Mostrando postagens com marcador POLICIAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POLICIAL. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Amarga Esperança (1948): Nicholas Ray Estreia em sua Quintessência Cinematográfica



Amarga Esperança (They Live be Night)produzido em 1948, se resumiu para muitos críticos como a quintessência da arte de Nicholas Ray (1911-1979), o cineasta das paixões crepusculares e da juventude desajustada e incompreendida, que fez aqui sua estreia como diretor, onde a fita em tópico prefigura com sua obra mais famosa, Juventude Transviada, de 1956.

O Cineasta Nicholas Ray (1911-1979) - Diretor de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Farley Granger e Cathy O' Donnell, o par romântico e dramático
de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Em 1947, o produtor Dory Schary (1905-1980), então na chefia dos estúdios da RKO, decidiu dar chance a novos diretores com filmes de baixo orçamento, e por sugestão de outro produtor, John Houseman (1902-1988), que era amigo de Nicholas Ray, convidou este para levar a tela o romance escrito em 1943 por Edward Anderson (1905-1969), intitulado Thieves Like Us. Ray dirigiu Amarga Esperança em apenas sete semanas.

Lobby Card de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Entretanto, em 1948, o magnata Howard Hughes (1905-1976) comprou a RKO e engavetou o filme de Ray por dois anos depois de pronto, lançando somente a 5 de novembro de 1949, quando já haviam sido exibidos nos cinemas duas outras obras do cineasta: A Vida íntima de uma Mulher, de 1948, e O Crime Não Compensa, de 1949. 

Bowie (Farley Granger) e Keechie (Cathy O' Donnell). O
desespero de dois jovens que se amam.
Como geralmente acontece com algumas obras primas da Sétima Arte, Amarga Esperança teve seu mérito reconhecido como tal anos depois. Quando lançado em sua época, era considerado um filme policial Classe B. Mas com análise aprofundada, o primeiro filme de Nicholas Ray teve seu reconhecimento como clássico filme noir hollywoodiano, com síntese depurada de toda obra cinematográfica do diretor.

Bowie e Keechie
Um jovem casal que tem um mundo a enfrentar.
Amarga Esperança tem seu prólogo com uma inusitada cena, bem incomum, mas que funciona bem como forma de situar a trama. Ray abre o filme com um rápido plano dos dois amantes, onde aparece a seguinte legenda: “Este rapaz e esta garota ainda não foram realmente apresentados ao mundo”. O clima lúdico da cena e a frase que a acompanha deixam claro que Ray tem o objetivo de mostrar como o mundo pode ser um lugar cruel e opressivo, capaz de destruir sonhos e esperanças de felicidade, sobretudo quando se trata de dois jovens namorados. A partir daí, toda a desenvoltura da história esta prestes a ser apresentada. 

T-Dub (Jay C. Flippen), Bowie (Farley Granger) e Chickamaw
(Howard Da Silva). Três fugitivos da penitenciária do Mississipi.
Os três fugitivos já rendem uma vítima.

Com uma narração chiaroscuro  e clima de fatalismo, estampa a caçada policial de três fugitivos de uma penitenciária do Mississipi, e são eles: Bowie (Farley Granger, 1925-2011), Chickamaw (Howard Da Silva, 1909-1986), e T-Dub (Jay C. Flippen, 1899-1971). Bowie reencontra a namorada Keechie (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), e o jovem casal se opõe a uma sociedade hostil em um amor sem ilusões. E é exatamente nesse sentido que o filme tem seus méritos. Ray é extremamente hábil na construção da atmosfera de desespero na qual o casal se encontra. A utilização da noite como prisão e, ao mesmo tempo, única condição na qual os personagens se sentem confortáveis é de uma eficácia inegável.

Keechie e Bowie: a utilização da noite como prisão, sendo 
a única condição na qual os personagens se sentem em liberdade.
Keechie e o trio de fugitivos.

O tema é constantemente arquitetado, tanto pela câmera de Ray quanto pelos diálogos, fazendo com que o próprio espectador sinta-se inseguro quando o casal está em plena luz do dia. A sensação é a de que o mundo construiu para Bowie e Keechie uma emboscada da qual eles não conseguem sair. As tomadas aéreas de helicópteros (uma inovação para o cinema até então) ainda colaboram para a criação desse clima, reforçando a ideia de que se trata de uma história de fuga, não de amor. O toque fotográfico de George E. Diskant (1907–1965) e a trilha sonora de Leigh Harline (1907-1969) dão mais brilho ao espetáculo. 

Bowie e Keechie, em um momento de paz.
Keechie e Bowie: um jovem casal que se ama
Nesse sentido, é possível notar o tom autoral que desenrola toda a fita. Nick Ray apresenta em Amarga Esperança o ponto de partida para alguns temas que seriam bem característicos em sua filmografia: além do clima noir, destaca-se um olhar de ternura para os personagens centrais que vivem à margem da sociedade. Bowie, em sua essência, não é uma pessoa ruim, ainda que seja visto assim pelas pessoas. Ray trata-o exatamente dessa forma, como se Bowie tentasse se encaixar no ambiente que o cerca para viver uma vida normal, mas sendo constantemente repelido por seus esforços, e o mesmo acontece com sua amada Keechie.

A ação é violenta por parte do trio de fugitivos.
Bowie, na esperança de se unir a mulher que ama.
A partir daí, nasceu à preferência do diretor por personagens amargurados, perdidos, que não conseguem encontrar seu lugar na sociedade. Ele fez isso com protagonistas vividos por grandes atores em outras obras por ele assinado. Basta vermos o policial amargo e estressado vivido por Robert Ryan em Cinzas que Queimam (1951), que não aceitava ser marginalizado em sua profissão pela sociedade; ou ainda o roteirista iconoclasta e violento vivido por Humphrey Bogart que prezava mais seu ego artístico do que viver sob as regras sociais em No Silêncio da Noite (1950). 

Mas o jovem casal anda sempre em fuga.
Bowie sendo ameaçado por Chickamaw
Deste modo, Nicholas Ray situa seus personagens em um mundo a parte, comunicando na pureza dessa relação amorosa de dois seres perdidos nas trevas da noite – Bowie um fugitivo da lei, e Keechie, a filha de um alcoólatra – uma romântica indignação social. E se coloca ao lado da poética solidão e da dignidade de seus sentimentos, que o meio circundante ameaçador quer destruir com suas regras petrificadas e desumanas.

O trio de fugitivos tem como aliada Mattie, vivida por Helen Craig
Keechie e Bowie, tentando fugir da lei
Amarga Esperança, apesar de um bom filme, sobrevive até hoje graças à curiosidade de ser o trabalho de estreia de Nicholas Ray. É uma obra bem construída e com diversos valores, ainda que a trama em si tenha sido prejudicada pela ação do tempo. Mas aqui é o momento no qual o cineasta coloca em celuloide, pela primeira vez, sua visão de mundo que se faria presente em toda a filmografia e o faria entrar para o rol dos maiores cineastas de todos os tempos. Um ponto de partida curioso para uma das carreiras mais prolíferas não somente em Hollywood como também em todo o cinema internacional.

AMARGA ESPERANÇA de 1948. Um clássico de Nicholas Ray 
Sem deixar pontos de similaridade com Vive-se só Uma Vez (1937), dirigido por Fritz Lang, onde outro inocente (vivido por Henry Fonda) parecia vencido por um trágico destino e uma sociedade injusta – Amarga Esperança é uma criação fundamental de Nicholas Ray, que segue aqui suas mais absolutas características compostas por grande parte de seu trabalho. A defesa da juventude desajustada, a convicção que nesta vida o amor e o lirismo são impossíveis, e finalmente um desesperado cântico para dois amantes que não pertencem a este mundo, existente no silêncio da noite, símbolo da morte inelutável. Assim é o cinema de Nicholas Ray. Assim é Amarga Esperança




FICHA TÉCNICA

AMARGA ESPERANÇA

(They Live by Night)

Ano de Produção: 1948 

Gênero: Policial - noir 

País: Estados Unidos 

Direção: Nicholas Ray 

Produção: John Houseman e Dory Schary – para a RKO 

Roteiro: Charles Schnee, Nicholas Ray (adaptação) e Edward Anderson (romance original).

Música: Leigh Harline.

Fotografia: George E. Diskant (em Preto & Branco)

Metragem: 95 minutos.

ELENCO

Cathy O’ Donnel – Keech

Farley Granger – Bowie

Howard Da Silva – Chickamaw

Jay C. Flippen – T-Dub

Helen Craig – Mattie

Will Wright – Mobley

Ian Wolfe – Hawkins

William Phipps – Jovem Farmer

Harry Harver – Hagenheimer

James Nolan - Schreiber



sábado, 7 de outubro de 2023

A Marca da Maldade (1958): A Natureza Perversa e a Corrupção Analisadas por Orson Welles

Divulgação do Cine Rádio (Paulo Telles)

Um magnífico estudo acurado sobre a natureza perversa do ser humano. Orson Welles (1915-1985) realiza de forma inteligente uma palestra em seus 106 minutos de projeção (versão remontada) na obra A Marca da Maldade (Touch of Evil) de 1958. Atuando também como ator no papel de Hank Quinlan, um policial pungente e corrupto que ele interpreta de forma soberba, traduz um resumo de tudo que o cineasta pretendia sugerir ao espectador, especialmente em relação às incoerências, hipocrisias e contradições que envolvem a natureza humana. Também assinala o retorno de Welles a Hollywood após nove anos de ausência. A fita teve cenas acrescentadas e montagem adulterada pela Universal à revelia do diretor.

Charlton Heston e Janet Leigh, os astros originais, reencontraram-se para o lançamento da edição comemorativa de 40 anos de A MARCA DA MALDADE.

Heston e Janet Leigh em A MARCA DA MALDADE (1958)

Em 1998, foi realizada uma remontagem segundo as intenções do cineasta e deixadas para Rebecca Welles (1944-2004), herdeira e filha do diretor. Charlton Heston (1923-2008) e Janet Leigh (1927-2004), os astros principais, estiveram presentes na cerimônia pela ocasião dos 40 anos do lançamento do filme. Foi o próprio Heston quem sugeriu a Universal Pictures para que Welles assumisse a direção (anteriormente Welles só atuaria como ator). O estúdio teve medo, mas Welles cumpriu o contrato e realizou a obra no tempo certo dentro do orçamento estabelecido. Mas mesmo assim, a Universal mexeu na montagem final.

Orson Welles dirige uma das maiores obras primas da Sétima Arte: A MARCA DA MALDADE (1958).

Orson Welles, além de dirigir, é um dos atores centrais, antagonizando com o astro Charlton Heston.

Welles tinha apenas 41 anos quando desempenhou o papel do velho e obeso policial Hank Quillan, usando uma maquiagem bem pesada. Ainda assim, A Marca da Maldade se impôs como uma de suas obras mais impactantes, cujo impacto técnico estarrecedor se revela com rara volúpia criativa em seus efeitos de câmera, som e edição (segundo o finado crítico de cinema carioca Paulo Perdigão). Baseado no livro Badge of Evil, de Whit Masterson (1920-2012), Welles compôs o script juntamente com o autor do romance.

Charlton Heston é o detetive mexicano Ramon "Mike" Vargas, que se depara com a corrupção da policia regional.

Welles interpreta o Capitão Hank Quinlan, um  corrupto policial que se envolve com o traficante "Tio" Grandi, vivido pelo lendário e talentoso Akim Tamiroff.

Numa cidade da fronteira do México – Estado Unidos, o investigador mexicano Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston) interrompe sua lua de mel com Susan (Janet Leigh) para apurar um crime. O casal então é perseguido por traficantes chefiados por “tio” Joe Grandi (Akim Tamiroff, 1899-1972). Ramon acaba entrando em conflito com o veterano policial Hank Quinlan (Orson Welles), capitão da polícia local, corrupto e psicopata, com registros de perfeitas prisões. Vargas suspeita que Quinlan plantasse provas falsas para efetuar suas prisões. Determinado a manter o honesto e incorruptível investigador mexicano fora do seu caminho, ele faz um acordo com “tio” Grandi para incriminar a esposa de Vargas, Susan (Janet Leigh), que é mantida num quarto de motel, abandonada e dopada, acusada de assassinato numa das sequencias mais angustiantes do filme.

Janet Leigh vive Susan, a esposa norte-americana de Vargas, que logo se vê em sérios perigos...

... sofrendo represálias dos arruaceiros e delinquentes protegidos pelo "Tio" Grandi.

Idealizado pelo cineasta mais criativo já conhecido, A Marca da Maldade é uma obra maravilhosa que nenhum amante do cinema deve perder – de acordo com o Chicago Tribune.

Não demora e Vargas percebe a real intenção de Quinlan em incriminar um inocente.

Susan, a devotada esposa de Vargas

Em primeiro plano, o filme parece seguir algumas características dos policiais produzidos nos anos de 1940 pela RKO, como fotografia com ampla definição de claro e escuro feita pelo especialista Russel Metty (1906-1978), um crime como ponto de partida no desenrolar da trama e as investigações que se desenvolvem acerca delas, bem como os ambientes decadentes e imundos, imoralidade e corrupção, e cenas preferencialmente noturnas que permeiam toda a composição estética da obra.

Ramon "Mike" Vargas e sua esposa Susan

Vargas X Quinlan: O policial honesto contra o policial corrupto.

A trilha sonora de Henry Mancini (1924-1994) tem papel fundamental na trama uma vez que ela molda as cenas de forma ativa, atuando como uma importante ferramenta de continuidade que claramente situa o espectador. A Marca da Maldade sem dúvida tem diálogo inovador para o público da época do lançamento, considerada até então um tabu para o cinema norte-americano, com o Código Hays* perdendo sua eficácia. Vemos palavras como baseadopicada, viagem, entre outras que fazem parte do vocabulário no mundo dos entorpecentes.

Marlene Dietrich em participação especial como Tanya, uma ex-amante de Quinlan.

A Marca da Maldade é valorizada também pelo restante do seu cast, e muitos deles em aparições cameo. Joseph Calleia (1897-1975) tem destaque fundamental como um policial igualmente corrupto que vive a proteger o vilão Quinlan. Notável as breves aparições de Zsa Zsa Gabor (1917-2016), Joseph Cotten (1905-1994) e da talentosa Mercedes McCambridge (1916-2004), como uma lésbica pertencente à gang de Grandt.  Mas é Marlene Dietrich (1901-1992) que fecha com chave de ouro este grande espetáculo, no papel de Tanya, uma mulher de cabaré e antiga paixão de Quinlan.

Orson Welles em notável atuação!

Orson Welles em seus momentos marcantes como ator em A MARCA DA MALDADE (1958)

Muito embora tenha sido produzido com baixo orçamento, o filme de Welles eleva-se a um requinte de produção Classe A, tornando-se uma das fitas mais assistidas e analisadas nos últimos cinquenta anos por estudantes de cinema, cineastas e críticos modernos, com temática pertinente ainda em nossos dias (como a corrupção nos meios policiais), o que faz de A Marca da Maldade uma obra atemporal.

* O Código Hays foi um conjunto de normas morais aplicadas aos filmes lançados nos Estados Unidos entre 1930 e 1968 pelos grandes estúdios cinematográficos. Seu nome deriva de William H. Hays (1879-1954), advogado e político presbiteriano e presidente da Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América de 1922 a 1945. Entretanto, já na primeira metade dos anos de 1950, o código já vinha perdendo força. Alguns cineastas e produtores estavam aptos a rompê-lo. A partir de 1968, o código deixou de existir, dando lugar ao sistema de classificação indicativa, que perpetua até hoje.

Poster Alemão

Título original: Touch of Evil

Ano: 1958

País: Estados Unidos

Gênero: Policial-Noir

Direção: Orson Welles

Produção: Albert Zugsmith, em produção e distribuição da Universal.

Roteiro: Orson Welles e Whit Masterson, com base no livro  Badge of Evil, de Whit Masterson.

Fotografia: Russel Metty, em Preto & Branco.

Montagem: Aaron Stell e Walter Murch (para reedição de 1998).

Música: Henry Mancini

Metragem: 95 minutos

Poster Original

Charlton Heston –Ramon Miguel “Mike” Vargas

Janet Leigh – Susan Vargas

Orson Welles – Capitão Policial Hank Quinlan

Joseph Calleia – Sargento Policial Peter Menzies

Akim Tamiroff -  ‘Tio’ Joe Grandi

Joanna Moore – Marcia Linneker

Ray Collins – Promotor Adair

Dennis Weaver – Dono do Hotel

Valentim de Vargas – Pancho

Mort Mills – Inspetor Al Schwartz

Phil Harvey – Blaine

Joi Lansing – Zita

Harry Shannon – Chef Cloud

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS 

Marlene Dietrich – Tanya

Zsa Zsa Gabor – Dona do Clube de Strip-Tease

Joseph Cotten (Sem Crédito)

Eva Gabor (Sem Crédito)


sábado, 23 de setembro de 2023

Os Últimos Durões (1986): Lancaster & Douglas pela Última Vez nas Telas, em Humorada Crítica Social.


Hoje, sabe-se que a relação entre estes dois titãs da cinematografia mundial, Burt Lancaster (1913-1994) e Kirk Douglas (1916-2020) fora das telas não era das melhores. Embora tivessem atuado juntos em sete filmes (I Walk Alone,1948; Sem Lei e Sem Alma, 1956; O Discípulo do Diabo, 1959; A Lista de Adrian Messenger,1963; Sete Dias de Maio, 1964; Vitória em Entebbe, 1976, para TV; e Os Últimos Durões, 1986), os dois astros pareciam grandes amigos para as plateias, e mesmo em condições onde os dois concedessem entrevistas as vistas perante o público. Entretanto, o elo entre os dois não passava apenas de uma grande fachada de publicidade promovida pelo agente de Kirk Douglas, pois Lancaster tinha na realidade uma personalidade arrogante. Muitas vezes, Burt tratava Kirk com ironia, crueldade e indiferença.

Burt Lancaster e Kirk Douglas: Foto publicitária, 1956. 
Lancaster & Douglas no maior clássico da dupla: SEM LEI E SEM ALMA, de John Sturges, realizado em 1956.
Lancaster sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em novembro de 1990 enquanto visitava seu amigo Dana Andrews (que sofria de doença de Alzheimer e faleceria pouco tempo depois), e desde então, ficou internado até fevereiro do ano seguinte, incapacitado de falar e de se mover até seu falecimento, a 28 de outubro de 1994, aos 80 anos. Kirk Douglas, apesar de uma série de problemas de saúde e sofrido um grave acidente aéreo em fevereiro de 1991 (mesma época em que Burt obteve alta do hospital), acidente que acabou matando dois dos ocupantes do helicóptero, sendo Douglas o único sobrevivente (deixou sequelas, uma lesão nas costas debilitante), ainda viveu bastante até os 103 anos de idade, quando faleceu em 5 de fevereiro de 2020.  

Burt Lancaster é Harry Doyle, e Kirk Douglas é Archie Long, que saem do presídio após cumprir pena de 30 anos.
Os Últimos Durões (Tough Guys, 1986) marcou o último encontro destas duas lendas, registrando o retorno às telas de Lancaster e Douglas em intriga de muita ação e comicidade, dirigida por Jeff Kanew, que três anos antes (1983) havia dirigido Kirk no excelente policial Caçada Impiedosa/Eddie Macon's Run, realizado para televisão. Lancaster então com 73 anos e Douglas com 70 esbanjam na Terceira Idade charme, simpatia, e até mesmo disposição para algumas eletrizantes cenas de ação.

Após saírem da prisão, a vida não será fácil para os já idosos Archie (Kirk Douglas) e Harry (Burt Lancaster).
Harry Doyle (Lancaster) rendendo um assaltante, que tentou assaltar um banco.
Dois veteranos assaltantes de trens, Harry Doyle (Lancaster) e Archie Long (Douglas), ganham a liberdade condicional após passarem exatos 30 anos na cadeia. Motivo da pena: os dois cometeram o último assalto de trem registrado nos Estados Unidos, em 1956. Ao saírem do presídio, anacronismos vivos, se deparam com uma Los Angeles completamente diferente da que conheceram. Acabam nas mãos do jovem assistente social Richie Evans (Dana Carvey), que os admira e tem conhecimento das façanhas dos dois ex-detentos. Mas movido pelas regras da lei, os dois amigos tem que se separar. Harry vai para uma casa de repouso para idosos e lá reencontra Belle (Alexis Smith, 1921- 1993), sua ex-namorada e uma ex-vedete. Archie, após experimentar diversos empregos (em uma sorveteria e um restaurante) e ser discriminado pela sociedade por sua condição de ex-presidiário, vai trabalhar numa academia de ginástica e conhece a administradora, Syke Foster (Darlanne Fluegel, 1953-2017), com quem inicia uma relação amorosa, e para surpresa de Archie, com maratona de muito sexo.

Archie e Harry são auxiliados pelo jovem assistente social Richie (Dana Carvey), que assume ser fã da velha dupla. 
Archie (Kirk Douglas) não perdeu a boa forma e tenta provar para a sociedade que não é um inválido.
Entretanto, sentindo que estão sendo tratados como inválidos pela sociedade, os dois voltam a se reunir e logo voltam a por em prática a velha ação. Contudo, fracassam em reunir a antiga quadrilha, e também em tentar assaltar um carro-forte. Até que a dupla tem em mente de repetir o assalto de trinta anos antes e que o fizeram ser presos, apoderando-se do trem Gold Coast Flyer, prestes a se aposentar após meio século de serviços. Mas para piorar a situação, os dois velhos fora da lei estão sendo perseguidos por um detetive aposentado que foi o mesmo policial que os prendera trinta anos atrás, e que não acredita na regeneração da dupla, Dake Yablonski (Charles Durning, 1923-2012).

Leon B. Litle (Eli Wallach) quer levar a incumbência que recebeu 30 anos atrás: matarArchie e Harry, mas são impedidos por Richie(Dana Carvey) e pela namorada de Harry, a ex-vedete Belle (Alexis Smith)
Archie Long (Kirk Douglas) em ação.
No encalço de Harry e Archie, ainda esta o esquisito Leon B.Litle (Eli Wallach, 1916-2015), um pistoleiro que recebera a incumbência de mata-los na mesma época em que haviam sido presos, e que mesmo passado tantos anos, ainda esta obstinado a dar cabo da missão, conforme acordo feito com um gangster há três décadas.  Entre todos estes obstáculos e perigos, os dois veteranos resolvem dar a empreitada, para mostrar a sociedade que são tão bons como antigamente.

A dupla de veteranos são verdadeiros mestres na arte da malandragem...
...tanto que colocam pra fora do caminho uma gang de adolescentes
Os Últimos Durões é uma comédia dramática em tom policial, mas feita como uma resposta para a sociedade e como que eles podem maltratar seus idosos. A história é bem urdida, mesmo a despeito de algumas implausibilidades  a que se deixa levar o roteiro de James Orr e Jim Chuickshank, onde a direção de Jeff Kanew soube acionar com charme em proveito de cinco grandes veteranos do cinema, que são os ótimos Burt Lancaster, Kirk Douglas, Eli Wallach, Charles Durning, e Alexis Smith. 

O machão Archie vai parar sem querer em um bar gay.
Archie cai no embalo com Syke, vivida por Darlanne Fluegel
As críticas à sociedade são ministradas logo na primeira metade do filme, onde as peripécias dos “idosos heróis” são imensamente hilárias, como num banco onde evitam um assalto, num bar gay onde Archie vai parar acidentalmente, e quando a dupla encontra uma gang de adolescentes e os tira do caminho.  Kirk Douglas esbanja boa forma física aos 70 anos, na cena em que entra para uma academia de ginástica e malha pegando em pesos e pulando na corda, como já fizera no clássico O Invencível, em 1949, um dos grandes filmes sobre o boxe. Aliás, entre a dupla de veteranos, Douglas é que tem as partes mais engraçadas e carrega sua graça ao longo do filme, enquanto Lancaster tem um desempenho mais dramático, sem perder o teor do humor. 

Archie tem um relacionamento romântico com uma moça trinta anos mais jovem, Syke, regada a maratona de muito sexo.
Eli Wallach, responsável pela maior parte das cenas engraçadas.
O assalto ao carro-forte também merece destaque entre as cenas mais engraçadas, contudo, nenhum dos momentos mais hilários se compara ao personagem vivido por Wallach, um alopradíssimo pistoleiro que quer executar sua missão a todo custo e matar a dupla. Também não deixa de ser interessante a abordagem amorosa, onde vemos o reencontro de Doyle (Lancaster) e Belle (Alexis Smith, ainda bela e em boa forma), prestes a um encontro romântico num dos quartos do asilo, quando são impedidos pela proprietária, que acha ridículo duas pessoas idosas fazerem sexo. Mais bem aventurado é Archie (Douglas), que mesmo não sendo aceito pela sociedade pela sua condição de ex-detento e não conseguir parar em emprego, cede as aventuras amorosas com uma jovem de 20 anos, a dona de uma academia de ginástica vivida por Darlanne Fluegel.

Harry (Burt Lancaster) rende o maquinista.
Harry (Lancaster) e Archie (Douglas), planejando um novo assalto.
A partir das cenas do assalto ao Gold Coast Flyer, Os Últimos Durões comete algumas falhas, resvalando até mesmo em situações além dos surreais. Apesar dos momentos engraçados e um roteiro curioso, o filme fecha sem grandes repercussões, onde fica evidente a simpática homenagem a duas grandes lendas da Sétima Arte, Burt Lancaster e Kirk Douglas, porém mais do que isso representou uma crítica ao sistema, que se recusa a aceitar ex-presidiários no mercado de trabalho após cumprir seu débito para com a sociedade e lhes são negadas uma segunda chance, além do maltrato para com os idosos. Contudo, fica difícil imaginar que dois veteranos assaltantes que passem 30 anos atrás das grades não tenham acompanhado as mudanças socioculturais ao longo desse tempo. Talvez seja o maior deslize em Os Últimos Durões.

Enfim, Harry e Archie conseguem a empreitada.
Os astros Burt Lancaster e Kirk Douglas, concedendo uma entrevista nos bastidores
Divulgação do filme em um jornal carioca, em 1987.
Algumas citações no filme poderão ser reparadas pelos cinéfilos mais observadores, como a de Sem Lei e Sem Alma, grande clássico com Lancaster & Douglas, dirigido por John Sturges. A fita ainda conta com um punhado de clássicos da música popular americana, que despontam Glenn Miller, Bing Crosby, Kenny Rogers e Janet Jackson. Pode não ser um dos melhores filmes com a dupla Lancaster & Douglas, mas na certa tornou-se registro do último encontro dessas duas “feras” do cinema internacional, provando que a velhice não é empecilho para entreter plateias e até mesmo cativar novos fãs e admiradores  da Sétima Arte. 


OS ÚLTIMOS
DURÕES
(The Tough Guys)

País: Estados Unidos 

Ano: 1986 

Direção: Jeff Kanew 

Gênero: Comédia- Policial

Produção: Joe Wizan, Richard Hashimoto

Kirk Douglas (produtor associado) 

Estúdio: Touchstone Picture, Buena Vista, e Bryna Productions

Música: James Newton Howard

Fotografia: King Baggot – em cores

Roteiro: James Orr e Jim Cruickshank

Metragem: 99 minutos


O ELENCO PRINCIPAL: Acima, Eli Wallach, Dana Carvey, e Charles Durning. Sentados, Alexis Smith, Burt Lancaster, Kirk Douglas, e Darlanne Fluegel.

ELENCO

Burt Lancaster – Harry Doyle 

Kirk Douglas – Archie Long

Charles Durning – Dake Yablonski

Alexis Smith – Belle

Dana Carvey – Richie Evans

Darlanne Fluegel – Syke

Eli Wallach - Leon B. Little 

Monty Ash – Vince

Billy Barty – Philly 

Simmy Bow – Schultz 

Darlene Conley - Gladys Ripps


Um Convidado Bem Trapalhão (1968): Blake Edwards faz Peter Sellers promover uma festa de arromba!

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO ( The Party ) , produzido em 1968, é considerada a comédia mais hilariante do eterno Peter Sellers (1925-19...