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sábado, 15 de julho de 2023

Da Terra Nascem Os Homens (1958): O Primeiro Grande Western em Superprodução, Com Rara Temática Pacifista para o Gênero.


Raramente na década de 1950, época em que os filmes Western eram produzidos em alta escala, que Hollywood divulgava o gênero em tons pacifistas, muito embora alguns cineastas mais avançados como Anthony Mann (que dirigiu 5 grandes clássicos com James Stewartlançavam uma releitura ao estilo cinematográfico genuinamente americano. Entretanto, um destes grandes clássicos foi dirigido por outro grande diretor muito famoso, portador de genuínos clássicos do cinema por excelência, cujo nome é sinônimo de competência:  William Wyler (1902-1981).

O Cineasta William Wyler
Wyler certamente foi um dos maiores cineastas do século XX, mas  nunca se considerou um autor de filmes e nunca foi esta a sua pretensão, e por isso era ignorado pela turma francesa do Cahiers du Cinéma, legião esta que, justamente, inventou o conceito do cineasta ser o artesão da obra. Trabalhava por encomenda sim, muitas vezes para produtores independentes (como Samuel Goldwyn). Não é possível se detectar um estilo de narrativa, um tipo de fotografia, ou sequer um ângulo favorito, em que não haja a participação de Wyler. A única identidade comum entre seus filmes era a excelência, nas palavras do saudoso crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Em verdade, nunca fez um filme ruim, muito embora haja películas umas melhores do que as outras, mas certamente, grandes obras cinematograficamente culturais tem seu legado. 

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958) em exibição nos Estados Unidos.

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (The Big Country, 1958) foi o primeiro Western a ser, de fato, uma superprodução, pois em 1958, a televisão invadia os lares americanos (no Brasil, não foi diferente!), lançando muitas séries de faroestes, como As Aventuras de Rin Tin Tin, The Lone Ranger (Zorro & Tonto), Paladino do Oeste, Bat MastersonGunsmoke, o Homem do Rifle, entre outras - e no entanto, seria imperioso um investimento alto para não perder a concorrência com a telinha.  Para isto, nada como reunir um cineasta premiado e de renome internacional, atores consagrados, um compositor que pudesse prender o espectador com a trilha sonora (o magistral Jerome Moross), e um fotógrafo que pudesse dar todo o panorama que nenhum televisor poderia enquadrar (Franz Planer).
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Divulgação

O resultado deste esforço épico foi uma obra de 165 minutos de duração que custou cinco milhões de dólares, causando grande impacto e levando o público aos cinemas e, definitivamente, marcou aqueles que o assistiram por suas cenas de inigualável e impressionante beleza visual. Baseada no conto Ambush at Blanco Canyon de Donald Hamilton (o mesmo autor de  Pecado em Cada Alma e os livros do espião Matt Helm) e adaptada por Jessamyn West (1902-1984, autora Sublime Tentação, obra de Wyler realizada em 1956, com Gary Cooper).

Gregory Peck como Jim McKay, o mocinho de DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
Mas DA TERRA NASCEM OS HOMENS pretende, de fato, fazer jus ao seu título original. Se a pretensão do cineasta foi realmente fazer um filme estrondoso, valeu o espetáculo, pois levou uma história ao seu final sem provocar irritação irreparável no espectador. Para alguns críticos mais arredios, o fator negativo do filme reside justamente na sua mania de grandeza. Isto porque a temática da trama é marcada pela conduta do personagem de Gregory Peck (1916-2003), interessante e válida. Peck como Jim McKay é o herói que recusa-se agir de acordo com os métodos rudes e ásperos do Velho Oeste, que prova que a razão é mais superior que a violência. Tudo isso esta provado no argumento do personagem principal, às vezes um pouco confuso e cansativo na coordenação dos incidentes da história. Mas mesmo assim, vale o ingresso. 

Jean Simmons como a Professora Julie Maragon
O início e o final da fita seguem a fórmula clássica do gênero, com bastante ação a despertar o interesse do público. Mas o miolo da história se arrasta, assim como que impregnado pela vastidão enfadonha da planície arenosa, onde a escassez de água era o motivo de uma sangrenta e invencível divergência entre dois velhos fazendeiros, vivido respectivamente pelos magistrais Charles Bickford e Burl Ives.

Burl Ives como Rufus Hannessey, e seu inimigo caído ao chão, Major Terrill, vivido por Charles Bickford.
É certo que THE BIG COUNTRY possui, isoladamente, grandes momentos de criação cinematográfica motivadas pela mente de William Wyler. O espectador mais atento poderá observar, por exemplo, que o sentido de vastidão do campo domina toda obra, graças a esplendida fotografia de Franz Planer.

Steve Leach, vivido por Charlton Heston, capataz do rancho do Major Terrill, pai de Patricia (Carroll Baker).
Considerado o primeiro western de efeito esplendoroso nas proporções da tela do Techinirama – a começar pelos títulos de abertura de Saul Bass (1920-1996), ritmados com a música vibrante de Jerome Moross. Obviamente, em uma tela de televisão o efeito causa menos impacto, mas o filme impõe-se pelo seu cineasta, pelo elenco e pela temática pacifista, algo incomum no gênero. 

Divulgação



O Major Henry Terrill anunciado o noivado de Jim e Patricia...

...enciumando Steve Leach, que gosta da filha de seu patrão.
O pacífico Jim McKay em luta com Steve Leach.
James “Jim” McKay (Gregory Peck), um cavaleiro do leste e ex marinheiro, vai ao Texas visitar a noiva Patricia Terrill (Caroll Baker) e encontra uma região abalada pelo conflito de terras: dois barões do gado, o pai de Patricia, o Major Henry (Charles Bickford, 1889-1967), e Rufus Hannessey (Burl Ives, 1909-1995) disputam um rancho pertencente a Julie Maragon (Jean Simmons, 1929-2010) e que possuí a única fonte de água no território. 

Buck Hannessey (Chuck Connors) se interessa por Julie (Jean Simmons) e em uma noite ele tenta violenta-la...
...mas McKay intervém e agride Buck.

Buck (Chuck Connors) é alvejado pelo próprio pai (Burl Ives).
McKay põe-se ao lado de Julie, e como que não quer nada, vai aos poucos impondo sua política pacifista num ambiente hostil onde impera a lei da força bruta. O cavaleiro do Leste terá que provar seu valor ao tentar montar uma cavalo selvagem, chamar para briga no meio da noite o capataz do rancho dos Terrill, Steve Leech (Charlton Heston, 1923-2018) após recusar lutar com ele na frente de Patricia, e  para defender Julie lutar com Buck Hannessey (Chuck Connors, 1921-1992), filho de Rufus. 


Gregory Peck e Carroll Baker recebendo instruções do diretor William Wyler.
William Wyler e Gregory Peck eram grandes amigos, inclusive é o próprio astro de “A Princesa e o Plebeu” (outra fita de Wyler) que co-produziu este fascinante superespectáculo Western. Porém, durante as filmagens, Peck e Wyler se desentenderam feio. Tudo porque Wyler, um perfeccionista ao extremo, fazia questão de repetir muitas cenas as quais Gregory Peck, como co-produtor, reprovava e achava que estavam perfeitas. O cineasta disse a jornalistas – e fazia questão de dizer que falava abertamente para os jornais publicar – que não voltaria a dirigir o ator nem por um milhão de dólares. Com efeito, ambos jamais voltariam a se falar, até Wyler falecer em 1981.

Jean Simmons

CAST de DA TERRA NASCEM OS HOMENS. Notem que Jean Simmons não esta nada sorridente!
Jean Simmons acabou por aceitar o papel de Julie Maragon, mesmo não tendo simpatias por William Wyler. Tudo porque Simmons foi a primeira escolha do diretor para ser a protagonista em A Princesa e o Plebeu , mas Wyler voltou atrás e preferiu Audrey Hepburn. Simmons considerou a atitude de Wyler deselegante, mesmo não havendo ainda um contrato firmado. Contudo, por razões profissionais, Jean acabou pegando a parte de Julie, mas nunca reatou amizade com o diretor. A relação era estritamente profissional e ao longo de sua vida sempre se recusou a falar do cineasta.

Jerome Moross, compositor da trilha sonora de
DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
O fotógrafo Franz Planer e Gregory Peck
Da Terra Nascem os Homens é um western espetacular, valorizado por marcante comentário musical de Jerome Moross (1913-1983), uma das mais belas trilhas do gênero que segura todo o espetáculo. Valorizado também pela bela fotografia do austro-húngaro Franz Planer (1894-1963), o mesmo que fotografou Bonequinha de Luxo, A Princesa e o Plebeu, e Rei dos Reis.

Charlton Heston
Charlton Heston já era consagrado após o clássico Os Dez Mandamentos (1956), dirigido por Cecil B De Mille, porém teve que submeter-se a um “teste” com Wyler. DeMille sempre gostou de Heston e sugeriu a Wyler que desse ao astro de O Maior Espetáculo da Terra um dos papéis centrais. Até então, Heston havia feito sempre papéis de heróis, inclusive em westerns, e sem contar que o ator ainda estava estigmatizado pela crítica como canastrão comparado a Victor Mature, no início da carreira.

Charlton Heston em AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL em 1953.

Wyler deu a Heston o papel do antipático e rude Steve Leach, personagem comparado a um vilão. De início, o ator queria recusar o papel do capataz por achar que era pequeno, mas seu agente convenceu-o de que valeria a pena pela oportunidade de trabalhar ao lado de Gregory Peck, e sob a direção de William Wyler. Felizmente, Heston aceitou o conselho de seu agente, e para sua felicidade (e a do público e de seus fãs!), Wyler gostou tanto de seu desempenho que o pôs no ano seguinte para seu próximo filme, talvez um dos mais importantes do cineasta, Ben-Hur, com Charlton Heston como astro principal, outorgando grande responsabilidade na superprodução, que rendeu 11 premiações na Academia, incluindo um como Melhor Ator para Heston. 

O diretor William Wyler e a atriz Carroll Baker.
Carroll Baker chegou a ter também uma carreira longa, e anos depois, confessou que se tornou amante de produtor para subir em Hollywood, mas depois se arrependeu e foi estudar no Actor´s Studio onde encantou Elia Kazan que a usou como Baby Doll (1955), filme polêmico. Teve muitas chances no cinema, foi dirigida por John Ford (Crepúsculo de Uma Raça, 1962) e mesmo pelo nosso Hector Babenco (1946-2016) em Ironweed, em 1987, Muito estranho e inexplicável o sumiço de Baker no roteiro de Da Terra Nascem os Homens perto ao fim da história, pois sua personagem fica ausente da luta final.

O ator mexicano Alfonso Bedoya, em seu
último trabalho no cinema.
Destaque também para o ator mexicano  Alfonso Bedoya (1904-1957), falecido aos 53 anos por problemas relacionados ao álcool, que sequer chegou a ver o filme lançado. Bendoya foi o melhor de todos os atores mexicanos fazendo tipos característicos no cinema norte-americano, o primeiro deles em O Tesouro de Sierra Madre (1949, de John Huston), onde roubou muitas cenas até mesmo do astro principal, Humphrey Bogart. Em Da Terra Nascem os Homens, ele faz o papel do empregado dos Tirrell, Ramón Guiteras, que acaba tornando-se uma espécie de “Sancho Pança” para o personagem de Gregory Peck.  Ramón abandona os Tirrell para servir a Mckay e avisa-lhe dos perigos que corre. Na última cena, ele parte com o herói e Julie, dando a entender que seguirá seu destino com os dois. Nota-se um dublê de costas no lugar de Bendoya, que morreu antes do término das filmagens.

Burl Ives ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958).
Burl Ives era um ator de múltiplos talentos, pois também era radialista, cantor, escritor e músico. Começou a vida como esportista, sendo jogador de futebol americano, mas foi inserido no mundo da música, tornando-se um cantor de Folk e baladas, gravando mais de 30 álbuns para Decca e 12 para a gravadora Colúmbia. Sua carreira de ator começou na Broadway, onde é mais lembrado pelo público americano no papel de Big Daddy na versão de Gata em Teto de Zinco Quente, em 1938, papel que repetiria na versão cinematográfica de 1959 com Elizabeth Taylor e Paul Newman - mas somente em 1946 foi introduzido em Hollywood com Furacão Negro (Smoky) com Fred MacMurray e Anne Baxter.

O cantor Burl Ives

Burl Ives também era cantor e gravou inúmeros Long Plays.
Ives ficou notável como o rústico patriarca Buck Hannassey, o que valeu-lhe o Oscar como Melhor Ator Coadjuvante. Nesta época, ele já encontrava-se semi-aposentado do  show business, mas com o Oscar conquistado, muitas outras oportunidades se abriram para este gigante em todos os sentidos, seja na estatura física e no talento. Quando em 1989, aos 80 anos de idade, anunciou definitivamente sua aposentadoria, veio a estabelecer-se em Anacortes, Washington, com sua família, muito embora fizesse até quase ao fim da vida shows beneficentes. Um ano antes de seu falecimento, foi introduzido no Hall da Fama DeMolay, pois era um Grão Mestre da Maçonaria, grau 33 (o máximo), e toda sua família era vinda de maçons. Assim ele dizia:

Tive a sorte de nascer em uma família de maçons. Na verdade, minha irmã mais velha, Audrey, era matrona Grande da Ordem da Estrela do Oriente, em Illinois. Minha experiência DeMolay veio muito naturalmente por causa do meu pai e irmãos. Assim foi a minha juventude reforçada.

Burl Ives morreu em 14 de abril de 1995 aos 85 anos.


Divulgação do filme nos jornais cariocas, em exibição pelas salas do Rio de Janeiro.


FICHA 
TÉCNICA
Gregory Peck e Jean Simmons


País – Estados Unidos

Ano – 1958

Gênero - WESTERN

Direção – William Wyler

Produção – William Wyler, Robert Wyler e Gregory Peck, em produção e distribuição pela United Artists

Roteiro - James R. Webb, Sy Bartlett, Robert Wilder, com adaptação de Jessamyn West e Robert Wyler, com base na história de Donald Hamilton.

Fotografia – Franz Planer, em Cores.

Música – Jerome Moross

Metragem – 165 minutos.


Chuck Connors, Burl Ives e Gregory Peck


Gregory Peck – James McKay

Jean Simmons - Julie Maragon

Carroll Baker - Patricia Terrill

Charlton Heston - Steve Leach

Burl Ives - Rufus Hannassey

Charles Bickford - Major Henry Terrill

Alfonso Bedoya - Ramón Guiteras

Chuck Connors - Buck Hannassey

Chuck Hayward - Rafe Hannassey

Buff Brady - Dude Hannassey

Dorothy Adams- Mulher da família Hannassey

Chuck Roberson - Vaqueiro dos Terrill

Bob Morgan   -  Vaqueiro dos Terrill

John McKee - Vaqueiro dos Terrill

Slim Talbot - Vaqueiro dos Terrill

Jim Burk   - Blackie / Cracker Hannassey

Carey Paul Peck - Garoto de 11 anos

Jonathan Peck - Garoto de 14 anos

Ralph Sanford - Convidado na festa





sábado, 1 de abril de 2023

O Manto Sagrado (1953): O Filme Cuja Técnica Revolucionou Para Sempre a Estética do Cinema

Há mais de 70 anos, o primeiro filme rodado no processo Cinemascope surgiu para botar a televisão no escanteio. Tudo porque este então novo veículo de comunicação ameaçava o cinema, e as salas de exibição tornavam-se cada vez mais vazias. O conforto de ver televisão em casa provocava medo na indústria de filmes, e donos de estúdios, produtores, cineastas e diversos artistas, mobilizavam-se para não perderem concorrência com a telinha.

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Parecia que a Sétima Arte estava com seus dias contados e fadada a um fim irremediável. No entanto, os recursos que grandes produtores e engenheiros encontraram para evitar a "extinção do cinema" e perder a concorrência com a TV foi expandir o formato de seus filmes. Devemos lembrar que, após o surgimento Cinemascope, vieram a surgir os processos Vistavision e Panavision (Câmera de 65mm, em Ben-Hur, 1959), e ainda o Techinirama 70mm, ambos formatos visavam transformar grandes produções em mega-espetáculos, e nada como filmes com temáticas históricas ou grandes épicos para fazer a alegria do público. Sem estas técnicas, é importante frisar que jamais existiria o formato Widescreen, que percorreria a grande maioria dos DVDS lançados no Mercado.

Henri Chrétien, inventor do "Sistema Hypergonar", que daria origem 30 anos depois ao surgimento do CinemaScope.

O curioso é que o Cinemascope já era um processo antigo antes mesmo de seu lançamento oficial em 1953. Engenhosamente, Darryl F. Zanuck (1902-1979), o chefão da 20th Century Fox, encontrou a solução para sobrepujar a concorrência com a televisão, quando lembrou do invento do francês Henri Chrétien (1879-1956), patenteado em 1927, com o nome de Sistema Hypergonar, que consistia basicamente numa câmara de lente anamórfica, capaz de criar imagens destinadas a uma tela duas vezes maior que a tradicional. Aperfeiçoando e "estereofonizado", o processo criado por Chrétien ressurgiu com o nome de Cinemascope, e rendendo uma fortuna aos cofres da Fox. E a nova técnica viria não somente para ficar, mas a influenciar outros formatos de tela. 

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Com esta vitória da Indústria Cinematográfica Hollywoodiana, que conseguiu com isto promover a volta do público para as grandes salas, O Manto Sagrado/The Robe ficou na história como o primeiro filme a ser lançado no formato Cinemascope, levando plateias no mundo inteiro aos cinemas, e um dos espetáculos mais exibidos nos feriados de Páscoa em muitos cinemas do Brasil (em alguns lugares, ficou em cartaz por quase 10 anos)- e também era filme garantido de toda Sexta-Feira Santa nas antigas exibições pela Sessão da Tarde da televisão . No entanto, é justamente no televisor que o filme perde drasticamente impacto visual, pois a telinha deforma o Cinemascope, perdendo os enquadramentos originais. 

Richard Burton como o tribuno romano Marcellus Gallio.
O épico de cunho religioso e bíblico versa nos últimos anos do reinado de Tibério (Ernest Thesiger, 1879-1961), quando Roma era a "Senhora do Mundo". Marcellus Gallio (Richard Burton, 1925-1984) é um jovem tribuno do império que está sempre envolvido com jogos ou mulheres. Além disto, tem rixa pessoal com Calígula (Jay Robinson, 1930-2013), o herdeiro do trono. A situação complica-se quando Marcellus oferece, em um leilão de escravos, a absurda quantia de três mil moedas de ouro por Demétrius de Corinto (Victor Mature, 1913-1999), um grego outrora trazido para a capital como prisioneiro de guerra e que também era disputado por Calígula no leilão.

Victor Mature como o escravo Demétrius de Corinto.
Jay Robinson como o insano imperador Calígula
Ao se ver derrotado por Marcellus, Calígula encara isto como uma afronta pessoal e então manda o tribuno ir servir imediatamente em Jerusalém, na Palestina, considerado o pior lugar do mundo. Entretanto, devido a motivos políticos, depois de curto período na "Terra Santa", Marcellus é chamado de volta por Tibério. 

Richard Boone como Pôncio Pilatos
Mas, antes de partir para Roma, Marcellus recebe de Pôncio Pilatos (Richard Boone, 1917-1981), procurador romano em Jerusalém,  a missão de supervisionar a execução de uma sentença: a crucificação de Jesus Cristo. Finda a tarefa, ele e outros soldados disputam em um jogo de dados a posse pelo manto vermelho usado por Jesus. Marcellus vence a aposta, mas o manto fica com Demétrius, pois quando Gallio tenta usar o manto, algo o aflige de forma indescritível. O escravo grego, que já tinha se tornado um cristão, tira-lhe o manto, dizendo que jamais o serviria novamente, pois ele tinha crucificado seu mestre. Em seu retorno, o tribuno fala frases sem sentido, como se algo muito forte o atormentasse.

Jean Simmons como Diana, a amada de Marcellus.

Já em Capri, onde estava o imperador e Diana (Jean Simmons, 1929-2010), a amada de Marcellus, alguns membros da corte e o próprio Tibério, vendo que o tribuno portava-se de modo estranho, ouvem por horas o que aconteceu em Jerusalém. Tibério acha que o oficial pode ter perdido a razão, mas quando Gallio atribui que a aflição que sente só aconteceu após cobrir-se com o manto de Jesus, então o adivinho da côrte conclui que o manto estava enfeitiçado e precisa ser destruído. Isto parece lógico tanto para Tibério como para Marcellus, então o tribuno retorna à Palestina para destruir o manto e descobrir quem são os cristãos responsáveis por algum tipo de conspiração, mas esta viagem irá mudar profundamente sua vida.

Burton e Michael Rennie como São Pedro.
Pedro (Michael Rennie), o "Grande Pescador" e líder da Igreja, recebe Marcellus, ao lado de Justus (Dean Jagger)

Uma vez de volta a Palestina, em sua procura pelo manto, Marcellus vai à pequena vila de Caná, onde conhece Justus (Dean Jagger, 1903-1991) e Miriam (Betta St John, 1929-2023), dois exemplos de vida cristã.  Embora não acredite em algumas coisas que lhe falam, como a ressurreição de Cristo, o tribuno começa a ter dúvidas sobre suas crenças.  Justus lhe diz que conhece sua identidade e lhe informa que todos já o perdoaram, assim como Jesus o perdoou.  Logo depois, ao tentar convencer Marcellus do amor de Jesus pela humanidade, Miriam lhe diz que um dos seus discípulos, Simão Pedro (Michael Rennie, 1909-1971), conhecido como “O Grande Pescador”, acaba de chegar em companhia de seu companheiro grego, o próprio Demétrius.

Divulgação

Ao pedir o manto para ser queimado, Marcellus ouve de Demétrius que o problema dele não está no manto e sim em sua consciência, em seu coração, por ter crucificado o Messias.  Receoso, em princípio, mas encorajado por Demétrius, o tribuno termina abraçando o manto de Cristo e  livra-se de todas as suas angústias.

Diana e Marcellus
Em seguida, Marcellus é levado à presença de Pedro e termina convertendo-se ao cristianismo, passando a seguir o apóstolo.  Tempos de depois, Pedro e seus seguidores chegam à Roma e passam a viver nas catacumbas.  Com a morte de Tiberius, Caligula é o novo imperador e inicia uma perseguição implacável contra os cristãos.  Quando Demétrius é preso e torturado nos calabouços do palácio de Calígula, o tribuno decide libertá-lo, o que consegue com a ajuda de um grupo de homens.  Entretanto, durante a fuga, eles são perseguidos e, em benefício da liberdade do grupo, Marcellus atrai seus perseguidores, e se entrega. 

Demétrius (Victor Mature) se apossa do Manto Sagrado e se torna seu guardião...
...a ponto de quase sacrificar sua vida, mas é curado milagrosamente por Pedro (Michael Rennie).
Depois que Marcellus é capturado, Diana visita-o em sua cela e lhe implora para que renegue Jesus, a fim de salvar a si próprio, mas ele fala pra ela sobre o povo de Caná, que nunca renegou Jesus, apesar do perigo de ser seu seguidor.

Marcellus e Diana na côrte de Calígula (Jay Robinson).
Marcellus jura lealdade ao Império Romano, mas não abjuga Cristo
Marcellus é então levado a julgamento por traição, oportunidade em que confessa ser um cristão. Calígula ridiculariza as afirmações do tribuno de que o seu rei é o Rei do Céu, que acredita em amor, compaixão e caridade acima de tudo. Irritado por que Diana ainda prefere Marcellus a ele, Calígula faz com que a assembleia exija a morte do tribuno.

Marcellus e Diana levados para o pátio dos arqueiros, onde sofrerão 0 martírio (cena eliminada no filme).
Marcellus e Diana, a caminho da Eternidade.
Diana, movida pela crença apaixonada de Marcellus e repugnada pela tirania de Calígula, escolhe morrer com o homem que realmente ama.  O Manto Sagrado foi indicado para cinco categorias do prêmio Oscar em 1953, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Richard Burton. Mas acabou conquistando o Oscar por Melhor Cenografia em cores, e ainda, um Oscar especial pela novidade técnica que viria revolucionar para sempre toda estética do cinema. 

LLOYD C. DOUGLAS, autor do romance que originou o filme
A fita, dirigida por Henry Koster (1905-1988), foi baseada em romance publicado em 1942 por Lloyd C. Douglas (1877-1951). No Brasil, o romance foi publicado com o título de O Manto de Cristo A trilha sonora foi encarregada pelo Mestre Alfred Newman (1901-1971), de A Canção de Bernadete. Os direitos do romance chegou a ser comprado pela RKO estúdio, que no início dos anos de 1950, vendeu para 20th Century Fox, como veículo para Tyrone Power que interpretaria Marcellus, mas ele recusou o papel.

Victor Mature e Mae Marsh.
O Filme foi um estrondoso sucesso e foi ocasião ímpar em toda História da Cinematografia, pois todas as salas de cinema tiveram que ser reformadas para recepcionar o lançamento deste êxito das telas.  A Fox, que detinha os direitos do livro de Douglas, não sabia o que fazer com as demais 200 páginas do romance, e aproveitando o embalo do sucesso de The Robe, o estúdio resolveu fazer uma sequência da obra, em 1954. 

DEMÉTRIUS 
O GLADIADOR

Victor Mature repete o papel de Demetrius em DEMÉTRIUS E OS GLADIADORES. Aqui com Ernest Borgnine.
Sob a direção de Delmer Daves (1904-1977) especialista em dramas e westerns (Galante e sanguinário), e repetindo Mature (Demétrius), Michael Rennie (São Pedro) e Jay Robinson (Calígula) nos seus respectivos papéis em O Manto Sagrado. Produzida por Frank Ross (1904-1990), que havia também produzido o filme anterior, realizou juntamente com o diretor Daves uma fita superior, porque substituiu a religiosidade melodramática de The Robe por exuberante ação física e estimulantes aspectos aventurescos (as sequencias de treinamento na arena e a luta de gladiadores no Coliseu são excelentes, com ótimos movimentos de câmera). 

Susan Hayward como Messalina. Na foto, com Mickey Simpson.
Michael Rennie volta a interpretar São Pedro em DEMETRIUS E OS GLADIADORES (1954).
Escrito por Philip Dunne (1908-1992) com base nos personagens de Lloyd C Douglas, o filme transcorre após a morte de Marcellus (Richard Burton) e Diana (Jean Simmons), ocorrida no desfecho de O Manto Sagrado. O cristão Demétrius, o guardião do manto de Cristo, é perseguido pelo imperador Calígula, sendo preso e feito gladiador na arena, comandada por Strabo (Ernest Borgnine, 1917-2012).

Demetrius perde a fé cristã e submete-se aos caprichos de Messalina.
Demetrius e sua amada Lucia (Debra Paget).
Quando sua amada Lucia (Debra Paget) entra em estado de choque ao risco de ser violentada por um dos gladiadores, Dardanius (Richard Egan, 1921-1987), Demétrius perde a fé e sucumbe aos encantos de Messalina (Susan Hayward, 1918-1975). Demétrius e os Gladiadores constitui um dos melhores espetáculos já realizado no cinema épico de aventuras. A trilha sonora é do renomado Franz Waxman (1906-1967), com base no repertório de Alfred Newman, o compositor original de The Robe.

O LANÇAMENTO DE “O MANTO SAGRADO” NO RIO DE JANEIRO

O MANTO SAGRADO foi lançado nos Estados Unidos em 24 de setembro de 1953, no Chinese Theatre, em Hollywood, inaugurando definitivamente o Cinemascope. Não demorou muito, a novidade chegou ao Brasil, repetindo o mesmo sucesso de Los Angeles. Não diferente também como ocorrido nas salas de cinema nos EUA, algumas salas aqui tiveram também que ser adaptadas para  a estreia de The Robe no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro, a então Cidade Maravilhosa, que recebeu de braços abertos, tal como o Cristo Redentor, o monumento turístico da cidade, a sagrada fita estrelada por Richard Burton, Jean Simmons, Victor Mature, e Michael Rennie, nos idos tempos que o Rio ainda era a capital da República. 

O MANTO SAGRADO - OCASIÃO DE GALA TAMBÉM NO RIO DE JANEIRO, CONFORME ANÚNCIO  NOS JORNAIS DA ÉPOCA DE SEU LANÇAMENTO, NAS SALAS CARIOCAS.

Divulgação pelos jornais do Rio de Janeiro, em 1954.
O CINE-PALÁCIO no Centro do Rio de janeiro, teve suas instalações alteradas para a estreia, e finalmente, a 15 de abril de 1954, estreou O MANTO SAGRADO nas salas de projeção da cidade.
FICHA 
TÉCNICA
O MANTO SAGRADO
(The Robe)

País – Estados Unidos 

Ano – 1953

Gênero – Épico/Religioso 

Direção – Henry Koster

Produção – Frank Ross, para a 20th Century Fox 

Roteiro – Phillip Dunne e Gina Kaus (adaptação), com base no livro de Lloyd C. Douglas. 

Música – Alfred Newman 

Fotografia – Leon Shamroy, em Cores

Metragem – 135 minutos


elenco

RICHARD BURTON – Tribuno Marcellus Galio 

JEAN SIMMONS – Diana 

VICTOR MATURE – Demetrius de Corinto, o escravo 

MICHAEL RENNIE – São Pedro, o “Grande Pescador” 

JAY ROBINSON – Calígula 

TORIN THATCHER – Senador Galio 

DEAN JAGGER – Justus 

RICHARD BOONE – Pôncio Pilatos. 

BETTA St. JOHN – Miriam 

JEFF MORROW – Paullus, o centurião 

ERNEST THESIGER – Imperador Tibério 

DAWN ADDAMS – Junia 

LEON ASKIN – Abidou 

MICHAEL ANSARA – Judas Iscariotes 

FRANK DeCOVA – Escravo 

JOHN DOUCETTE – Soldado da esquadra 

SAM GILMAN – Capitão da esquadra 

MAE MARSH – Mulher idosa de Jerusalém que ajuda Demetrius

JAY NOVELLO – Tiro 

HAYDEN RORKE – Callus, licitante do leilão de escravos. 

HARRY SHEARER – o pequeno Davi 

PERCY HELTON – Caleb, o mercador de vinhos. 

DONALD  C. KLUTE – Jesus Cristo

SALLY CORNER – Cornelia, mãe de Marcellus

PAMELA ROBINSON – Irmã de Marcellus

ROSALIND IVAN – Julia, esposa de Tibério 

E

CAMERON MITCHELL – A Voz de Jesus no Calvário.




Um Convidado Bem Trapalhão (1968): Blake Edwards faz Peter Sellers promover uma festa de arromba!

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO ( The Party ) , produzido em 1968, é considerada a comédia mais hilariante do eterno Peter Sellers (1925-19...