ryan, 1909-1973), um especialista em cavalos; e um caçador de recompensas negro, Jake (Woody Strode, 1914-1994), que é perito em arco e flecha. De repente, tudo parece se modificar, e os “profissionais” contratados por Grant partem juntos com os homens de Raza, a luta continua contra um adversário comum. A situação parece se inverter, mas na verdade esta apenas se renovando à medida que a aventura desliza, ereta, em trânsito, para outras façanhas. Entre um acordo fraudulento e a simpatia política pelos revolucionários, os quatro “profissionais” não vacilam e escolhem a sua segunda chance. Aliás, é a oportunidade da “segunda chance” o tema abordado nesta fita de Brooks, que ele abordara em Lord Jim, mas que em Os Profissionais ele restaura não com tanto manifesto como o fez na sua adaptação cinematográfica do livro de Joseph Conrad, mas sim, categoricamente enquadrado. Como Lord Jim, Os Profissionais promovem com a reviravolta final, a sua retratação ética. 

Com Fardan não se brinca.
A estratégia de Dolworth
DIVULGAÇÃO

O crítico inglês David Adams comparou Os Profissionais a Sete Homens e Um Destino, a conversão ao Western da coreográfica violência de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Entre os pontos de identidade entre os dois filmes, o ator mexicano Jorge Martinez de Hoyos (1920-1997) em papel equivalente, o prólogo apresentando em sua especialidade os heróis convocados para a missão; a música de Maurice Jarre (1924-2009), recompondo a suíte mexicana de Elmer Bernstein; e na trama, a recaptura de uma mulher em pleno deserto. Em vez dos “sete magníficos”, quatro “profissionais” que são mercenários, aventureiros, “soldados da fortuna”.

Claudia Cardinale & Lee Marvin

O revolucionário Raza, vivido por Jack Palance, sendo cuidado por Maria
DIVULGAÇÃO

Os “Profissionais” agem juntos, mas cada um tem uma personalidade. Dentre eles, o caráter de Dolworth (Lancaster) antagoniza com a personalidade de Fardan (Marvin), e muito embora amigos, trava-se um conflito entre os dois que irá conferir ao filme seu suplemento ideológico.

Jack Palance é Raza.
Lee Marvin & Robert Ryan

Mas é a categoria do elenco, que nem sempre Hollywood pode reunir uma constelação de estrelas como se reuniu para a composição desta fita, que dá equilíbrio a trama, e não deixou de ser de propósito a escalação de Claudia Cardinale para o papel de Maria. Se Brooks quis mesmo realizar um trabalho no gênero Western aos moldes dos cineastas europeus, a convocação da atriz italiana não foi coincidência. O roteiro redigido por Brooks, que nem sempre foi disciplinado a sua vocação literária, por sua vez adaptou a novela de Frank O’ Rourke (1916-1989) intitulada A Mule for the Marquesa, e pôde colocar na boca da protagonista feminina e do revolucionário Raza, vivido por Jack Palance, verdades românticas e frases feitas, cuja função, na imagem ríspida da aventura, chega a ser inadequada e postiça. 

Woody Strode e Lee Marvin conversam durante uma folga das filmagens.
A Bela italiana Claudia Cardinale num Western americano
Robert Ryan como Ehrengard em ação
Talvez essa deficiência na estruturação dos personagens com a linha política não entrava, porém, a marcha indômita dos “Profissionais” não diminui a tensão, a tenacidade, e o ritmo tão bem enquadrados num bom espetáculo de ação. A partir desta obra é que os cineastas americanos passaram a inovar o bom e tradicional cinema de faroeste, afinal, não queriam perder o terreno para os italianos. Seja como for, passados quase 60 anos de seu lançamento, Os Profissionais foi a resposta americana para os então producentes faroestes italianos que vigorava na moda, sendo até hoje capaz de prender o espectador, mesmo o mais jovem, pois expressa o perfeito domínio do cineasta Richard Brooks e o dos astros Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Woody Strode, Jack Palance, e claro, Claudia Cardinale, sobre as leis do espetáculo e o avanço do tempo.

Jack Palance em OS PROFISSIONAIS (1966)

Marie Gomez é Chiquita, uma revolucionária a serviço de Raza

Divulgação de OS PROFISSIONAIS nas salas do Rio de Janeiro, pelos jornais. O CINE ODEON, ainda de pé na Cinelândia, foi uma das salas a abrigar o espetáculo.

FICHA TÉCNICA

OS

PROFISSIONAIS

(The Professionals)

Título Original – The Professionals

Ano – 1966

Direção – Richard Brooks

Produção - Richard Brooks para Columbia (distribuição)

Roteiro – Richard Brooks e Frank O’ Rourke, baseado no livro A Mule for The Marquesa, de Frank O' Rourke.

Gênero - Western

País- Estados Unidos

Fotografia - Conrad Hall (em cores)

Música - Maurice Jarre

Metragem - 117 minutos

ELENCO

Lee Marvin  - Henry "Rico" Fardan

Burt Lancaster - Bill Dolworth

Robert Ryan - Hans Ehrengard

Woody Strode - Jake Sharp

Jack Palance – Jesus Raza

Ralph Bellamy  -  J.W. Grant

Claudia Cardinale -  Maria

Maria Gomez -  Chiquita

Joe De Santis - Ortega

Jorge Martinez de Hoyos -  Eduardo Padilla

Carlos Romero – Revolucionário

Vaughn Taylor - Revolucionário

Don Carlos – Bandido

Roberto Contreras – Bandido

Nelson Sardelli – Revolucionário de Raza


sábado, 17 de junho de 2023

Doutor Jivago (1965): A Epopeia Romântica e Política em uma saga soviética de David Lean.


Doutor Jivago (Doctor Zhivago), produzido em 1965, tem a fama de ser um dos filmes mais suntuosos que a Sétima Arte já produziu, e também não foi para menos.  Precisou-se de quase três anos de preparos ao custo de 11 milhões de dólares. Todavia, o filme arrecadou só no mercado norte-americano 46, 5 milhões de dólares, e ainda arrebatou os Oscars de melhor roteiro adaptado (Robert Bolt, 1924-1995), melhor foto em cores (Freddie Young, 1902-1998), melhor música (Maurice Jarre, 1924-2009 – com o famoso “Tema de Lara”), melhor cenografia em cores, e melhor vestuário em cores.

SAGA PARA UMA REALIZAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Produzido em plena Guerra Fria, Doutor Jivago serviu de propaganda anticomunista por mostrar os horrores da Revolução Bolchevista que promoveu o povo russo à pobreza e a miséria, sujeitando à frieza e o autoritarismo dos líderes revolucionários.

O Cineasta David Lean (1908-1991)
Sob a direção do austero cineasta inglês David Lean (1908-1991), este fez questão de rodar sua superprodução na Espanha (imitando a Russia) e na Finlândia (passando pela Sibéria). Aliás, a Espanha sempre foi o clássico refúgio dos cineastas e produtores cinematográficos, pois era mais lucrativo para a contenção de despesas, assim, a Metro-Goldwyn-Mayer, produtora do filme, escolheu o local para a rodagem desta grande superprodução.

Lean entre Geraldine Chaplin e Julie Christie, as estrelas de DOUTOR JIVAGO (1965)
Geraldine Chaplin e Julie Christie, em uma foto durante intervalo de filmagem.
Lean escolheu precisamente a cidade de Sória (Espanha) para o início de seu épico. Daí veio algumas complicações, pois o local é uma das regiões mais frias do país, muito embora não fosse problema em obter caracteristicamente neves “russas”. Entretanto, em fins de janeiro de 1963, frio e inverno como é em toda a Europa, a neve não resolvia aparecer, e o elenco se sentia desanimado. Nisto, uma bela nevada veio a ocorrer, dando início, finalmente, as filmagens.

Omar Sharif durante uma pausa nas filmagens, em Madrid.
O Cast magnífico de DOUTOR JIVAGO (1965) no friorento inverno europeu.
David Lean se entregou de corpo e alma ao trabalho, justificando cem por cento sua fama de extrema meticulosidade e concentração em sua metodologia de trabalho.  O cineasta fez questão de recriar o caráter exato dos personagens de acordo com o livro de Boris Pasternak, partindo do princípio que os tipos descritos no romance eram gente comum, apanhados dentro da engrenagem da revolução e sofrendo as consequências dos fatos. Assim, para Lean personifica-los nas telas de cinema, os atores tinham que ser bem especiais, para assim confeccionar sua saga soviética com proporções bem épicas a altura de um grande espetáculo.


O LIVRO DE BORIS PASTERNAK

O filme de Lean, em seus 197 minutos de projeção, comprime-se com o volumoso romance (publicado em 1957) do russo Boris Pasternak (1890-1960), um dos primeiros escritores dissidentes da União-Soviética. Pasternak começou a escrever o romance em 1946 e levou dez anos para concluí-lo. Ao terminar, ficou inseguro se devia publicá-lo, pois a obra contrariava as normas ditadas pelo governo soviético para a literatura.

BORIS PASTERNAK, o autor do romance DOUTOR JIVAGO, iniciado em 1946 e concluído em dez anos depois.
Sem condições de publicar seu romance em terras soviéticas, o livro foi publicado na Itália a 23 de novembro de 1957, conseguindo rápida notoriedade em 1958, quando lhe foi conferido o Premio Nobel de Literatura. Infelizmente, por imposição do Kremlin, Pasternak não pôde aceitar a láurea, pois caso fizesse, isso poderia levá-lo à detenção em um campo de trabalho forçado na Sibéria. 

Boris Pasternak (1890-1960) poeta e romancista russo, Prêmio Nobel de Literatura em 1958, não pôde aceitar a premiação.
Na Rússia, Boris é mais conhecido como poeta do que como romancista, em virtude de o livro Doutor Jivago não ter feito sucesso na antiga União Soviética por motivos obviamente políticos. É interessante observar, no entanto, que o personagem principal, homônimo ao livro, é justamente um poeta, que tem problemas com as autoridades soviéticas, embora simpatizante da causa dos deserdados. Assim, é possível afirmar que Doutor Jivago é o alter-ego do próprio autor do romance, Boris Pasternak.

Exemplar americano de uma edição do romance DOUTOR JIVAGO, de Boris Pasternak, publicado durante o embalo do filme, em 1966.
A obra literária foi proibida na União Soviética até 1989, quando a política de abertura de Mikhail Gorbachev liberou a publicação do livro. Somente a partir daquele ano, os russos puderam conhecer a saga de Jivago através da literatura. Boris Pasternak morreu a 30 de maio de 1960 de câncer de pulmão, sem poder assistir ao estrondoso sucesso da adaptação cinematográfica de seu famoso e imortal romance. 

DAVID LEAN, O SENHOR DOS ESPETÁCULOS
David Lean, o diretor de DOUTOR JIVAGO (1965)
Robert Bolt, escritor e roteirista, que deu vida ao
script de DOUTOR JIVAGO (1965)
O fotógrafo Freddie Young que realizou um trabalho competente de fotografia para DOUTOR JIVAGO (1965)
O produtor Carlo Ponti (1912-2007) adquiriu os direitos do romance de Pasternak para as filmagens deste grandioso espetáculo, contratando o roteirista Robert Bolt para editar o script, que o fez em 224 páginas. David Lean se encarregou de concretizar um grande elenco internacional, sendo Doutor Jivago o terceiro título da última fase de sua carreira marcada de superproduções espetaculares, desde A Ponte do Rio Kwai (1957), passando por Lawrence da Arábia (1962), e culminando com A Filha de Ryan (1970). Ou seja: foram apenas quatro filmes em 13 anos, todos detentores do Oscar, muito embora o período de maior prestígio crítico de David Lean seja seus trabalhos anteriores realizados em sua pátria natal, como Desencanto (1945), Grandes Esperanças (1947), Oliver Twist (1948), e Sem Barreiras no Céu (1952).

O Compositor Maurice Jarre escreveu a partitura de DOUTOR JIVAGO (1965), e o "Tema de Lara"  ganhou o Oscar por Melhor Composição.
David Lean comandando a direção durante as filmagens.
Com exceção de A Ponte do Rio Kwai, as outras três superproduções dirigidas por Lean contaram com a colaboração do roteirista Robert Bold para o argumento, além do fotógrafo Freddie Young, e do compositor Maurice Jarre. E como os demais superespetáculos dirigidos por Lean, bem assessorados por uma competente equipe onde estão inclusos um inteligente roteirista, um fotógrafo brilhante, e um compositor magistral, também não poderia deixar de ostentar um elenco All Star para dar vida cinematográfica ao romance de Boris Pasternak

O ELENCO
Omar Sharif como o DOUTOR JIVAGO (1965)
Para encarnar o papel-título, caracterizado pelo seu desprendimento das coisas, refinamento e nobreza, a escolha recaiu sobre Omar Sharif (1932-2015), ator de grande força e presença.

Geraldine Chaplin, sensacional como a esposa de Jivago, Tonya.
Geraldine Chaplin foi convocada para viver Tonya, esposa de Jivago, mas não demorou, suscitou imediatamente uma onda de comentários maldosos. Segundo as más línguas (e infelizes!), o único mérito da atriz era por ser filha de Charles Chaplin (1889-1977) e que toda sua arte resumia-se nisto. Contudo, estes boatos foram desmentidos violentamente por David Lean, que afirmou tê-la escolhido pela excelente qualidade de seus testes feitos para o papel antes do contrato.

Julie Christie como Lara, o verdadeiro amor do protagonista.

O terceiro papel importante, o de Lara, outro amor de Jivago, coube a Julie Christie, então nesta época uma atriz muito promissora, com experiência em teatro, e que não tardaria a ganhar o Oscar como melhor atriz, em 1965, pela sua atuação em Darling, a que Amou Demais/Darling, de John Schlesinger (1926-2003), onde posteriormente revelou ser uma artista de grande talento através dos anos.

Alec Guinness, um dos grandes nomes da película, como o irmão de Jivago.
Sir Ralph Richardson, como o pai adotivo de Jivago.
Rod Steiger como o nojento e inescrupuloso negociante Victor Komarovsky
Assim, contratando um elenco de primeira grandeza liderado por um ator de grande porte como Omar Sharif (seu filho, Tarek Sharif, faz ponta no filme como Jivago aos 8 anos de idade), dando uma fabulosa oportunidade a uma atriz como Julie Christie, então quase uma novata – e ainda, chamando uma artista sem nenhuma experiência prévia no cinema como Geraldine Chaplin, o diretor David Lean desmentiu por vez o antigo e arraigado conceito de que só se emprega “rios de dinheiro” num filme que disponha de grandes nomes, verdadeiros chamarizes de bilheteria. Além de Sharif, Chaplin, e Christie, Tom Courtenay, Alec Guinness (1914-2000), Ralph Richardson (1902-1983), Rod Steiger (1925-2002), Siobhan McKenna (1923-1986), Rita Tushingham, e Klaus Kinski (1926-1991), são alguns outros nomes não menos importantes que despontam nesta obra prima da Sétima Arte.

 A TRAMA
Em suas 3 horas e 17 minutos de duração, Lean descreve a saga de Yuri Jivago (Omar Sharif), médico que se casa com uma amiga de infância, Tonya (Geraldine Chaplin), na Moscou do início do século XX, e com ela, vem a ter um filho. Contudo, Jivago se aproxima de Lara (Julie Christie), jovem estudante ligada a um revolucionário idealista, Pavel Antipov (Tom Courtenay), apelidado de Pasha. Mas vem o médico, a saber, que ela é protegida por Victor Komarovsky (Rod Steiger), um nojento e inescrupuloso negociante.  

Jivago e Tonya no meio das dificuldades.
Omar Sharif como o poeta, aristocrata, e médico, Yuri Jivago.
Yuri Jivago, um homem idealista.
Quando Lara decide se casar com Pasha, ela é humilhada e brutalizada por Komarovsky. Quando eclode a Primeira Guerra Mundial, Jivago reencontra Lara, que havia se tornado uma enfermeira voluntária a fim de localizar o marido perdido no front. Com a Revolução de 1917, Jivago se muda com sua família para o vilarejo de Varykino nos Montes Urais, onde tem um encontro com Pasha, agora um oficial desumano e fanático.

O negociante Komarovsky, "protegendo" Lara e sua mãe.
Cansada dos abusos, Lara resolve se vingar de Komavosky.
Julie Christie, em um grande desempenho como a sofrida Lara.
Ainda mais tarde, o médico reencontrará Lara, e se tornam amantes. Compulsoriamente convocados pelos partisans, o médico é liberado, mas descobre que sua esposa Tonya e seu filho voltaram a Moscou. Novamente o destino colocará Jivago junto a Lara, em Varykino.

OS BOLCHEVIQUES - Ao ataque!
A amarga e dura Revolução.
A Guerra Civil entre os exércitos.
Através da saga de Yuri Jivago, a plateia viaja pela transição revolucionária. Inicia-se ainda na Rússia dos Czares, as manifestações populares promovidas pelos bolcheviques, a repressão feroz aos movimentos, a revolução, e o pós-revolução com a guerra civil entre exércitos vermelhos e brancos.

No meio de tanta dor...
existe o momento do amor, e dos reencontros.
Podemos notar também o discurso de crítica ao sistema socialista nas cenas anteriores e posteriores à revolução. Antes da revolução é mostrada uma Rússia com uma aristocracia rica, belos salões, culta e, até mesmo, despreocupada.


Yuri Jivago e sua amada Lara
O casal Yuri e Tonya
Jivago ainda como estudante de Medicina.
O próprio Jivago é um médico e poeta aristocrata de sucesso. Após a revolução, todo o cenário e a sociedade até então elitista, se empobrecem. Inclusive Jivago, que perde as propriedades e acaba pobre e doente. Este percurso da trama descreve o senso comum de que o socialismo divide a pobreza e a miséria, corroborando ser um método político promotor da desgraça.

Yevgraf (Alec Guinness), a procura da filha de seu irmão, que pode ser esta garota (Rita Tushingham)
Lara e sua filha com Jivago, depois desaparecida.
Em meio a dor e ao sofrimento das guerras, uma imortal história de amor.
Mas Doutor Jivago, além de ser uma epopeia política, denunciando os horrores do socialismo, também se concentra na história de amor entre o médico e sua amada Lara, um amor que nunca os une em definitivo, mas sempre em dose de reencontros.  

Doutor Jivago operando um soldado ferido, tendo Lara como sua ajudante.
DOUTOR JIVAGO, de 1965. Direção de David Lean. Uma das obras primas mais suntuosas de toda a História da Sétima Arte.
Assim, a superprodução dirigida majestosamente por David Lean, se propôs com um tremendo clima dramático recriar um épico em que se expôs ao mundo uma visão ciclópica de um caos deliberadamente armado. Uma obra cinematográfica pletórica de tempestades de guerra, de revoluções, de paixões humanas, e da natureza em fúria. Enfim, um grande sucesso do cinema mundial.

Propaganda de um jornal carioca, a 13 de junho de 1966, com intuito de promover o lançamento do filme nas salas de cinema do Rio de Janeiro, com pompas merecidamente devidas.

FICHA 
TÉCNICA

DOUTOR JIVAGO

(Doctor Zhivago)

Pais: Estados Unidos/Inglaterra

Ano: 1965

Gênero: Drama, Romance, Épico

Direção: David Lean

Roteiro:  Robert Bolt, com base em romance de Boris Pasternak

Produção: Carlo Ponti, para a Metro Goldwyn Mayer

Trilha Sonora: Maurice Jarre

Fotografia: Frederick A. Young

Edição:    Norman Savage

Direção de Arte: Terence Marsh, Dario Simoni

Figurino: Phyllis Dalton

Maquiagem: Mario Van Riel, Grazia De Rossi, Anna Cristofani

Efeitos Sonoros: A.W. Watkins, Franklin Milton, Paddy Cunningham

Efeitos Especiais: Eddie Fowlie

Tempo de Duração: 197 minutos 


DIVULGAÇÃO

ELENCO
Omar Sharif - Dr. Yuri Jivago

Julie Christie - Lara Antipova

Geraldine Chaplin- Tonya

Rod Steiger  - Victor Komarovsky

Alec Guinness - General Yevgraf Jivago

Tom Courtenay   - Pasha Antipova

Siobhan McKenna - Anna

Ralph Richardson - Alexander Gromeko

Rita Tushingham - Tonya Komarova

Jeffrey Rockland - Sasha

Tarek Sharif - Yuri, aos 8 anos

Bernard Kay - Bolshevik

Klaus Kinski - Kostoyed Amourski

Gérard Tichy - Liberius

Noel Willman - Razin

Geoffrey Keen - Boris Kurt

Adrienne Corri - Amelia, mãe de Lara


DIVULGAÇÃO


PRÊMIOS

Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, EUA

Oscar de Melhor Fotografia a Cores (Freddie Young )

Oscar de Melhor Trilha Sonora (Maurice Jarre )

Oscar de Melhor Figurino (Phyllis Dalton )

Oscar de Melhor Direção de Arte - Decoração de Cenários (John Box, Dario Simoni, Terence Marsh)

Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (Robert Bolt)

 

Prêmios Globo de Ouro, EUA

Prêmio de Melhor Filme - Drama

Prêmio de Melhor Trilha Sonora Original (Maurice Jarre)

Prêmio de Melhor Roteiro (Robert Bolt)

Prêmio de Melhor Direção (David Lean)

Prêmio de Melhor Ator em um Drama (Omar Sharif)

 

Prêmios David di Donatello, Itália

Prêmio de Melhor Direção de um Filme Estrangeiro (David Lean )

David de Melhor Produção Estrangeira (Carlo Ponti)

David de Melhor Atriz Estrangeira (Julie Christie)

 

Prêmios Grammy, EUA

Grammy de Melhor Trilha Sonora (Maurice Jarre)

 

Prêmios Laurel, USA

Prêmio Laurel de Ouro de Melhor Drama







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