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domingo, 6 de agosto de 2023

A Face Oculta (1961): O Excêntrico Western de Marlon Brando


O romance The Authentic Death of Hendry Jones, de autoria de Charles Neider (1915-2001) serviu de base para a produção do excêntrico western A FACE OCULTA (One –Eyed Jacks, 1961), tendo no roteiro  Calder Willingham (1922-1995)  e Guy Trosper (1911-1963), onde conta-se o destino de dois ladrões de bancos que após praticarem um assalto em Sonora, no México, se separam porque só havia um cavalo.  O argumento ainda teve como roteiristas Rod Serling (1924-1975, de Além da Imaginação) e o cineasta Sam Peckinpah (1925-1984), mas estes acabaram não recebendo crédito pelo trabalho. Entretanto, o maior interessado no projeto era o ator Marlon Brando (1924-2004) que ambicionava levar avante uma produção assinada por sua empresa. Em 1957, Brando havia fundado a sua produtora, a Pennebaker, e esta produziu De Mãos Dadas com o Diabo (Shake Hands with the Devil) em 1959, dirigido por Michael Anderson (1920-2018).

Stanley Kubrick e Marlon Brando.
Marlon Brando, o diretor.

Marlon Brando, depois da saída de Stanley Kubrick, assume a direção de A FACE OCULTA (1961)
Acertado com roteiristas e produção, faltava para Marlon encontrar um diretor. No início, queria Stanley Kubrick (1928-1999) na direção, e Marlon viveria o “mocinho” da trama, o bandoleiro Rio. Contudo, não demorou e houve divergências entre Kubrick e o astro. Kubrick queria Spencer Tracy para um dos papéis centrais, o do xerife Dad Longworth, e Brando, como dono da produtora, não concordou, pois queria Karl Malden (1912-2009) para interpretar Dad. Malden tinha contrato firmado com a Pennebaker e visto que Brando jamais admitiria Tracy no papel de Dad Longworth, Stanley Kubrick saiu da direção após sérios desentendimentos com o ator. Assim, Brando assumiu a direção, e Malden, a parte de Longworth.

Brando supervisionando uma câmera VistaVision. A FACE OCULTA foi o último filme da Paramount a usar esta tecnologia.
Brando na direção de A FACE OCULTA (1961)
Marlon a supervisionar o roteiro.
Contudo, as histórias que cercam este Western Milionário não estão apenas nas discussões entre Marlon Brando e Stanley Kubrick. O projeto, originalmente, era mesmo para ser uma ambiciosa produção, que durariam cinco horas de projeção. E os investimentos foram extrapolados. Era para custar 1,8 milhão de dólares, mas acabou custando seis milhões de dólares, e era para ser rodado em seis semanas, mas levou sete meses para as filmagens serem concluídas, consumidos depois de dois anos de trabalhos. As rodagens começaram em dezembro de 1958 e concluídas em julho de 1959, e retomadas em dezembro de 1960 para cenas adicionais (incluindo um desfecho diferente exigido pela Paramount). Das 35 horas de filme impresso, o diretor e astro Brando selecionou material para cinco. Extremo perfeccionista, o ator gastou mais de 300 mil metros de filme virgem e editou tudo entregando A Face Oculta para a Paramount distribuir com cinco horas de duração. Ao término das montagens (que levou ainda dois anos), os produtores associados  tiveram-se na contingência de reduzir ainda mais a metragem da fita, que ao final, foram reduzidas para 2h e 21 minutos. Brando ficou furioso.

Brando e o produtor Walter Seltzer.
Brando em posicionamento de câmera.

Brando, um extremo perfecionista.
Embora a edição final sacrificasse duas horas de filme, sendo comprometida a unidade geral da obra, o resultado é brilhante, com sequências esplendidamente realizadas. Não muito bem aceito pela crítica à época de seu lançamento, após várias revisões, A Face Oculta tem hoje status de faroeste clássico. É esteticamente um dos mais belos westerns já filmados, com a excelente fotografia de Charles Lang (1902-1998), interpretações primorosas, e uma história perfeitamente bem desenvolvida, ainda que bastante violenta para a época. E vale destacar a música do veterano Hugo Friedhofer (1901–1981).

Karl Malden ficou com o papel do vilão, Dad Longworth. Stanley Kubrick queria Spencer Tracy para a parte.
ELENCO
Além das presenças centrais de Marlon Brando e Karl Malden, A Face Oculta é cercada de atores conhecidos e vistos nos westerns dirigidos por Ford, Hawks, ou Anthony Mann, o que vem a valorizar ainda mais a fita dirigida por Brando. Temos Ben Johnson (1918-1996), notório cowboy fordiano, embora tempos depois brigasse com o cineasta e nunca mais tivesse feito um filme para John Ford. A mexicana Katy Jurado (1924-2002), que já namorou Brando e já havia feito trabalhos no gênero, como Matar ou Morrer (1952), de Fred Zinnemann.  Outro grande destaque é o ótimo ator Timothy Carey (1929-1994), formado pela Actor’s Studio de Elia Kazan e um dos atores mais requisitados pelo diretor, que apesar de poucos minutos em One- Eyed Jacks, aparece no filme para "levar uma surra de Brando e ser morto por ele". 

Katy Jurado no papel de Maria, esposa de Dad.
No panorama, podemos ver: a atriz e dançarina Margarita Cordova e Timothy Carey, encostados no balcão. Sentados, Larry Duran e Brando. Em pé, como garçom, Ray Teal.
Rio (Brando) em luta com Howard (Timothy Carey)
O notável Elisha Cook Jr (1903-1995), famoso por ter sido morto por Jack Palance em Os Brutos Também Amam (1953) de George Stevens, no papel de um empregado de banco - e ainda a despontar Rodolfo Acosta (1920-1974), Hank Worden (1901-1992), outro ator da trupe de John Ford - Sam Gilman (1915-1985), Slim Pickens (1919-1983), Ray Teal (1902-1976), John Dierkes (1905-1975) – e destaque para a talentosa porto-riquenha Miriam Colon (1936-2017), também saída do Actor’s Studio.

Marlon Brando em A FACE OCULTA (1961)

A TRAMA
Trata-se de um western psicológico. Em Sonora, México, no ano de 1885, após assaltar um banco, o bandoleiro Rio (Marlon Brando) juntamente com seu comparsa e amigo, Dad Longworth (Karl Malden), são cercados pelos Guardas Rurales (os policiais ou vigilantes da fronteira entre o México e os Estados Unidos), e como ambos só têm um cavalo para poder escapar dos guardas, Dad se voluntaria para pegar montaria forte em uma aldeia próxima, enquanto Rio tenta driblar os policiais em pleno deserto. Chegando a aldeia, Dad, motivado pela ganância, consegue dois cavalos, levando todo o dinheiro do assalto e abandonando Rio para os Rurales. Rio é preso, capturado, e sentenciado a cinco anos na prisão local.

Rio (Brando) não poupa nem as senhoras de um assalto a banco.
Rio e seu comparsa e amigo, Dad Longworth, fugindo dos policiais rurales...
...mas Rio não contava que seria traído pelo melhor amigo.
Depois de cinco anos, Rio consegue fugir com um companheiro de cela, o mexicano Modesto (Larry Duran, 1925-2002), tendo em mente se vingar de Dad por sua traição. Depois de várias buscas pelo paradeiro de Longworth, Rio se alia a dois outros fora-da-lei: Bob Amory (Ben Johnson) e Harvey Johnson (Sam Gilman), que pretendem assaltar um banco de um vilarejo de Monterrey, cujo xerife é Dad Longworth. Assim, Rio se dirige ao vilarejo e encontra Dad como um respeitável homem da cidade, casado com Maria (Katy Jurado) e com uma filha adotiva, Louisa (Pina Pellicer, 1934-1964).

Rio escapa da prisão depois de cinco anos, acompanhado pelo companheiro de cela, o mexicano Modesto (Larry Duran).
Harvey Johnson (Sam Gilman) e Bob Amory (Ben Johnson): Sócios de Rio mais interessados em roubar um banco.
Depois de muitas buscas, Rio encontra o ex-comparsa e traidor Dad Longworth (Karl Malden), agora como um respeitável xerife de um vilarejo.
Rio simula refazer amizade com Longworth para melhor executar seu plano de vingança, mas o que ele não contava é que ele terá um sério relacionamento com Louisa, e se apaixonará pela moça. Sabendo que Rio andou saindo com Louisa, Dad convoca seus homens e capturam Rio, para que este seja açoitado por Dad em público. 

Dad apresenta a Rio sua esposa Maria (Katy Jurado) e sua filha adotiva, Louisa (Pina Pellicer).
O grandalhão Lon (Slim Pickens), auxiliar de Dad, que cobiça Louisa e persegue Rio.
A FACE OCUTA (1961)

Rio, dominado por Lon, será chicoteado em público por Dad Longworth.

Mais tarde, Louisa descobre estar grávida de Rio, e este ainda mantém seus planos de vingança para matar Dad Longworth, contudo, antes que isso ocorra, Rio é preso e está prestes a ser enforcado. O bandoleiro faz questão de lembrar ao ex-amigo que, mesmo sendo um homem da Lei respeitável de um vilarejo, ninguém conhece sua verdadeira Face Oculta e revela que esteve preso nos últimos cinco anos por culpa de Dad e que decidira se vingar de sua traição. 

A tortura imposta por Dad fará Rio ainda mais implacável com seu desejo de vingança.

MARLON E PINA – ROMANCE DENTRO
E FORA DAS TELAS

A Face Oculta estava previsto para ser rodado em 60 dias, mas demorou 190 dias para terminar as filmagens. Como sabe-se, Brando despediu Stanley Kubrick e ele mesmo assumiu a direção. Entretanto, no elenco havia uma atriz mexicana de 24 anos chamada Pina Pellicer, que fazia justamente o interesse amoroso de Rio, personagem de Marlon. Contudo, o romance que era apenas para ser no script, foi também levado para fora dos bastidores. Brando começou a namorar Pina, iludindo-a ao mesmo tempo em que reatava um antigo caso com uma atriz chamada Movita Castenada, que seria mais tarde sua segunda esposa (Brando oficialmente casou três vezes).

Brando e Pina Pellicer: Romance dentro e fora das filmagens.
Pina Pellicer e Marlon Brando: A FACE OCULTA (1961).
Katy Jurado, Marlon Brando, Karl Malden, e Pina Pellicer: A FACE OCULTA (1961).
Terminada as filmagens, Brando deixou bem claro para Pina que o namoro entre ambos terminara junto com o filme, o que ela não aceitou com facilidade. O filme entrou então para a fase de edição daquela tonelada de negativos filmados. No duelo final entre Rio (Brando) e Dad (Karl Malden), ambos morriam. Mas a direção da Paramount não aceitou esse final acreditando que ele seria rejeitado pelo público, e a fita poderia fracassar. Assim, em dezembro de 1960, a Paramount reuniu Brando e Pina Pellicer para rodarem outro final, com a cena em que Rio e Louisa aparecem a cavalo. Ele está apenas ferido, e ambos se despedem à beira-mar, jurando amor eterno. A despedida para Pina Pellicer era real, pois Brando já engravidara Movita e seu novo filho com ela estava para nascer. Foi quando ele viajou para o Taiti para conhecer as locações onde seria rodado O Grande Motim. No Taiti, Marlon conheceu uma linda  nativa, chamada Tarita. Jornais e revistas, e em especial as fofoqueiras Louella Parsons e Hedda Hopper, davam bastante destaque para a vida particular do ator, levando a esperançosa Pina ao desespero. Tempos depois,  Pina Pellicer cometeu suicídio com apenas 30 anos de idade, a 4 de dezembro de 1964. E não faltou quem culpasse Marlon Brando pela sua morte.

Pina e Marlon, comemorando juntos o aniversário durante pausa das filmagens de A FACE OCULTA, em 1959. Nascidos na mesma data, 3 de abril, Marlon comemorava seus 35 anos, enquanto Pina completava 25.
Marlon e Pina, em passeio durante uma pausa de filmagem.
Brando e Pina Pellicer, o casal romântico de A FACE OCULTA (1961)
Devido às duras críticas da época de seu lançamento, A Face Oculta foi a única experiência de Marlon Brando como cineasta, e lamenta-se que o ator nunca mais optou em dirigir  outro filme. A Face Oculta foi lançado nos cinemas americanos em março de 1961. Décadas mais tarde, a crítica mudou de opinião, e encontrou evidentes qualidades no western dirigido pelo astro. Foi também o último filme produzido pela Paramount usando a tecnologia  VistaVision. Entretanto, no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, A FACE OCULTA estreou em grande circuito, em abril de 1962, onde teve melhor receptividade por grande parte do público. Segundo Marlon Brando, seu Western pretendia ser um "assalto frontal ao templo dos clichês". 

Marlon Brando dirige e estrela A FACE OCULTA (1961)

Divulgação nos jornais cariocas em 1962.

Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em abril de 1962.



POSTER ORIGINAL


PAÍS – Estados Unidos

ANO - 1961

GÊNERO - Western

DIREÇÃO -  Marlon Brando

PRODUÇÃO - Walter Seltzer, Georges Glass, e Frank P. Rosenberg, para Pennebaker produções em distribuição da Paramount Pictures.

ROTEIRO - Guy Trosper e Calder Willingham, com base na novela The Authentic Death of Hendry Jones, de Charles Neider.

FOTOGRAFIA - Charles Lang, em Cores

MÚSICA - Hugo Friedhofer

METRAGEM - 141 MINUTOS


A FACE OCUTA
MARLON BRANDO é RIO!

KARL MALDEN é DAD LONGWORTH!


MARLON BRANDO – RIO

KARL MALDEN – DAD LONGWORTH

KATY JURADO – MARIA LONGWORTH

PINA PELLICER – LOUISA LONGWORTH

BEN JOHNSON – BOB AMORY

SLIM PICKENS – LON DEDRICK, AUXILIAR DO XERIFE

LARRY DURAN – CHICO MODESTO

SAM GILMAN – HARVEY JOHNSON

TIMOTHY CAREY – HOWARD TETLEY

MIRIAM COLON – RUIVA

ELISHA COOK JR – CARVEY

RODOLFO ACOSTA – CHEFE DOS RURALES

RAY TEAL – BARNEY, O BARMAN

JOHN DIERKES – CHET

PHILIP AHN – TIO

HANK WORDEN – DOC

MARGARITA CORDOVA – DANÇARINA DE FLAMENCO


quarta-feira, 15 de março de 2023

Matar ou Morrer (1952): Clássico Absoluto do Western Com Alusão Ao Macarthismo.

Gary Cooper em MATAR OU MORRER.

Clássico que estabeleceu as bases do chamado Western Psicológico, Matar ou Morrer (High Noon, 1952) dirigido por Fred Zinnemann (1907-1997), e estrelado por Gary Cooper (1901-1961), é tido como uma alegoria política a remeter um período medonho ocorrido nos Estados Unidos no início de 1950, o Macarthismo, um termo que refere-se à prática de acusar alguém de subversivo ou comunista, o que motivou perseguição de grande parte do Congresso Americano contra aqueles que os achassem como uma “ameaça” a democracia . Um western aqui levado à dimensão de tragédia grega, que os americanos, principalmente os aderidos ao Partido Democrata Americano (e filme predileto do ex-Presidente Bill Clinton), consideram de suma importância cultural e política, tanto que uma cópia foi depositada numa capsula do tempo para ser aberta no ano 2213.

O Cineasta Fred Zinnemann

Matar ou Morrer é um filme transparente nos mais diversos sentidos. Tanto seu enredo quanto a condução cinematográfica abstêm-se de analisar acuradamente a conduta humana, ou melhor, ela a expõe de forma mais pungente e realista possível. A simbiose entre a trama e a amostragem comportamental é absoluta, transcorrendo a história em previsíveis e lógicos desdobramentos no contexto das alternativas possíveis.

O Diretor Zinnemann combinando detalhes da produção com os astros Gary Cooper e Grace Kelly.

Matar ou Morrer articula muito bem o óbvio, resultando daí um dos melhores westerns da história do cinema, sem sombra de dúvida. Se o fio central da trama (a chegada dos bandidos) é prenunciado, o mesmo não sucede com a posição dos habitantes da cidade. Se a trama já prevê seu desfecho (o duelo do herói com seus contendores), diversamente ocorre com o resto dos personagens que poderão, por sua atitude, manter tal desfecho, alterá-lo, ou impedi-lo. Enquanto expectativa, essa atuação constitui elemento de surpresa. No transcurso do filme, sobretudo na espera dos bandidos pelo seu líder na estação de trem e na posição dos habitantes em relação à contenda do xerife.

MONTAGEM ESPECIAL

Gary Cooper como o xerife Will Kane. O herói mais humano do western americano. 

Por estas e outras que Matar ou Morrer é uma película que chama atenção da sociedade antes mesmo de se proclamar um western de primeira grandeza, a intranquilidade e o suspense tomam se instauram. O rigor e o despojamento cedem espaço para a indispensável atmosfera musical de Dimitri Tiomkin (1894-1979) nos momentos mais tensos, num faroeste cuja tensão já é por si mesma, contínua.

Will Kane talvez seja o herói mais humano já produzido no western americano. Gregory Peck havia sido a primeira escolha para o papel do honrado xerife, mas recuou porque havia recentemente participado de outro western ao estilo psicológico, O Matador (The Gunfighter, 1950) dirigido por Henry King, e viu similaridades entre Will Kane e o Johnny Ringo que interpretou. Sendo posteriormente a parte oferecida a Gary Cooper, este leu o script e concordou em interpretar. O diretor Zinnemann considerou Cooper como um ator que “faz a diferença entre um filme mediano e um filme muito melhor que o mediano”, Na ocasião em que Matar ou Morrer estava sendo produzido, Zinnemann declarou:

A Consciência de um homem que julga não poder fugir de uma situação adversa. Aconteceu de ambientar-se num western, poderia tomar lugar em qualquer parte onde um homem enfrenta essa decisão. É uma situação intemporal.

O roteirista Carl Foreman

Kane é um herói trágico, bem diferente de outros mocinhos do western, distante de personagens de John Ford e Howard Hawks, onde para eles a essência do medo não existe. Em contrapartida, Kane tem cautelas, mas longe de fugir da luta e enfrenta seus desafios com dignidade. Talvez seja por isso que torna-o um personagem muito mais próximo da humanidade. Zinnemann repartiu com quatro colaboradores o sucesso desta obra prima, como o fotógrafo Floyd Crosby (1899-1985, impecável fotografia em preto & branco), o roteirista Carl Foreman (1914-1984), o montador Elmo Williams (1913-2015), e o compositor Dimitri Tiomkin. Com o fotógrafo Crosby, Zinnemann optou por uma imagem oposta ao usual no gênero:

Eu disse a ele que gostaria que o filme se assemelhasse a um cine-jornal. Não havia filtros e o céu era sempre muito branco. Tentamos fazer o mesmo, e não usamos nada, somente iluminação frontal. E além disso, não procuramos glamourizar Cooper. Nós o mostramos como um homem de meia idade, e ele não objetou.  A comparativa “imperfeição” técnica resultante funcionou de modo sublime, e isto fez com que o público sentisse a coisa mais realisticamente. Na maioria dos westerns, belas formações de nuvens são consideradas obrigatórias, mas queríamos enfatizar a esterilidade da cidade, a inércia de tudo e todos. Para contrastar isto, como os movimentos do xerife, vestimos Cooper todo de preto. Assim, seu vulto solitário se agita pela resplandecente inércia de tudo, parecendo seu destino ainda ser mais pungente


O Xerife Will Kane e sua esposa, a quaker Amy (Grace Kelly)

O dinamismo da obra nasce desses contrastes – branco/preto, inércia/movimento – e se intensifica na vibração da montagem de Williams e na inventiva distribuição musical de Tiomkin, alicerces do crescente suspense. Todos os incidentes então concentrados entre as 10h40m e meio dia de um domingo de 1870, em Hadleyville. Nessa quase hora e meia, o xerife Will Kane (Cooper), então recém-casado com Amy Fowler (Grace Kelly, 1928-1982, em seu segundo filme em Hollywood), uma Quaker, tenta obter o auxílio da população, para enfrentar um famoso pistoleiro, Frank Miller (Ian MacDonald, 1914-1978), que anos antes, Kane havia mandado para cadeia e que agora chegará no próximo trem para se vingar.

Apesar de todos os apelos da esposa Amy (Grace Kelly), Kane recusa-se a ir embora com ela. 

Frank Miller (Ian MacDonald) que juntamente com seu bando quer acertar as contas com o Xerife Kane.

Todos aconselham a Kane a partir para sua lua de mel com Amy e sair da cidade, e a própria esposa apela ao marido para esquecer Frank e seus asseclas. Porém, Kane é um homem consciente do seu dever, e não somente, ele acha que precisa fazer alguma coisa, ou se não, será perseguido pelo resto da vida e não terá paz. Kane dá meia volta com sua carroça e volta para cidade, deixando Amy num posto. Como Quaker, Amy é pacifista e não concorda com a decisão do marido em pegar em armas e enfrentar Miller.  Aos poucos, Kane vai percebendo a solidão, a partir do momento em que os habitantes da cidade para quem serviu como delegado se recusa a ajuda-lo em seu momento crucial. E naqueles tempos sombrios do Macarthismo, a trama já delibera para o lado social e político.

Matar Ou Morrer ainda desponta em seu elenco Lloyd Bridges e Katy Jurado.
Harvey (Lloyd Bridges), antigo ajudante de Kane, é um dos que querem vê-lo fora da cidade. 


Amy e a mexicana Helen Ramirez (Katy Jurado) resolvem sair da cidade, sem interesse no confronto.

A crítica de que o núcleo da trama recaiu de modo exclusivo sobre a ação individual opõe-se a explicação de que seu roteirista, Carl Foreman, parodiou a conjuntura política dos EUA no início dos anos de 1950 quando efervesceu o Macarthismo, explicando sua condição particular ao ter que enfrentar crise semelhante à de Will Kane que, sem apoio, é obrigado a mudar-se de país, o que é normalmente considerado, seja esperta ou ingenuamente segundo o professor Guido Bilharinho em seu ensaio O Filme de Faroeste (Instituto Triangulino de Cultura, 2001) como democracia modelar. Matar ou Morrer funciona como uma verdadeira metáfora sobre o Caça as Bruxas de Hollywood. O script de Foreman é “uma investigação da anatomia do medo; uma destilação de encontro com parceiros, associados e advogados”. A ênfase foi conferida em meio à construção do texto, quando Foreman teve de depor perante a nefasta, louca, neurótica e absurda comissão de investigações do Senador Joseph McCarthy. Depois, Carl Foreman caiu na “lista negra”, só voltando a assinar o próprio nome em 1958.

O CONFRONTO

DIVULGAÇÃO

Na história, a hipocrisia e o medo são imperantes.  Todos querem ver Kane fora da cidade, não porque gostem dele ou querem protege-lo, mas porque ele traria ainda mais o temor à população no duelo com Miller. Na hora fatídica, Kane sabe dos riscos e deixa uma carta de despedida caso morresse no combate. Todos os habitantes se recolhem para suas casas. Quem se ofereceu para ajudar, na última hora foge porque Kane não conseguiu reforços. É o cúmulo, mas o herói parte para o enfrentamento. Consegue liquidar dois dos capangas de Miller, e um deles é morto pela esposa do delegado que estava decidida a sair da cidade, mas volta quando percebe que o homem amado está em eminente perigo.

O momento clímax, além do duelo do homem solitário contra os malfeitores, é também quando tudo já está sob controle, com os habitantes saindo de suas casas, ficando em volta de Kane e da esposa. Numa magnífica interpretação de Cooper, que merecidamente arrebatou seu segundo Oscar de Melhor Ator (o primeiro fora em Sargento York, de Howard Hawks, em 1941), Kane volta-se para aquele pessoal com total desprezo e joga ao chão a sua estrela de xerife, com indiferença e repúdio, e parte com sua carroça indo  embora com a amada e fiel Amy, sem olhar para trás... como em tantos desafios na vida!


O Mestre Dimitri Tiomkin assinou a partitura musical.

Um verdadeiro clássico, do gênero Western Classe A, que é ao mesmo tempo um dos retratos mais pungentes que o cinema já produziu sobre a condição humana, onde exprime o comportamento de toda uma sociedade paralisada pelo medo, arrebatando três prêmios da Academia – de montagem (Elmo Williams), ator (Gary Cooper, merecido!) e música e canção (Dimitri Tiomkin), cuja trilha frisa com impacto todos os acontecimentos da trama, a destacar a balada Do Not Forsake oh My Darling, interpretada por Tex Ritter (1905-1974) entoando versos de Ned Washington (1901-1976). Um clássico absolutamente inesgotável para os amantes da Sétima Arte.


Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em grande triunfo.

FICHA TÉCNICA

MATAR OU 

MORRER

(HIGH NOON)

Ano de Produção – 1952

País – Estados Unidos

Gênero - Western

Direção – Fred Zinnemann

Produção – Stanley Kramer, para United Artists, em distribuição.

Trilha Sonora – Dimitri Tiomkin, com vocal de Tex Ritter.

Roteiro – Carl Foreman

Fotografia – Floyd Crosby, em Preto & Branco

Montagem – Elmo Williams

Metragem – 85 minutos

ELENCO

Gary Cooper – Xerife Will Kane

Grace Kelly – Amy Fowler Kane

Thomas Mitchell – Prefeito Jonas Henderson

Lloyd Bridges – Harvey Pell, ajudante do Xerife

Kate Jurado – Helen Ramirez

Otto Kruger – Juiz Percy Mettrick

Lon Chaney Jr – Martin Howe

Harry Morgan – Sam Fuller

Ian MacDonald – Frank Miller

Eve McVeagh – Mildred Fuller

Morgan Farley – Dr. Mahin – Ministro Protestante

Harry Shannon – Cooper

Lee Van Cleef – Jack Colby

Robert J. Wilke – Jim Pierce

Sheb Wooley – Ben Miller

Lee Aaker – menino que esbarra em Kane

  Larry J. Blake – Gillis, o barman.     

Uma matéria escrita por Paulo Telles para o site Cinema Com Poesia.



                 

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