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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Amarga Esperança (1948): Nicholas Ray Estreia em sua Quintessência Cinematográfica



Amarga Esperança (They Live be Night)produzido em 1948, se resumiu para muitos críticos como a quintessência da arte de Nicholas Ray (1911-1979), o cineasta das paixões crepusculares e da juventude desajustada e incompreendida, que fez aqui sua estreia como diretor, onde a fita em tópico prefigura com sua obra mais famosa, Juventude Transviada, de 1956.

O Cineasta Nicholas Ray (1911-1979) - Diretor de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Farley Granger e Cathy O' Donnell, o par romântico e dramático
de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Em 1947, o produtor Dory Schary (1905-1980), então na chefia dos estúdios da RKO, decidiu dar chance a novos diretores com filmes de baixo orçamento, e por sugestão de outro produtor, John Houseman (1902-1988), que era amigo de Nicholas Ray, convidou este para levar a tela o romance escrito em 1943 por Edward Anderson (1905-1969), intitulado Thieves Like Us. Ray dirigiu Amarga Esperança em apenas sete semanas.

Lobby Card de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Entretanto, em 1948, o magnata Howard Hughes (1905-1976) comprou a RKO e engavetou o filme de Ray por dois anos depois de pronto, lançando somente a 5 de novembro de 1949, quando já haviam sido exibidos nos cinemas duas outras obras do cineasta: A Vida íntima de uma Mulher, de 1948, e O Crime Não Compensa, de 1949. 

Bowie (Farley Granger) e Keechie (Cathy O' Donnell). O
desespero de dois jovens que se amam.
Como geralmente acontece com algumas obras primas da Sétima Arte, Amarga Esperança teve seu mérito reconhecido como tal anos depois. Quando lançado em sua época, era considerado um filme policial Classe B. Mas com análise aprofundada, o primeiro filme de Nicholas Ray teve seu reconhecimento como clássico filme noir hollywoodiano, com síntese depurada de toda obra cinematográfica do diretor.

Bowie e Keechie
Um jovem casal que tem um mundo a enfrentar.
Amarga Esperança tem seu prólogo com uma inusitada cena, bem incomum, mas que funciona bem como forma de situar a trama. Ray abre o filme com um rápido plano dos dois amantes, onde aparece a seguinte legenda: “Este rapaz e esta garota ainda não foram realmente apresentados ao mundo”. O clima lúdico da cena e a frase que a acompanha deixam claro que Ray tem o objetivo de mostrar como o mundo pode ser um lugar cruel e opressivo, capaz de destruir sonhos e esperanças de felicidade, sobretudo quando se trata de dois jovens namorados. A partir daí, toda a desenvoltura da história esta prestes a ser apresentada. 

T-Dub (Jay C. Flippen), Bowie (Farley Granger) e Chickamaw
(Howard Da Silva). Três fugitivos da penitenciária do Mississipi.
Os três fugitivos já rendem uma vítima.

Com uma narração chiaroscuro  e clima de fatalismo, estampa a caçada policial de três fugitivos de uma penitenciária do Mississipi, e são eles: Bowie (Farley Granger, 1925-2011), Chickamaw (Howard Da Silva, 1909-1986), e T-Dub (Jay C. Flippen, 1899-1971). Bowie reencontra a namorada Keechie (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), e o jovem casal se opõe a uma sociedade hostil em um amor sem ilusões. E é exatamente nesse sentido que o filme tem seus méritos. Ray é extremamente hábil na construção da atmosfera de desespero na qual o casal se encontra. A utilização da noite como prisão e, ao mesmo tempo, única condição na qual os personagens se sentem confortáveis é de uma eficácia inegável.

Keechie e Bowie: a utilização da noite como prisão, sendo 
a única condição na qual os personagens se sentem em liberdade.
Keechie e o trio de fugitivos.

O tema é constantemente arquitetado, tanto pela câmera de Ray quanto pelos diálogos, fazendo com que o próprio espectador sinta-se inseguro quando o casal está em plena luz do dia. A sensação é a de que o mundo construiu para Bowie e Keechie uma emboscada da qual eles não conseguem sair. As tomadas aéreas de helicópteros (uma inovação para o cinema até então) ainda colaboram para a criação desse clima, reforçando a ideia de que se trata de uma história de fuga, não de amor. O toque fotográfico de George E. Diskant (1907–1965) e a trilha sonora de Leigh Harline (1907-1969) dão mais brilho ao espetáculo. 

Bowie e Keechie, em um momento de paz.
Keechie e Bowie: um jovem casal que se ama
Nesse sentido, é possível notar o tom autoral que desenrola toda a fita. Nick Ray apresenta em Amarga Esperança o ponto de partida para alguns temas que seriam bem característicos em sua filmografia: além do clima noir, destaca-se um olhar de ternura para os personagens centrais que vivem à margem da sociedade. Bowie, em sua essência, não é uma pessoa ruim, ainda que seja visto assim pelas pessoas. Ray trata-o exatamente dessa forma, como se Bowie tentasse se encaixar no ambiente que o cerca para viver uma vida normal, mas sendo constantemente repelido por seus esforços, e o mesmo acontece com sua amada Keechie.

A ação é violenta por parte do trio de fugitivos.
Bowie, na esperança de se unir a mulher que ama.
A partir daí, nasceu à preferência do diretor por personagens amargurados, perdidos, que não conseguem encontrar seu lugar na sociedade. Ele fez isso com protagonistas vividos por grandes atores em outras obras por ele assinado. Basta vermos o policial amargo e estressado vivido por Robert Ryan em Cinzas que Queimam (1951), que não aceitava ser marginalizado em sua profissão pela sociedade; ou ainda o roteirista iconoclasta e violento vivido por Humphrey Bogart que prezava mais seu ego artístico do que viver sob as regras sociais em No Silêncio da Noite (1950). 

Mas o jovem casal anda sempre em fuga.
Bowie sendo ameaçado por Chickamaw
Deste modo, Nicholas Ray situa seus personagens em um mundo a parte, comunicando na pureza dessa relação amorosa de dois seres perdidos nas trevas da noite – Bowie um fugitivo da lei, e Keechie, a filha de um alcoólatra – uma romântica indignação social. E se coloca ao lado da poética solidão e da dignidade de seus sentimentos, que o meio circundante ameaçador quer destruir com suas regras petrificadas e desumanas.

O trio de fugitivos tem como aliada Mattie, vivida por Helen Craig
Keechie e Bowie, tentando fugir da lei
Amarga Esperança, apesar de um bom filme, sobrevive até hoje graças à curiosidade de ser o trabalho de estreia de Nicholas Ray. É uma obra bem construída e com diversos valores, ainda que a trama em si tenha sido prejudicada pela ação do tempo. Mas aqui é o momento no qual o cineasta coloca em celuloide, pela primeira vez, sua visão de mundo que se faria presente em toda a filmografia e o faria entrar para o rol dos maiores cineastas de todos os tempos. Um ponto de partida curioso para uma das carreiras mais prolíferas não somente em Hollywood como também em todo o cinema internacional.

AMARGA ESPERANÇA de 1948. Um clássico de Nicholas Ray 
Sem deixar pontos de similaridade com Vive-se só Uma Vez (1937), dirigido por Fritz Lang, onde outro inocente (vivido por Henry Fonda) parecia vencido por um trágico destino e uma sociedade injusta – Amarga Esperança é uma criação fundamental de Nicholas Ray, que segue aqui suas mais absolutas características compostas por grande parte de seu trabalho. A defesa da juventude desajustada, a convicção que nesta vida o amor e o lirismo são impossíveis, e finalmente um desesperado cântico para dois amantes que não pertencem a este mundo, existente no silêncio da noite, símbolo da morte inelutável. Assim é o cinema de Nicholas Ray. Assim é Amarga Esperança




FICHA TÉCNICA

AMARGA ESPERANÇA

(They Live by Night)

Ano de Produção: 1948 

Gênero: Policial - noir 

País: Estados Unidos 

Direção: Nicholas Ray 

Produção: John Houseman e Dory Schary – para a RKO 

Roteiro: Charles Schnee, Nicholas Ray (adaptação) e Edward Anderson (romance original).

Música: Leigh Harline.

Fotografia: George E. Diskant (em Preto & Branco)

Metragem: 95 minutos.

ELENCO

Cathy O’ Donnel – Keech

Farley Granger – Bowie

Howard Da Silva – Chickamaw

Jay C. Flippen – T-Dub

Helen Craig – Mattie

Will Wright – Mobley

Ian Wolfe – Hawkins

William Phipps – Jovem Farmer

Harry Harver – Hagenheimer

James Nolan - Schreiber



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Farrapo Humano (1945): Billy Wilder leva Ray Milland "a bebida"... e ao Oscar!


FARRAPO HUMANO (The Lost Weekend), produzido em 1945 e dirigido por Billy Wilder (1906-2002) tinha tudo para fracassar na época de sua realização por conta de um tema polêmico, o alcoolismo. Não era uma temática que o público de outrora tinha interesse ou, pelo menos, quisesse evitar maiores escândalos. Entretanto, o cineasta Wilder, um gênio bem à frente de seu tempo, ousou assim mesmo levar as telas o deprimente romance de Charles Jackson (1903-1968), sobre um escritor alcoólatra em processo de autodestruição.  Entretanto, não foi fácil o diretor levar a cabo uma de suas grandes realizações. 

O Cineasta Billy Wilder
O Roteirista Charles Brackett, colaborador de Billy Wilder.
O Romance de Charles Jackson no qual baseou o filme.

Viajando para Nova York onde comprou os direitos do livro de Jackson, Wilder se deparou de frente com Y.Frank Freeman (1890-1969), que era chefe de produção da Paramount, estúdio que produziria e faria sua distribuição. Freeman não concordou em nenhum momento em levar o romance para o cinema, mas graças a Barney Balaban que era presidente da companhia em Nova York, este aprovou o projeto e Wilder pôde levar adiante as filmagens daquele que seria uma de suas gloriosas obras primas de sucesso. 

Billy Wilder dirigindo Ray Milland e Doris Dowling
Ray Milland em sua atuação mais marcante:
FARRAPO HUMANO (1945)
Não fazia muito tempo, Wilder havia testemunhado, sentido e sobrevivido ao alcoolismo de Raymond Chandler, com quem trabalhou no roteiro de Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944). Charles Brackett (1892-1969), parceiro fixo do cineasta e que faria o script para Farrapo Humano, teve uma experiência ainda mais dolorosa: sua esposa e filha eram alcóolatras. A filha morreu ao cair de uma escada, embriagada. Em realidade, o sério e centrado Brackett parecia atrair os literatos alcóolatras de Hollywood. Tinha cuidado de Scott Fitzgerald em muitas de suas várias bebedeiras, e ainda cuidou de Bob Benchley, Dorothy Parker, e Dashiell Hammett.

Ray Milland como Don Birman, escritor arruinado que se submete ao vício do álcool... 
...que tem o apoio do irmão Wick (Phillip Terry) e da namorada Helen (Jane Wyman) para ser livrar da dipsomania.
O assunto era descaradamente cruel e não havia modo de trata-lo de forma sutil. Wilder se consagrou ao realizar uma obra em estilo cruel e cínico, opressiva e exasperante, ao retratar a decadência de um escritor falido, Don Birman (Ray Milland, 1905-1986), que caminha nas ruas de uma Nova York deserta aos finais de semana, sem rumo e sem trégua, trajeto que o leva dos bares para os hospitais, e daí a um possível suicídio. Longe por algumas horas da vigilância do irmão Wick (Phillip Terry, 1909-1993), e da namorada Helen St. James (Jane Wyman, 1917-2007), mas também sem dinheiro para comprar bebida, Birman entrega-se a uma busca mais desesperada que acaba por envolver o próprio espectador numa atmosfera de crescente e insuportável dramaticidade.

Como meio de obter bebida, Birman chega ao cúmulo de penhorar sua ferramenta de trabalho...
... e sair em busca de alguma loja de penhores.
Milland durante as filmagens em plena Terceira Avenida, em Nova York, em um dia de domingo.

Rodado em locações de Nova York, FARRAPO HUMANO é uma obra noir sem contextos criminais. A atmosfera muitas vezes sinistra da ambientação ao qual o personagem central muitas vezes frequenta realça o clima de decadência a que é submetida. O bar de Nat (Howard da Silva, 1909-1986), que em alguns momentos procura ser paternal com Birman, é frequentado por vários tipos, desde os mais “sociais” até escórias. O elevado da Terceira Avenida, pavor e pesadelo dos doentes da ala psiquiátrica do Hospital  Belleuve, não foi ignorado na trama. 

O Barman Nat (Howard Da Silva), que entende o problema de Birman e as vezes o aconselha a largar o vício.
Doris Dowling é Glória, frequentadora do bar de Nat e de queda por Birman.
Uma cena marcante tem Ray Milland, com barba por fazer, caminhando pela Terceira Avenida tentando penhorar sua máquina de escrever, sem notar que todas as lojas de penhor estão fechadas devido a um feriado (e com Milland realmente arrastando-se da famosa Rua 55 até a 110, enquanto a câmera de Wilder o segue, escondida dentro de um caminhão de padaria. A cena foi filmada em um domingo).  Mas é a sequencia de Birman gritando no terror de um delirium tremens, enquanto que um morcego imaginário perseguia uma mosca imaginária na escuridão do apartamento que recebeu maior impacto em FARRAPO HUMANO.  

O Deliriun Tremens de Birman
Helen tenta ajudar o namorado Birman...
... que não consegue largar o vício.
A estreia de FARRAPO HUMANO em Santa Bárbara, Califórnia, foi recebida com risinhos, gargalhadas, e cartões dizendo que o filme era repugnante. O pessimista Y. Frank Freeman, que desde o início não aprovou de levar o livro de Charles Jackson às telas, parecia triunfante e chegou a declarar que deveriam arquivar, abandonar, e “matar” o filme de Wilder. Houve até um boato de que o gangster Frank Costello (1891-1973), representando a indústria de bebidas, pagaria a Paramount a soma de 3 milhões de dólares para destruir o negativo. Mas nenhum apelo contra a obra de Billy Wilder fez efeito, ao contrário. Seis meses depois, Barney Balaban, ardoroso defensor do cineasta, chegou à conclusão de que fazer filmes para depois arquiva-los seria um desperdício, então ordenou a distribuição de FARRAPO HUMANO no outono de 1945, obtendo imediatamente críticas positivas e uma surpreendente acolhida do público.

Divulgação

Mesmo internado em um hospício, Birman não consegue ter paz com Nolan (Frank Finlay), um enfermeiro que mais o prejudica do que ajuda.
A devotada Helen St. James (Jane Wyman) não desiste de Birman e ainda tem esperanças de reabilitar o namorado.

FARRAPO HUMANO conquistou quatro Oscars: Melhor filme de 1945, Melhor Diretor (Billy Wilder), Melhor Roteiro (Charles Brackett), e Melhor Ator (Ray Milland). Milland recebeu merecidamente o prêmio, sua interpretação sustentou todo o filme. O primeiro convidado para fazer o papel foi Jose Ferrer, que não pôde aceitar a parte de Don Birman devido a um contrato com a Broadway. A escolha de Ray Milland para o papel foi considerada ousada, pois o público estava acostumado em vê-lo como galã em comédias leves. Mas Wilder e Brackett já vinham trabalhando com ele, e sabiam de suas grandes possibilidades. Durante algum tempo, o ator estudou o comportamento de bêbados em bares e nas ruas. Entretanto, ganhar a estatueta de Melhor Ator rendeu-lhe, durante muitos anos, ser vítima de piadas e brincadeiras sobre alcoólatras. 

Ray Milland e seu Oscar de Melhor Ator de 1945 por FARRAPO HUMANO.
O filme de Wilder, em grande cartaz nos Estados Unidos.
Certamente, FARRAPO HUMANO é o maior impacto que o cinema teve na abordagem na dipsomania, ou da degradação humana que o diretor Billy Wilder voltaria a tratar em Crepúsculo dos Deuses (1950) e A Montanha dos Sete Abutres (1951). O Score musical é do húngaro Miklos Rozsa (1907-1995). FARRAPO HUMANO chegou às salas de cinema do Rio de Janeiro em agosto de 1946.

Divulgação Nacional em 1946

Miklos Rozsa compôs a trilha sonora para FARRAPO HUMANO (1945)

A Obra de Billy Wilder chegou as nossas salas cariocas em agosto de 1946.


FARRAPO HUMANO

(THE LOST WEEKEND)


País- Estados Unidos
Ano de Produção – 1945
Gênero – Drama
Direção – Billy Wilder
Produção – Charles Brackett, em produção e distribuição da Paramount Pictures.
Roteiro – Charles Brackett e Billy Wilder, baseado no romance de Charles Jackson
Fotografia - John F. Seitz, em Preto & Branco
Música – Miklos Rozsa
Metragem – 101 minutos

Ray Milland

Elenco principal


Ray Milland – Don Birman
Jane Wyman – Helen St. James
Phillip Terry – Wick Birman
Howard Da Silva – Nat, o Barman
Doris Dowlling – Gloria
Frank Faylen – Bim Nolan
Mary Young – Senhora Deveridge
Anita Sharp-Bolster – Senhora Foley
Lilian Fontaine – Senhora St. James
Frank Orth – Atendente do teatro de ópera
Lewis Russell – Senhor St. James

Matéria Publicada originalmente pelo redator no 
extinto "Filmes Antigos Club" em 2017.


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