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sábado, 2 de dezembro de 2023

Sublime Tentação (1956): De William Wyler, Um Poema de Simplicidade, Ternura e Nobreza Humana aos Tempos da Guerra Civil Americana



SUBLIME TENTAÇÃO (Friendly Persuasion, 1956) é uma produção hollywoodiana premiada em 1957 com a Palma de Ouro no Festival Cinematográfico de Cannes, sob a direção sublime de William Wyler (1902-1981), que tantos sucessos possui em sua vasta filmografia. Sem a existência cruel ou a importância amarga de algumas realizações anteriores, Sublime Tentação é como um conto pastoral, um poema de simplicidade e ternura, de dedicação e nobreza humana, graças à suavidade de sua história, sendo um dos trabalhos mais inspiradores e menos teatrais do cineasta de Jezebel (1938), Chaga de Fogo (1951), e Ben-Hur (1959). Wyler concorreu com outros diretores em Cannes, como Ingmar Bergman (O Sétimo Selo), Robert Bresson (Um Condenado a Morte Escapou), e Federico Fellini (As Noites de Cabiria).

O cineasta William Wyler.
A escritora Jessamyn West, autora do romance SUBLIME TENTAÇÃO, publicado em 1945.
O roteirista Michael Wilson.
Com reminiscências de Sargento York (1941) dirigido por Howard Hawks, SUBLIME TENTAÇÃO combina lirismo e canto pastoral, mas os críticos americanos na época antipatizaram com a obra de Wyler, que não se deixou levar pelas opiniões e fez impor seu filme como uma de suas realizações mais criativas e marcantes. Extraída de livro publicado em 1945 pela escritora Jessamyn West (1902-1984), foi adaptada para o cinema por Michael Wilson (1914-1978), que não recebeu os créditos devidos, pois sua produtora, a Allied Artists (Um pequeno estúdio criado em 1946 e que esteve ativo até 1980, quando foi vendido para a Lorimar Poductions), negou-se a reconhecer um nome na lista negra do Macarthismo. Somente anos depois, quando Sublime Tentação foi lançado em DVD, Wilson teve seu nome inserido nos créditos, forma de reparar uma das maiores injustiças cometidas por Hollywood. A própria autora do livro serviu de consultora para o roteiro de Wilson.

A Família Birdwell: O patriarca Jess (Gary Cooper), a esposa Eliza (Dorothy McGuire), e os filhos Josh (Anthony Perkins), Mattie (Phyllis Love) e o caçula, o pequeno Jess (Richard Eyer)
Os Birdwell e um amigo da família, o Tenente Gard Jordan (Peter Mark Richman), interesse amoroso de Mattie (Phyllis Love)
SUBLIME TENTAÇÃO conta-nos sobre uma família Quaker (movimentação religiosa protestante de origem britânica surgida no século XVII, também conhecida como a “Sociedade dos Amigos” que prega a paz e se opõem ao uso da violência) numa fazenda do interior de Vernom, Indiana, em 1862, durante a Guerra Civil Americana. Jess Birdwell (Gary Cooper, 1901-1961), agricultor e comerciante, sua esposa Eliza (Dorothy McGuire, 1916-2001), e seus filhos: Josh (Anthony Perkins, 1932-1992), Mattie (Phyllis Love, 1925-2011), e o caçula Pequeno Jess (Richard Eyer). Toda a família vive dos princípios rígidos de sua religião que não admite que seus fiéis tenham pensamentos hostis para com o próximo. Por seguir esta linha de pensamento, é que os Birdwell nem imaginam como poderão sofrer quando o conflito chegar aos seus domínios. 

O Pequeno Jess em "perigo" com a ganso Samantha, um dos pontos cômicos de SUBLIME TENTAÇÃO (1956)

Uma das rotinas da Família Birdwell é ir nos cultos aos domingos...
...bem como ir ao parque nas tardes dos fins de semana, onde Jess sempre encontra seu amigo Sam Jordan (Robert Middleton).

Por enquanto, a vida para eles decorre num bucolismo rústico acolhedor, em que certos incidentes do cotidiano servem para quebrar a possível monotonia, como Jess a competir com seu amigo metodista Sam Jordan (Robert Middleton, 1911-1977) para ver qual cavalo dos dois é o mais veloz – ou mesmo o patriarca a discutir com a esposa Eliza por causa de um órgão, inadmissível para os Quakers, já que a crença não permite sequer ouvir ou tocar músicas sacras nas reuniões. Mas sem dúvida, a perseguição do filho mais novo dos Birdwell, o Pequeno Jess a uma ganso “inofensiva” de nome Samantha garante risadas e bom humor numa trama que direcionará brevemente ao drama.

Peter Mark Richman é o Tenente da União Gard Jordan...

...amigo da família que alerta da chegada das tropas sulistas a Vernon. Com isso...
...Josh, o filho mais velho dos Birdwell, toma iniciativa em pegar em armas para defender a propriedade da família, para a infelicidade dos pais, que conforme as convicções religiosas são contra a violência.
A paz não dura muito tempo, pois as tropas confederadas estão a caminho de Vernon. Josh, o filho mais velho dos Birdwell, influenciado por Gard Jordan (Peter Mark Richman, 1927-2021), enamorado de Mattie e que serve como tenente para as tropas da União, decide pegar em armas para defender sua comunidade contra as forças sulistas, decisão esta não bem recepcionada por seus pais. O pacifismo de Jess e Eliza contrasta com a decisão de Josh, mas os pais nada podem fazer. Josh parte para o conflito, onde é ferido. Jess, ao perceber que também não pode ficar de braços cruzados esperando pelos acontecimentos, trata de ir ao front tentar salvar a vida do filho, enquanto Eliza e o pequeno Jess enfrentam um grupo de soldados sulistas que invadem sua propriedade, quando ela não hesita nem em dar "vassouradas" em um dos rebeldes.

Gary Cooper como Jess Birdwell. Uma singeleza quase pueril, que parece retomar aos antigos personagens de Frank Capra.
O diretor Wyler (de óculos escuros) supervisionando uma cena com Cooper em SUBLIME TENTAÇÃO (1956)

William Wyler e Gary Cooper.
SUBLIME TENTAÇÃO é um espetáculo de emoções sutis e harmonizadas – drama e poesia, sentimentalismo e humor feérico – que recria um segmento da história americana, com honesta afeição e sensibilidade. Se as características formais  com que William Wyler narra a trama são daquelas dignas de um grande cineasta, não se pode cometer injustiças quando se disser que o desempenho do elenco é um dos pontos mais vitais e magistrais da película. Gary Cooper, irrepreensível como o patriarca Jess Birdwell, retoma a candura e singeleza quase pueril de um Longfellow Deeds ou John Doe, personagens marcantes do ator nos clássicos O Galante Mr Deeds (1936) e Adorável Vagabundo (1941), ambos de Frank Capra.  O diretor Wyler, a princípio, pensou em Bing Crosby para interpretar o chefe da família Quaker. Crosby não se interessou e Wyler foi atrás de Gary Cooper, que também não se interessou pelo papel, até que em 1956 o astro finalmente aceitou o trabalho, com a condição de ter Ingrid Bergman para a parte de Eliza, esposa de Jess. Devido a seus compromissos com as filmagens de Anastácia, a Rainha Esquecida (1956), a atriz sueca teve que recusar, sendo então outras atrizes convidadas para a parte, como Katharine Hepburn, Jane Wyman, Vivien Leigh, Eleanor Parker e Maureen O’Hara. Nenhumas delas aceitou o papel, até que Dorothy McGuire foi contratada para personificar Eliza Birdwell. 

Para salvar o filho no front, Jess terá que enfrentar o inimigo. Será que ele liquidará este confederado?
Anthony Perkins estreando em um papel importante, como Josh Birdwell, um jovem sensível que mesmo contrário a guerra não hesitará em lutar pela segurança de sua família.
Eliza se comove com a decisão do filho mais velho de partir para o conflito na Guerra Civil Americana.
Consta que Cooper, insatisfeito com o que viu nas diversas etapas de filmagem, se desinteressou de tal forma pelo filme que nunca o assistiu. Decerto não passa de um exagero a autocrítica do astro achando que não tenha se saído bem como o cético e por vezes sarcástico Jess Birdwell. Mas é graças a atuação do veterano ator que SUBLIME TENTAÇÃO deve muito de sua graça e emoção, e esta é uma de suas excelentes interpretações.  A interação de Wyler com o resto do elenco pode ser medido com o desempenho dos atores coadjuvantes, onde entre eles merece destaque a ganso “Samantha”, que chega a ser sem dúvida notável. O filme também introduziu o então iniciante Anthony Perkins, ainda não marcado pelo papel mais famoso de sua carreira, o psicopata Norman Bates no clássico Psicose (1960) de Alfred Hitchcock.

Edição americana do livro SUBLIME TENTAÇÃO, de Jessamyn West, lançada originalmente em 1945.
LP original do filme SUBLIME TENTAÇÃO editado nos Estados Unidos, com a canção interpretada por Pat Boone.

Dorothy McGuire e Gary Cooper, o casal maduro de SUBLIME TENTAÇÃO (1956).
SUBLIME TENTAÇÃO concorreu aos Oscars de Melhor Filme, Direção (William Wyler), Roteiro Adaptado (Michael Wilson), Ator Coadjuvante (Anthony Perkins), e Canção (a famosa I Thee I Love, interpretada por Pat Boone). Destaque para o comovente score musical do Mestre Dimitri Tiomkin (1899-1979), e a foto a cores de Ellsworth Fredericks (1904-1993). 

Divulgação

SUBLIME TENTAÇÃO chegou com empolgação nas salas do Rio de Janeiro em 1957, motivado pela premiação do filme no Festival de Cannes. Notem o nome de Anthony Perkins como uma das grandes promessas do cinema. 
Sem dúvida, SUBLIME TENTAÇÃO é um filme esplendido, onde um cineasta de talento recriou com habilidade e afeto um dos pontos mais dramáticos da história dos Estados Unidos, a Guerra Civil Americana (1861-1865), aliás, as cenas de confronto são as melhores já vistas no cinema desde A Glória de Um Covarde, de John Huston e estrelado por Audie Murphy, realizado em 1951. Um dos grandes clássicos do cinema que merece ser visto, sem reservas, por ambos os públicos e por todas as gerações.


SUBLIME

TENTAÇÃO

(Friendly Persuasion)

Nacionalidade: EUA
Ano de Produção: 1956
Gênero: Drama
Direção: William Wyler
Produção: Robert Wyler e William Wyler, para a Allied Artists, em distribuição.
Roteiro: Michael Wilson, baseado no romance de Jessamyn West.
Fotografia: Ellsworth Fredericks (em cores)
Música: Dimitri Tiomkin, com a canção I Thee I Love, Interpretada por Pat Boone.
Metragem: 136 minutos.

ELENCO 
Gary Cooper – Jess Birdwell
Dorothy McGuire – Eliza Birdwell
Anthony Perkins – Josh Birdwell
Robert Middleton – Sam Jordan
Phyllis Love – Mattie Birdwell
Richard Eyer - Pequeno Jess Birdwell
Peter Mark Richman – Gard Jordan
Walter Catlett – Professor Quigley
Richard Hale – Purdy
Joel Fluellen – Enoch
Theodore Newton – Major Harvey
John Smith – Caleb Cope
Edna Skkiner – Opal Hudspeth
Marjoire Durant – Pearl Hudspeth
Frances Farwell – Ruby Hudspeth
Marjoire Main – A Viúva Hudspeth
Samantha, a ganso – ela mesma. 

A Magnífica música interpretada por Pat Boone, "Sublime Tentação".






sábado, 15 de julho de 2023

Da Terra Nascem Os Homens (1958): O Primeiro Grande Western em Superprodução, Com Rara Temática Pacifista para o Gênero.


Raramente na década de 1950, época em que os filmes Western eram produzidos em alta escala, que Hollywood divulgava o gênero em tons pacifistas, muito embora alguns cineastas mais avançados como Anthony Mann (que dirigiu 5 grandes clássicos com James Stewartlançavam uma releitura ao estilo cinematográfico genuinamente americano. Entretanto, um destes grandes clássicos foi dirigido por outro grande diretor muito famoso, portador de genuínos clássicos do cinema por excelência, cujo nome é sinônimo de competência:  William Wyler (1902-1981).

O Cineasta William Wyler
Wyler certamente foi um dos maiores cineastas do século XX, mas  nunca se considerou um autor de filmes e nunca foi esta a sua pretensão, e por isso era ignorado pela turma francesa do Cahiers du Cinéma, legião esta que, justamente, inventou o conceito do cineasta ser o artesão da obra. Trabalhava por encomenda sim, muitas vezes para produtores independentes (como Samuel Goldwyn). Não é possível se detectar um estilo de narrativa, um tipo de fotografia, ou sequer um ângulo favorito, em que não haja a participação de Wyler. A única identidade comum entre seus filmes era a excelência, nas palavras do saudoso crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Em verdade, nunca fez um filme ruim, muito embora haja películas umas melhores do que as outras, mas certamente, grandes obras cinematograficamente culturais tem seu legado. 

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958) em exibição nos Estados Unidos.

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (The Big Country, 1958) foi o primeiro Western a ser, de fato, uma superprodução, pois em 1958, a televisão invadia os lares americanos (no Brasil, não foi diferente!), lançando muitas séries de faroestes, como As Aventuras de Rin Tin Tin, The Lone Ranger (Zorro & Tonto), Paladino do Oeste, Bat MastersonGunsmoke, o Homem do Rifle, entre outras - e no entanto, seria imperioso um investimento alto para não perder a concorrência com a telinha.  Para isto, nada como reunir um cineasta premiado e de renome internacional, atores consagrados, um compositor que pudesse prender o espectador com a trilha sonora (o magistral Jerome Moross), e um fotógrafo que pudesse dar todo o panorama que nenhum televisor poderia enquadrar (Franz Planer).
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Divulgação

O resultado deste esforço épico foi uma obra de 165 minutos de duração que custou cinco milhões de dólares, causando grande impacto e levando o público aos cinemas e, definitivamente, marcou aqueles que o assistiram por suas cenas de inigualável e impressionante beleza visual. Baseada no conto Ambush at Blanco Canyon de Donald Hamilton (o mesmo autor de  Pecado em Cada Alma e os livros do espião Matt Helm) e adaptada por Jessamyn West (1902-1984, autora Sublime Tentação, obra de Wyler realizada em 1956, com Gary Cooper).

Gregory Peck como Jim McKay, o mocinho de DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
Mas DA TERRA NASCEM OS HOMENS pretende, de fato, fazer jus ao seu título original. Se a pretensão do cineasta foi realmente fazer um filme estrondoso, valeu o espetáculo, pois levou uma história ao seu final sem provocar irritação irreparável no espectador. Para alguns críticos mais arredios, o fator negativo do filme reside justamente na sua mania de grandeza. Isto porque a temática da trama é marcada pela conduta do personagem de Gregory Peck (1916-2003), interessante e válida. Peck como Jim McKay é o herói que recusa-se agir de acordo com os métodos rudes e ásperos do Velho Oeste, que prova que a razão é mais superior que a violência. Tudo isso esta provado no argumento do personagem principal, às vezes um pouco confuso e cansativo na coordenação dos incidentes da história. Mas mesmo assim, vale o ingresso. 

Jean Simmons como a Professora Julie Maragon
O início e o final da fita seguem a fórmula clássica do gênero, com bastante ação a despertar o interesse do público. Mas o miolo da história se arrasta, assim como que impregnado pela vastidão enfadonha da planície arenosa, onde a escassez de água era o motivo de uma sangrenta e invencível divergência entre dois velhos fazendeiros, vivido respectivamente pelos magistrais Charles Bickford e Burl Ives.

Burl Ives como Rufus Hannessey, e seu inimigo caído ao chão, Major Terrill, vivido por Charles Bickford.
É certo que THE BIG COUNTRY possui, isoladamente, grandes momentos de criação cinematográfica motivadas pela mente de William Wyler. O espectador mais atento poderá observar, por exemplo, que o sentido de vastidão do campo domina toda obra, graças a esplendida fotografia de Franz Planer.

Steve Leach, vivido por Charlton Heston, capataz do rancho do Major Terrill, pai de Patricia (Carroll Baker).
Considerado o primeiro western de efeito esplendoroso nas proporções da tela do Techinirama – a começar pelos títulos de abertura de Saul Bass (1920-1996), ritmados com a música vibrante de Jerome Moross. Obviamente, em uma tela de televisão o efeito causa menos impacto, mas o filme impõe-se pelo seu cineasta, pelo elenco e pela temática pacifista, algo incomum no gênero. 

Divulgação



O Major Henry Terrill anunciado o noivado de Jim e Patricia...

...enciumando Steve Leach, que gosta da filha de seu patrão.
O pacífico Jim McKay em luta com Steve Leach.
James “Jim” McKay (Gregory Peck), um cavaleiro do leste e ex marinheiro, vai ao Texas visitar a noiva Patricia Terrill (Caroll Baker) e encontra uma região abalada pelo conflito de terras: dois barões do gado, o pai de Patricia, o Major Henry (Charles Bickford, 1889-1967), e Rufus Hannessey (Burl Ives, 1909-1995) disputam um rancho pertencente a Julie Maragon (Jean Simmons, 1929-2010) e que possuí a única fonte de água no território. 

Buck Hannessey (Chuck Connors) se interessa por Julie (Jean Simmons) e em uma noite ele tenta violenta-la...
...mas McKay intervém e agride Buck.

Buck (Chuck Connors) é alvejado pelo próprio pai (Burl Ives).
McKay põe-se ao lado de Julie, e como que não quer nada, vai aos poucos impondo sua política pacifista num ambiente hostil onde impera a lei da força bruta. O cavaleiro do Leste terá que provar seu valor ao tentar montar uma cavalo selvagem, chamar para briga no meio da noite o capataz do rancho dos Terrill, Steve Leech (Charlton Heston, 1923-2018) após recusar lutar com ele na frente de Patricia, e  para defender Julie lutar com Buck Hannessey (Chuck Connors, 1921-1992), filho de Rufus. 


Gregory Peck e Carroll Baker recebendo instruções do diretor William Wyler.
William Wyler e Gregory Peck eram grandes amigos, inclusive é o próprio astro de “A Princesa e o Plebeu” (outra fita de Wyler) que co-produziu este fascinante superespectáculo Western. Porém, durante as filmagens, Peck e Wyler se desentenderam feio. Tudo porque Wyler, um perfeccionista ao extremo, fazia questão de repetir muitas cenas as quais Gregory Peck, como co-produtor, reprovava e achava que estavam perfeitas. O cineasta disse a jornalistas – e fazia questão de dizer que falava abertamente para os jornais publicar – que não voltaria a dirigir o ator nem por um milhão de dólares. Com efeito, ambos jamais voltariam a se falar, até Wyler falecer em 1981.

Jean Simmons

CAST de DA TERRA NASCEM OS HOMENS. Notem que Jean Simmons não esta nada sorridente!
Jean Simmons acabou por aceitar o papel de Julie Maragon, mesmo não tendo simpatias por William Wyler. Tudo porque Simmons foi a primeira escolha do diretor para ser a protagonista em A Princesa e o Plebeu , mas Wyler voltou atrás e preferiu Audrey Hepburn. Simmons considerou a atitude de Wyler deselegante, mesmo não havendo ainda um contrato firmado. Contudo, por razões profissionais, Jean acabou pegando a parte de Julie, mas nunca reatou amizade com o diretor. A relação era estritamente profissional e ao longo de sua vida sempre se recusou a falar do cineasta.

Jerome Moross, compositor da trilha sonora de
DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
O fotógrafo Franz Planer e Gregory Peck
Da Terra Nascem os Homens é um western espetacular, valorizado por marcante comentário musical de Jerome Moross (1913-1983), uma das mais belas trilhas do gênero que segura todo o espetáculo. Valorizado também pela bela fotografia do austro-húngaro Franz Planer (1894-1963), o mesmo que fotografou Bonequinha de Luxo, A Princesa e o Plebeu, e Rei dos Reis.

Charlton Heston
Charlton Heston já era consagrado após o clássico Os Dez Mandamentos (1956), dirigido por Cecil B De Mille, porém teve que submeter-se a um “teste” com Wyler. DeMille sempre gostou de Heston e sugeriu a Wyler que desse ao astro de O Maior Espetáculo da Terra um dos papéis centrais. Até então, Heston havia feito sempre papéis de heróis, inclusive em westerns, e sem contar que o ator ainda estava estigmatizado pela crítica como canastrão comparado a Victor Mature, no início da carreira.

Charlton Heston em AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL em 1953.

Wyler deu a Heston o papel do antipático e rude Steve Leach, personagem comparado a um vilão. De início, o ator queria recusar o papel do capataz por achar que era pequeno, mas seu agente convenceu-o de que valeria a pena pela oportunidade de trabalhar ao lado de Gregory Peck, e sob a direção de William Wyler. Felizmente, Heston aceitou o conselho de seu agente, e para sua felicidade (e a do público e de seus fãs!), Wyler gostou tanto de seu desempenho que o pôs no ano seguinte para seu próximo filme, talvez um dos mais importantes do cineasta, Ben-Hur, com Charlton Heston como astro principal, outorgando grande responsabilidade na superprodução, que rendeu 11 premiações na Academia, incluindo um como Melhor Ator para Heston. 

O diretor William Wyler e a atriz Carroll Baker.
Carroll Baker chegou a ter também uma carreira longa, e anos depois, confessou que se tornou amante de produtor para subir em Hollywood, mas depois se arrependeu e foi estudar no Actor´s Studio onde encantou Elia Kazan que a usou como Baby Doll (1955), filme polêmico. Teve muitas chances no cinema, foi dirigida por John Ford (Crepúsculo de Uma Raça, 1962) e mesmo pelo nosso Hector Babenco (1946-2016) em Ironweed, em 1987, Muito estranho e inexplicável o sumiço de Baker no roteiro de Da Terra Nascem os Homens perto ao fim da história, pois sua personagem fica ausente da luta final.

O ator mexicano Alfonso Bedoya, em seu
último trabalho no cinema.
Destaque também para o ator mexicano  Alfonso Bedoya (1904-1957), falecido aos 53 anos por problemas relacionados ao álcool, que sequer chegou a ver o filme lançado. Bendoya foi o melhor de todos os atores mexicanos fazendo tipos característicos no cinema norte-americano, o primeiro deles em O Tesouro de Sierra Madre (1949, de John Huston), onde roubou muitas cenas até mesmo do astro principal, Humphrey Bogart. Em Da Terra Nascem os Homens, ele faz o papel do empregado dos Tirrell, Ramón Guiteras, que acaba tornando-se uma espécie de “Sancho Pança” para o personagem de Gregory Peck.  Ramón abandona os Tirrell para servir a Mckay e avisa-lhe dos perigos que corre. Na última cena, ele parte com o herói e Julie, dando a entender que seguirá seu destino com os dois. Nota-se um dublê de costas no lugar de Bendoya, que morreu antes do término das filmagens.

Burl Ives ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958).
Burl Ives era um ator de múltiplos talentos, pois também era radialista, cantor, escritor e músico. Começou a vida como esportista, sendo jogador de futebol americano, mas foi inserido no mundo da música, tornando-se um cantor de Folk e baladas, gravando mais de 30 álbuns para Decca e 12 para a gravadora Colúmbia. Sua carreira de ator começou na Broadway, onde é mais lembrado pelo público americano no papel de Big Daddy na versão de Gata em Teto de Zinco Quente, em 1938, papel que repetiria na versão cinematográfica de 1959 com Elizabeth Taylor e Paul Newman - mas somente em 1946 foi introduzido em Hollywood com Furacão Negro (Smoky) com Fred MacMurray e Anne Baxter.

O cantor Burl Ives

Burl Ives também era cantor e gravou inúmeros Long Plays.
Ives ficou notável como o rústico patriarca Buck Hannassey, o que valeu-lhe o Oscar como Melhor Ator Coadjuvante. Nesta época, ele já encontrava-se semi-aposentado do  show business, mas com o Oscar conquistado, muitas outras oportunidades se abriram para este gigante em todos os sentidos, seja na estatura física e no talento. Quando em 1989, aos 80 anos de idade, anunciou definitivamente sua aposentadoria, veio a estabelecer-se em Anacortes, Washington, com sua família, muito embora fizesse até quase ao fim da vida shows beneficentes. Um ano antes de seu falecimento, foi introduzido no Hall da Fama DeMolay, pois era um Grão Mestre da Maçonaria, grau 33 (o máximo), e toda sua família era vinda de maçons. Assim ele dizia:

Tive a sorte de nascer em uma família de maçons. Na verdade, minha irmã mais velha, Audrey, era matrona Grande da Ordem da Estrela do Oriente, em Illinois. Minha experiência DeMolay veio muito naturalmente por causa do meu pai e irmãos. Assim foi a minha juventude reforçada.

Burl Ives morreu em 14 de abril de 1995 aos 85 anos.


Divulgação do filme nos jornais cariocas, em exibição pelas salas do Rio de Janeiro.


FICHA 
TÉCNICA
Gregory Peck e Jean Simmons


País – Estados Unidos

Ano – 1958

Gênero - WESTERN

Direção – William Wyler

Produção – William Wyler, Robert Wyler e Gregory Peck, em produção e distribuição pela United Artists

Roteiro - James R. Webb, Sy Bartlett, Robert Wilder, com adaptação de Jessamyn West e Robert Wyler, com base na história de Donald Hamilton.

Fotografia – Franz Planer, em Cores.

Música – Jerome Moross

Metragem – 165 minutos.


Chuck Connors, Burl Ives e Gregory Peck


Gregory Peck – James McKay

Jean Simmons - Julie Maragon

Carroll Baker - Patricia Terrill

Charlton Heston - Steve Leach

Burl Ives - Rufus Hannassey

Charles Bickford - Major Henry Terrill

Alfonso Bedoya - Ramón Guiteras

Chuck Connors - Buck Hannassey

Chuck Hayward - Rafe Hannassey

Buff Brady - Dude Hannassey

Dorothy Adams- Mulher da família Hannassey

Chuck Roberson - Vaqueiro dos Terrill

Bob Morgan   -  Vaqueiro dos Terrill

John McKee - Vaqueiro dos Terrill

Slim Talbot - Vaqueiro dos Terrill

Jim Burk   - Blackie / Cracker Hannassey

Carey Paul Peck - Garoto de 11 anos

Jonathan Peck - Garoto de 14 anos

Ralph Sanford - Convidado na festa





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