sábado, 15 de julho de 2023

Da Terra Nascem Os Homens (1958): O Primeiro Grande Western em Superprodução, Com Rara Temática Pacifista para o Gênero.


Raramente na década de 1950, época em que os filmes Western eram produzidos em alta escala, que Hollywood divulgava o gênero em tons pacifistas, muito embora alguns cineastas mais avançados como Anthony Mann (que dirigiu 5 grandes clássicos com James Stewart) lançavam uma releitura ao estilo cinematográfico genuinamente americano. Entretanto, um destes grandes clássicos foi dirigido por outro grande diretor muito famoso, portador de genuínos clássicos do cinema por excelência, cujo nome é sinônimo de competência:  William Wyler (1902-1981).

O Cineasta William Wyler
Wyler certamente foi um dos maiores cineastas do século XX, mas  nunca se considerou um autor de filmes e nunca foi esta a sua pretensão, e por isso era ignorado pela turma francesa do Cahiers du Cinéma, legião esta que, justamente, inventou o conceito do “cineasta ser o artesão da obra”. Trabalhava por encomenda sim, muitas vezes para produtores independentes (como Samuel Goldwyn). Não é possível se detectar um estilo de narrativa, um tipo de fotografia, ou sequer um ângulo favorito, em que não haja a participação de Wyler. A única identidade comum entre seus filmes era a excelência, nas palavras do saudoso crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Em verdade, nunca fez um filme ruim, muito embora haja películas umas melhores do que as outras, mas certamente, grandes obras cinematograficamente culturais tem seu legado. 

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958) em exibição nos Estados Unidos.

DA TERRA NASCEM OS HOMENS (The Big Country, 1958) foi o primeiro Western a ser, de fato, uma superprodução, pois em 1958, a televisão invadia os lares americanos (no Brasil, não foi diferente!), lançando muitas séries de faroestes, como As Aventuras de Rin Tin Tin, The Lone Ranger (Zorro & Tonto), Paladino do Oeste, Bat Masterson, Gunsmoke, o Homem do Rifle, entre outras - e no entanto, seria imperioso um investimento alto para não perder a concorrência com a telinha.  Para isto, nada como reunir um cineasta premiado e de renome internacional, atores consagrados, um compositor que pudesse prender o espectador com a trilha sonora (o magistral Jerome Moross), e um fotógrafo que pudesse dar todo o panorama que nenhum televisor poderia enquadrar (Franz Planer).
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Divulgação

O resultado deste esforço épico foi uma obra de 165 minutos de duração que custou cinco milhões de dólares, causando grande impacto e levando o público aos cinemas e, definitivamente, marcou aqueles que o assistiram por suas cenas de inigualável e impressionante beleza visual. Baseada no conto Ambush at Blanco Canyon de Donald Hamilton (o mesmo autor de  Pecado em Cada Alma e os livros do espião Matt Helm) e adaptada por Jessamyn West (1902-1984, autora Sublime Tentação, obra de Wyler realizada em 1956, com Gary Cooper).

Gregory Peck como Jim McKay, o mocinho de DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
Mas DA TERRA NASCEM OS HOMENS pretende, de fato, fazer jus ao seu título original. Se a pretensão do cineasta foi realmente fazer um filme estrondoso, valeu o espetáculo, pois levou uma história ao seu final sem provocar irritação irreparável no espectador. Para alguns críticos mais arredios, o fator negativo do filme reside justamente na sua mania de grandeza. Isto porque a temática da trama é marcada pela conduta do personagem de Gregory Peck (1916-2003), interessante e válida. Peck como Jim McKay é o herói que recusa-se agir de acordo com os métodos rudes e ásperos do Velho Oeste, que prova que a razão é mais superior que a violência. Tudo isso esta provado no argumento do personagem principal, às vezes um pouco confuso e cansativo na coordenação dos incidentes da história. Mas mesmo assim, vale o ingresso. 

Jean Simmons como a Professora Julie Maragon
O início e o final da fita seguem a fórmula clássica do gênero, com bastante ação a despertar o interesse do público. Mas o miolo da história se arrasta, assim como que impregnado pela vastidão enfadonha da planície arenosa, onde a escassez de água era o motivo de uma sangrenta e invencível divergência entre dois velhos fazendeiros, vivido respectivamente pelos magistrais Charles Bickford e Burl Ives.

Burl Ives como Rufus Hannessey, e seu inimigo caído ao chão, Major Terrill, vivido por Charles Bickford.
É certo que THE BIG COUNTRY possui, isoladamente, grandes momentos de criação cinematográfica motivadas pela mente de William Wyler. O espectador mais atento poderá observar, por exemplo, que o sentido de vastidão do campo domina toda obra, graças a esplendida fotografia de Franz Planer.

Steve Leach, vivido por Charlton Heston, capataz do rancho do Major Terrill, pai de Patricia (Carroll Baker).
Considerado o primeiro western de efeito esplendoroso nas proporções da tela do Techinirama – a começar pelos títulos de abertura de Saul Bass (1920-1996), ritmados com a música vibrante de Jerome Moross. Obviamente, em uma tela de televisão o efeito causa menos impacto, mas o filme impõe-se pelo seu cineasta, pelo elenco e pela temática pacifista, algo incomum no gênero. 

Divulgação



O Major Henry Terrill anunciado o noivado de Jim e Patricia...

...enciumando Steve Leach, que gosta da filha de seu patrão.
O pacífico Jim McKay em luta com Steve Leach.
James “Jim” McKay (Gregory Peck), um cavaleiro do leste e ex marinheiro, vai ao Texas visitar a noiva Patricia Terrill (Caroll Baker) e encontra uma região abalada pelo conflito de terras: dois barões do gado, o pai de Patricia, o Major Henry (Charles Bickford, 1889-1967), e Rufus Hannessey (Burl Ives, 1909-1995) disputam um rancho pertencente a Julie Maragon (Jean Simmons, 1929-2010) e que possuí a única fonte de água no território. 

Buck Hannessey (Chuck Connors) se interessa por Julie (Jean Simmons) e em uma noite ele tenta violenta-la...
...mas McKay intervém e agride Buck.

Buck (Chuck Connors) é alvejado pelo próprio pai (Burl Ives).
McKay põe-se ao lado de Julie, e como que não quer nada, vai aos poucos impondo sua política pacifista num ambiente hostil onde impera a lei da força bruta. O cavaleiro do Leste terá que provar seu valor ao tentar montar uma cavalo selvagem, chamar para briga no meio da noite o capataz do rancho dos Terrill, Steve Leech (Charlton Heston, 1923-2018) após recusar lutar com ele na frente de Patricia, e  para defender Julie lutar com Buck Hannessey (Chuck Connors, 1921-1992), filho de Rufus. 


Gregory Peck e Carroll Baker recebendo instruções do diretor William Wyler.
William Wyler e Gregory Peck eram grandes amigos, inclusive é o próprio astro de “A Princesa e o Plebeu” (outra fita de Wyler) que co-produziu este fascinante superespectáculo Western. Porém, durante as filmagens, Peck e Wyler se desentenderam feio. Tudo porque Wyler, um perfeccionista ao extremo, fazia questão de repetir muitas cenas as quais Gregory Peck, como co-produtor, reprovava e achava que estavam perfeitas. O cineasta disse a jornalistas – e fazia questão de dizer que falava abertamente para os jornais publicar – que não voltaria a dirigir o ator nem por um milhão de dólares. Com efeito, ambos jamais voltariam a se falar, até Wyler falecer em 1981.

Jean Simmons

CAST de DA TERRA NASCEM OS HOMENS. Notem que Jean Simmons não esta nada sorridente!
Jean Simmons acabou por aceitar o papel de Julie Maragon, mesmo não tendo simpatias por William Wyler. Tudo porque Simmons foi a primeira escolha do diretor para ser a protagonista em A Princesa e o Plebeu , mas Wyler voltou atrás e preferiu Audrey Hepburn. Simmons considerou a atitude de Wyler deselegante, mesmo não havendo ainda um contrato firmado. Contudo, por razões profissionais, Jean acabou pegando a parte de Julie, mas nunca reatou amizade com o diretor. A relação era estritamente profissional e ao longo de sua vida sempre se recusou a falar do cineasta.

Jerome Moross, compositor da trilha sonora de
DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958)
O fotógrafo Franz Planer e Gregory Peck
Da Terra Nascem os Homens é um western espetacular, valorizado por marcante comentário musical de Jerome Moross (1913-1983), uma das mais belas trilhas do gênero que segura todo o espetáculo. Valorizado também pela bela fotografia do austro-húngaro Franz Planer (1894-1963), o mesmo que fotografou Bonequinha de Luxo, A Princesa e o Plebeu, e Rei dos Reis.

Charlton Heston
Charlton Heston já era consagrado após o clássico Os Dez Mandamentos (1956), dirigido por Cecil B De Mille, porém teve que submeter-se a um “teste” com Wyler. DeMille sempre gostou de Heston e sugeriu a Wyler que desse ao astro de O Maior Espetáculo da Terra um dos papéis centrais. Até então, Heston havia feito sempre papéis de heróis, inclusive em westerns, e sem contar que o ator ainda estava estigmatizado pela crítica como canastrão comparado a Victor Mature, no início da carreira.

Charlton Heston em AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL em 1953.

Wyler deu a Heston o papel do antipático e rude Steve Leach, personagem comparado a um vilão. De início, o ator queria recusar o papel do capataz por achar que era pequeno, mas seu agente convenceu-o de que valeria a pena pela oportunidade de trabalhar ao lado de Gregory Peck, e sob a direção de William Wyler. Felizmente, Heston aceitou o conselho de seu agente, e para sua felicidade (e a do público e de seus fãs!), Wyler gostou tanto de seu desempenho que o pôs no ano seguinte para seu próximo filme, talvez um dos mais importantes do cineasta, Ben-Hur, com Charlton Heston como astro principal, outorgando grande responsabilidade na superprodução, que rendeu 11 premiações na Academia, incluindo um como Melhor Ator para Heston. 

O diretor William Wyler e a atriz Carroll Baker.
Carroll Baker chegou a ter também uma carreira longa, e anos depois, confessou que se tornou amante de produtor para subir em Hollywood, mas depois se arrependeu e foi estudar no Actor´s Studio onde encantou Elia Kazan que a usou como Baby Doll (1955), filme polêmico. Teve muitas chances no cinema, foi dirigida por John Ford (Crepúsculo de Uma Raça, 1962) e mesmo pelo nosso Hector Babenco (1946-2016) em Ironweed, em 1987, Muito estranho e inexplicável o sumiço de Baker no roteiro de Da Terra Nascem os Homens perto ao fim da história, pois sua personagem fica ausente da luta final.

O ator mexicano Alfonso Bedoya, em seu
último trabalho no cinema.
Destaque também para o ator mexicano  Alfonso Bedoya (1904-1957), falecido aos 53 anos por problemas relacionados ao álcool, que sequer chegou a ver o filme lançado. Bendoya foi o melhor de todos os atores mexicanos fazendo tipos característicos no cinema norte-americano, o primeiro deles em O Tesouro de Sierra Madre (1949, de John Huston), onde roubou muitas cenas até mesmo do astro principal, Humphrey Bogart. Em Da Terra Nascem os Homens, ele faz o papel do empregado dos Tirrell, Ramón Guiteras, que acaba tornando-se uma espécie de “Sancho Pança” para o personagem de Gregory Peck.  Ramón abandona os Tirrell para servir a Mckay e avisa-lhe dos perigos que corre. Na última cena, ele parte com o herói e Julie, dando a entender que seguirá seu destino com os dois. Nota-se um dublê de costas no lugar de Bendoya, que morreu antes do término das filmagens.

Burl Ives ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em DA TERRA NASCEM OS HOMENS (1958).
Burl Ives era um ator de múltiplos talentos, pois também era radialista, cantor, escritor e músico. Começou a vida como esportista, sendo jogador de futebol americano, mas foi inserido no mundo da música, tornando-se um cantor de Folk e baladas, gravando mais de 30 álbuns para Decca e 12 para a gravadora Colúmbia. Sua carreira de ator começou na Broadway, onde é mais lembrado pelo público americano no papel de Big Daddy na versão de Gata em Teto de Zinco Quente, em 1938, papel que repetiria na versão cinematográfica de 1959 com Elizabeth Taylor e Paul Newman - mas somente em 1946 foi introduzido em Hollywood com Furacão Negro (Smoky) com Fred MacMurray e Anne Baxter.

O cantor Burl Ives

Burl Ives também era cantor e gravou inúmeros Long Plays.
Ives ficou notável como o rústico patriarca Buck Hannassey, o que valeu-lhe o Oscar como Melhor Ator Coadjuvante. Nesta época, ele já encontrava-se semi-aposentado do  show business, mas com o Oscar conquistado, muitas outras oportunidades se abriram para este gigante em todos os sentidos, seja na estatura física e no talento. Quando em 1989, aos 80 anos de idade, anunciou definitivamente sua aposentadoria, veio a estabelecer-se em Anacortes, Washington, com sua família, muito embora fizesse até quase ao fim da vida shows beneficentes. Um ano antes de seu falecimento, foi introduzido no Hall da Fama DeMolay, pois era um Grão Mestre da Maçonaria, grau 33 (o máximo), e toda sua família era vinda de maçons. Assim ele dizia:

Tive a sorte de nascer em uma família de maçons. Na verdade, minha irmã mais velha, Audrey, era matrona Grande da Ordem da Estrela do Oriente, em Illinois. Minha experiência DeMolay veio muito naturalmente por causa do meu pai e irmãos. Assim foi a minha juventude reforçada.

Burl Ives morreu em 14 de abril de 1995 aos 85 anos.


Divulgação do filme nos jornais cariocas, em exibição pelas salas do Rio de Janeiro.


FICHA 
TÉCNICA
Gregory Peck e Jean Simmons


País – Estados Unidos

Ano – 1958

Gênero - WESTERN

Direção – William Wyler

Produção – William Wyler, Robert Wyler e Gregory Peck, em produção e distribuição pela United Artists

Roteiro - James R. Webb, Sy Bartlett, Robert Wilder, com adaptação de Jessamyn West e Robert Wyler, com base na história de Donald Hamilton.

Fotografia – Franz Planer, em Cores.

Música – Jerome Moross

Metragem – 165 minutos.


Chuck Connors, Burl Ives e Gregory Peck


Gregory Peck – James McKay

Jean Simmons - Julie Maragon

Carroll Baker - Patricia Terrill

Charlton Heston - Steve Leach

Burl Ives - Rufus Hannassey

Charles Bickford - Major Henry Terrill

Alfonso Bedoya - Ramón Guiteras

Chuck Connors - Buck Hannassey

Chuck Hayward - Rafe Hannassey

Buff Brady - Dude Hannassey

Dorothy Adams- Mulher da família Hannassey

Chuck Roberson - Vaqueiro dos Terrill

Bob Morgan   -  Vaqueiro dos Terrill

John McKee - Vaqueiro dos Terrill

Slim Talbot - Vaqueiro dos Terrill

Jim Burk   - Blackie / Cracker Hannassey

Carey Paul Peck - Garoto de 11 anos

Jonathan Peck - Garoto de 14 anos

Ralph Sanford - Convidado na festa





sábado, 8 de julho de 2023

Charada (1963): Uma Trama à Hitchcock dirigida por Stanley Donen.


Charada (Charade) foi dirigido por Stanley Donen (1924-2019) em 1963, que também produziu esta que é considerada uma das aventuras de espionagem mais bem elaboradas de todos os tempos, bem ao estilo de Alfred Hitchcock. Segundo Donen, Charada é uma comédia de suspense, concebida um pouco de Indiscreta (uma das grandes obras de Hitch), porém bem mais visual e trabalhada no plano da estrita mise-em-scène.

O Cineasta e Produtor Stanley Donen
Uma narrativa Hitchconiana com Cary Grant (1904-1986) repetindo seu tipo de papel em Suspeita (1941) e Ladrão de Casaca (1955), ambas obras primas da magnificência do Mestre do Suspense, e ainda evocando Vincente Minnelli na sofisticação da comédia no bom gosto sempre em cena, onde adorna o engenhoso mecanismo que empurra a ação, de forma desinibida, para o thriller ou para um humor com suspense e exuberância cromática.

O Diretor Stanley Donen entre Audrey Hepburn e Cary Grant
Stanley Donen (falecido em 2019) foi uma autoridade dos grandes musicais (Cantando na Chuva, Sete Noivas Para Sete Irmãos), e explora com muita vontade tudo que o script (de Peter Stone, 1930-2003) lhe proporciona. E como tudo de Donen sempre caiu na mais livre imaginação, a fita vai escalando os recursos necessários ao tom do divertimento, inclusive a vantagem de não poupar qualquer malabarismo ou respeito por fatos verídicos.

Cary Grant e Audrey Hepburn, o casal de CHARADA (1963)
Cary Grant e Audrey Hepburn, em frente ao Rio Sena: CHARADA (1963)

A inopinada, fascinante, e feérica desta narrativa de “comédia negra” que não precisaria ir tão longe para usar adequadamente uma fórmula, aprovado dentre os que Hitchcock (talvez o cineasta mais plagiado do mundo) proporcionou aqueles que usaram de seu estilo. Provavelmente, Charada seja o decalque hitchconiano mais assumido, até que Brian de Palma veio praticamente refazer Um Corpo que Cai em Trágica Obsessão, em 1976. Destarte, Donen sorve basicamente o Hitch de Ladrão de Casaca (1955) e Intriga Internacional (1959), cujas relações com Charada se estreitam na presença do mesmo astro principal, Cary Grant, de classe e garbo sofisticado para revestir onde atuou de verniz estilístico, quase inalterável (segundo postura do cronista Paulo Perdigão, já falecido, em crítica sobre Charada ao jornal O Globo, em 25 de agosto de 1985). Quando começa, aliás, com os créditos de Maurice Binder (1925-1991) imitando os de Um Corpo que Cai, Charada já está na trilha certa. Instantaneamente inconfundível. Charada é um redemoinho de truques, trapaças, armadilhas, e reviravoltas. A trama coloca a eterna Bonequinha de Luxo, Audrey Hepburn (1929-1993) no centro de aterradora conspiração de silêncio e ameaças letais.

Audrey Hepburn é Regina Lampert, uma estilista de férias nos Alpes Franceses.
Que de repente, se vê numa intriga de morte e mistério!
Audrey é Regina Lampert, uma estilista de moda que volta de uma temporada de esqui nos Alpes Franceses. Lá, ela conhece o empresário Peter Joshua (vivido por Grant). Ao voltar para Paris, Regina encontra o marido assassinado. Sozinha, passiva e amedrontada, Regina descobre que o marido, durante a II Guerra, havia roubado 250 mil dólares em ouro da Resistência Francesa, e que uma quadrilha está disposta a recuperar o tesouro, usando de todos os meios para faze-la contar o que ela sabe. A esta altura, Regina e a plateia desconfiam de tudo e de todos, inclusive do próprio Peter (com quem tem um envolvimento romântico), ou do Agente da CIA Hamilton Bartholomew (Walter Matthau, 1920-2000), que é incumbido de resolver o caso.

Cary Grant é Peter Joshua, que se torna uma espécie de guardião da viúva Regina, vivida por Audrey. De pé, James Coburn.
O mais inusitado acontece na cena do velório da vítima. Um dos membros da quadrilha que estava presente ao evento chega a espetar um alfinete no cadáver para certificar se está realmente morto. Outra cena marcante é quando uma pistola apavorante é apontada de perto para Regina, mas quando é disparada, nada mais expele do que um jato de água. Há muito movimento e correrias neste espetáculo pelas ruas de Paris, e até uma espécie de brincadeira de “esconde-esconde” pelo metrô.  A verdadeira heroína de toda a história, Regina, vivida com toda maestria e carisma por Audrey Hepburn, escapa por um triz de ser baleada por um pistoleiro sob a arcada da ópera, sem contar três impressionantes assassinatos que tem ao longo da película. São essas mortes o único desvio que o filme vem a sofrer em relação a linha de franco bom humor. 

Peter Joshua enfrenta um dos temíveis bandidos do filme, vivido pelo grandalhão George Kennedy.
Seria necessário tanto sadismo por parte de Donen e de seu roteirista? Quem pode saber, afinal tudo não passa de uma Charada! Apesar disso, a trama traz interlúdios alegres. Charada é um filme pândego, com mistura de riso e pavor, muito peculiar aos trabalhos de Alfred Hitchcock. Cary Grant trava eletrizante luta com o grandalhão George Kennedy, um homem que tem uma garra de aço no lugar de uma das mãos. Grant como Peter Joshua, deixa a luta como vencedor, mas com aparência de quem se tivesse visto frente a frente, nas escorregadias telhas, com um crocodilo feroz.  Entretanto, se mostra valente a ponto de defender Regina do trio violento de assaltantes, vividos por Kennedy, James Coburn, e Ned Glass. Mas a questão é: será que Joshua não pretende dar um bote sujo na pobre Regina? Afinal ela é herdeira do viúvo e Joshua pode pretender pôr as mãos na grana. Será? Quem pode prever? Seria hilário em vermos Grant como “gatuno” em um de seus últimos filmes. 

Joshua se encontra com os três temíveis vilões, vividos respectivamente por James Coburn, George Kennedy, e Ned Glass.
Charada foi totalmente rodado em Paris, exteriores e interiores, e até no mercado de Les Halles, hoje inexistente. Mas Donen confessa uma falha: neste passeio de Bateau Mouche, eles iluminaram apenas um dos lados do rio Sena, assim a projeção de fundo das cenas é sempre a da margem direita, nas cenas em que aparecem Cary e Audrey. É aqui que se ouve a famosa música tema de Henry Mancini (1924-1994), que só teve letra de Johnny Mercer (1909-1976) porque era obrigatório para poder concorrer ao Oscar, o que acabou acontecendo. 

A Luta de vida e morte entre Cary Grant e George Kennedy em CHARADA (1963).
Após a luta, Joshua é cuidado por Regina de seus ferimentos.

Donen confessa que usou um truque, numa cena logo no início do filme: a mão que segura a pistola é de um homem para não revelar a piada. As cenas iniciais foram rodadas num hotel ainda inacabado em Mégeves, Alpes Franceses. Audrey Hepburn, como sempre, vestia modelos de seu figurinista favorito Givenchy e como era seu hábito tinha três cópias de cada vestido. Aliás, figurinos bem realçados pela fotografia de Charles Lang (1902-1998). Cary Grant, embora não aparentasse, completou sessenta anos durante as filmagens e não queria mais ser galã. Foi por isso que a princípio recusou o papel. Não demoraria muito, Grant se aposentadoria das telas de cinema.

Waltter Matthau é o Agente da CIA Hamilton Bartolomew
Audrey e o ator francês Jacques Marin, como um inspetor rumo as investigações.
Vale a pena destacar os atores que fazem os vilões de Charada. Muitos destes eram oriundos da televisão e ainda não eram famosos no cinema, como James Coburn (1928-2002), e George Kennedy (1925-2016) que seria ator ganhador agraciado com o prêmio da Academia, alto e forte como um touro, além de Ned Glass (1906-1984), que havia sido carpinteiro depois de ter seu nome manchado na Lista Negra do McCarthismo. Na trilha musical, Henry Mancini franqueia sofisticação extra a um entretenimento impecável, que nem mesmo Stanley Donen logrou igualar, quando fez dois anos depois Arabesque, segundo sua idêntica concepção. 

CHARADA foi título de inauguração do novo CINE-ODEON, localizado na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, a 17 de dezembro de 1964. 
Divulgação

FICHA 
TÉCNICA
CHARADA
(Charade)
Ano de Produção – 1963
Gênero: Suspense
Direção: Stanley Donen
Produção: Stanley Donen e James H. Ware, para Universal
Fotografia: Charles Lang, em cores.
Música: Henry Mancini.
Roteiro: Peter Stone, com base em seu argumento.
Metragem: 113 minutos.

Cary Grant e Audrey Hepburn

ELENCO
Cary Grant – Peter Joshua
Audrey Hepburn – Regina Lampert
Walter Matthau - Hamilton Bartholomew
James Coburn – Tex Panthollow
George Kennedy – Herman Scobie
Dominique Minot - Sylvie Gaudet
Ned Glass - Leopold W. Gideon
Jacques Marin – Inspetor Edouard Grandpierre
        Paul Bonifas – Mr. Felix
        Thomas Chelimsky - Jean-Louis Gaudet


Um Convidado Bem Trapalhão (1968): Blake Edwards faz Peter Sellers promover uma festa de arromba!

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO ( The Party ) , produzido em 1968, é considerada a comédia mais hilariante do eterno Peter Sellers (1925-19...