sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O Maior Espetáculo da Terra (1952): O Fascinante Mundo do Circo por Cecil B. DeMille.



O nome de Cecil B. DeMille (1881-1959) ficou para sempre associado às superproduções da Sétima Arte, sendo sinônimo de suntuosidade quando se trata de grandes espetáculos. Entretanto, até 1952, quando dirigiu e produziu O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show On Earth), foi o filme que mais rendeu-lhe honras, tanto por parte da crítica quanto da opinião pública. De forma grandiosa e impressionante, foi até aquele momento o maior êxito comercial do veterano cineasta em toda sua longa carreira, arrecadando só no mercado norte-americano 14 milhões de dólares, conquistando o Oscar de melhor filme e argumento de 1952, e ainda o Prêmio Irving Thalberg para DeMille. 

O Lendário Diretor Cecil B. DeMille 
O diretor iniciando o preparo das filmagens
Foi o penúltimo título da filmografia deste grande diretor, iniciada na fase ainda silenciosa do cinema, em 1913, e terminada em 1956, quando dirigiu outro grande espetáculo, Os Dez Mandamentos. Mas para poder realizar a proeza de dirigir tamanha obra a altura do seu título original, a Paramount pagou aos empresários John Ringling North (1903-1985) e Henry Ringling North (1909-1993), os donos do famoso Ringling Brothers & Barnum & Bailey, considerado então o mais famoso circo do mundo, a quantia de 250 mil dólares pelo uso da marca e pela cessão de artistas.

DeMille em seu escritório, entre projetos e
roteiros.

DeMille e alguns artistas do Ringling Brothers
e Barnum & Bailey.
Cecil e sua estrela Betty Hutton.
O filme pode ser espalhafatoso, como a maioria dos épicos de DeMille, mas aqui tudo funciona. Mas o que é o circo a não ser uma combinação de luzes, fantasias, e cores? Naturalmente, alguns críticos não foram tão clementes para com o cineasta. Segundo a revista Time Magazine, DeMille reforça sua reivindicação para outra distinção: "A Grande amostra da Terra provavelmente será vender mais pipocas do que qualquer filme feito". Outros críticos acharam que o filme era banal e com uma estúpida história de amor. O New York Times respondeu a favor do veterano diretor: "A história romântica é reflexo do romance diário da realidade do circo".

Charlton Heston e Cecil B. DeMille.
Brad (Heston), Holly (Betty Hutton) e Sebastian (Cornel Wilde):
Um provável triangulo amoroso.

Charlton Heston e um dos empresários do Ringling Brothers, John Ringling North.
O filme poderia se sair melhor sem o apelo romântico do diretor para com os personagens de Charlton Heston e Betty Hutton, e o tendencioso triângulo amoroso entre os dois com Cornel Wilde, e isto sendo opinião de outros críticos, que acham que o circo não passa de uma meretriz um tanto conveniente para os personagens. DeMille não concordou com essa visão, mas tinha razão numa coisa: transformar sua fita numa novela de dimensões teatrais era tarefa para atrair o público para os cinemas, e foi isso que aconteceu, quando O Maior Espetáculo da Terra bateu recorde nas bilheterias.

Ramon Gomez de La Serna, o "primeiro" Crítico de Circo.
James Stewart como o carismático palhaço Buttons

Com toda a certeza, quem poderia nos falar da poesia do circo (sim, o circo não é só um espetáculo de entretenimento, mas como o cinema, também é uma arte) seria Ramon Gomez de La Serna (1888-1963), famoso escritor espanhol, inventor das famosas greguerias, uma espécie de varieté do humor, e que foi também o “primeiro” cronista de circo (e de certo, o único). Quando assistimos a O Maior Espetáculo da Terra, se reflete que só mesmo o espanhol La Serna poderia fazer uma crônica do jeito que o filme mereceria, afinal, toda a atmosfera do circo impregna inteiramente na fita, nos transbordando para o mundo maravilhoso e fascinante do circo, nos impedindo ao mesmo tempo de falar sobre ele com nossa prosa cotidiana, e muitas vezes, banal. 

Brad Braden (Charton Heston) e palhaço Buttons (James Stewart).
Além do Oscar conquistado por melhor filme de 1952, Cecil B. DeMille recebe das mãos do ator Henry Wilcoxon (que com o diretor também produziu o filme) o prêmio Irving Thalberg.
Uma obra prima de proporções à altura de seu diretor, vista por todos os ângulos em que se queira apreciar este celuloide de sucesso, vindo de um cineasta experiente, o Mestre do Espetacular.  Com O Maior Espetáculo da Terra, o bom e velho DeMille chegou ao apogeu de sua carreira e de sua arte. Pode ser verdade que o venerando diretor tenha sempre preferido o cinema mais como diversão do que propriamente como arte, ou melhor dizendo, que tenha condicionado sempre ao longo de sua prolífica carreira a arte cinematográfica ao primado do divertimento.  

Jimmy Stewart (o palhaço Buttons) e o palhaço mais aplaudido da América, Emmett Kelly.
Na Plateia, Bob Hope e Bing Crosby.
Dorothy Lamour e Gloria Grahame,
"artistas" do Ringling Brothers.
Cecil pode ter cometido erros (e quem não os comete?), ter se enganado duas, dez vezes, através de sua copiosa obra de cinema. Contudo, tudo isto é perdoado e deixado de lado quando um diretor de idade provecta, que poderia estar aposentado (e que levaria sua função as ultimas consequências, quando em 1956, ao dirigir Os Dez Mandamentos, com 77 anos, DeMille sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens no Monte Sinai, mas se recuperou e voltou à ativa) consegue realizar uma película como O Maior Espetáculo da Terra, onde a técnica, a arte, e os valores humanos se combinam na mais perfeita química. 

A atriz Helen Hayes visitou o set durante as filmagens.
Betty Hutton e Gloria Grahame, que disputam o afeto do patrão Brad.
Gloria Grahame é Angel, uma domadora de elefantes.
Isso sem perder de vista o espetacular, nem o sentido de evasão do cotidiano que o cineasta imprime em todos os seus filmes, certo de que a multidão ingresse nas salas de cinema para fugir a realidade do ambiente, sem esquecer o toque poético no lirismo que transborda no próprio assunto: o circo – esta, por si, uma poesia do encanto e do mistério, e acima de todos os valores, nota-se a atmosfera, através de seus artistas humanos e sublimemente poéticos. A partir daí, o diretor nos transporta ao ambiente e passamos a viver em pleno circo.  É através desse clima que todo espectador ao assistir a este penúltimo trabalho de Cecil B. DeMille se torna também participante da obra, tal como os espectadores dos atos a que vamos assistindo ao longo da trama (que tem 152 minutos de projeção) e que é a ante face do outro espetáculo, aquele que não se desenrola no picadeiro, mas na existência dos artistas do circo, dos palhaços, dos trapezistas, da moça do elefante, do domador de leões, enfim. 

Divulgação

A atlética Betty Hutton treinou muito no trapézio para viver Holly
Se DeMille conseguiu o máximo da manipulação de seus efeitos, um dinamismo plástico extraordinário, que segue num ritmo ágil e vibrante, e que por toda a fita, em perfeita harmonia, conduz como ninguém suas grandes manobras com multidões (sim, DeMille era craque em dirigir cenas de multidão), por outro lado seu sentimento épico, tanto linear e profundo tirou de seu elenco all-star um rendimento efetivo dos mais convincentes.

Brad Braden (Charlton Heston) e sua namorada, a trapezista Holly (Betty Hutton)
Holly implora ao namorado e patrão Brad para ser a estrela do picadeiro central. Mas para segurança e investimento do espetáculo, Brad contrata o "Grande Sebastian" (Cornel Wilde).
A domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame) tem uma queda pelo patrão Brad (Charlton Heston).
A trama se concentra num dos maiores circos do mundo, o Ringling Brothers –Barnum & Bailey. Seu gerente é o jovem Brad Braden (Charlton Heston, 1923-2008), que anda cheio de problemas. O negócio anda fraco, e para piorar, um empresário inescrupuloso e meio gangster, Mr. Henderson (Lawrence Tierney, 1919-2002) quer comprar o circo abaixo do preço. A namorada de Brad, a trapezista Holly (Betty Hutton, 1921-2007), entende que a preocupação dele é fazer o espetáculo continuar e se consagrar exclusivamente para o trabalho. Entretanto, quando Brad resolve contratar outro trapezista, o astro francês “O Grande Sebastian” (Cornel Wilde, 1915-1989) para substituir Holly no picadeiro central, esta não aceita. 

O ousado e arrogante trapezista Sebastian...
Que sofre uma queda quase fatal, que o deixa com o braço paralisado, acudido por Brad e Buttons.
Angel e o domador Klaus, que tem pela artista uma paixão não correspondida.
Arrogante e ousado, Sebastian acaba sofrendo uma dramática queda, e Holly fica a balançar o coração por ele e Brad. Toda essa atuação é explorada pela domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame, 1924-1981, em papel destinado para Lucille Ball, que desistiu porque engravidou), que também cobiça Brad. Isso vem a provocar ciúmes no treinador Klaus (Lyle Bettger, 1915-2003).  Este acaba sendo demitido por Brad. Outra trama paralela envolve o palhaço Buttons (James Stewart, 1908-1997), na realidade, um médico que nunca tira sua maquiagem, pois é procurado por um agente do FBI (Henry Wilcoxon, 1905-1984) pelo crime de eutanásia (matou a própria mulher que sofria de uma doença incurável).  

Holly se sente atraída por Sebastian, mesmo amando Brad.
O terrível desastre de trem onde viajavam todos os artistas do circo.

Entre os feridos, Brad encontra-se em estado mais grave, e precisará de uma transfusão de sangue.
Ambas as tramas paralelas tem um fim em comum: um espetacular desastre do trem que conduz o circo, desastre este provocado pelo ex-adestrador de elefantes Klaus, que tem morte trágica. Este acidente vem a provocar a descoberta da verdadeira identidade do palhaço Buttons, quando percebe-se que ele é o único médico para atender os feridos, entre os quais encontra-se  Brad. 

Sabendo do passado de Buttons, um outrora médico que matou a esposa por eutanásia e que esta sendo procurado pelo FBI, Holly
implora ao amigo que salve a vida de Brad.
Na metade da década de 1960, James Stewart voltou a se maquiar como Buttons, em um evento beneficente. Notem atrás do ator o poster do filme A História de Dr. Wassell, filme dirigido por Cecil B.DeMille e com Gary Cooper.

Esta obra de Cecil B.DeMille apresentou um dos grandes desastres de trem em toda a história das telas, somente equiparado à outra superprodução, A Conquista do Oeste (How The West Was Won), em 1962. Embora o Western dirigido por John Ford, Henry Hathaway e George Marshall, usasse trens reais para as cenas de ação, O Maior Espetáculo da Terra usou de modelos de miniaturas pertencentes ao diretor, hoje um efeito um tanto ineficaz, mas para a época foi de impressionar. Como em todos os filmes do diretor, não é a história que conta e sim o espetáculo, e o cineasta conseguiu construi-lo em 2 horas e 32 minutos de duração, bem ao gosto da típica família americana dos anos de 1950 (o espectador de hoje deve assistir como se transportasse para este tempo. Muitos padrões de moralidade e conduta vieram a desabar, e o público na ocasião era outro).

O Famoso palhaço norte-americano Emmett Kelly.
Os palhaços Buttons e Emmett.
Buttons fazendo a alegria da criançada.
Foi o último filme que DeMille fez em três tiras de Technicolor. No entanto, em termos de realidade cinematográfica, é uma impressionante nota de rodapé. Uma câmera dirigível de DeMille era do tamanho de uma mesa. O “garoto” Charlton Heston, como era carinhosamente chamado pelo diretor, lembrou o que certa vez DeMille lhe disse: "Você estará realmente empreendendo algo se você fizer um take de rastreamento com um daqueles bebês (as câmeras)".A película é recheada de grandes astros e com artistas de circo de verdade, como o maior palhaço americano Emmett Kelly (1898-1979), e entre os espectadores do circo estão Bing Crosby (1904-1977) e Bob Hope (1903-2003), e no picadeiro, o cowboy Hopalong Cassidy, vivido por William Boyd (1895-1972), amigo pessoal de DeMille.  Enfim, todo o filme é perfeito, graças à direção e a atuação dos atores, principalmente Jimmy Stewart, que como o dramático palhaço faz lembrar uma pintura viva de aquarela, que aparece sempre como uma pincelada de vermelho. 

Divulgação pelos jornais cariocas

DeMille e William Boyd, o famoso Hopalong Cassidy, que aceitou o convite para uma pequena participação.
O filme em divulgação nas grandes salas do Rio de Janeiro, na metade dos anos de 1950.
E certamente, DeMille nos legou uma obra prima, um filme sensacional que veio a marcar não somente sua carreira, mas que com o Oscar conquistado por Melhor Filme de 1952, marcou no cineasta uma extraordinária vitória em sua vida. O Maior Espetáculo da Terra pode assim ser definido como arte cinematográfica e como espetáculo. Música de Victor Young (1900-1956). 


DIVULGAÇÃO


Ano de Produção: 1952

País: Estados Unidos 

Gênero: Drama

Direção: Cecil B. DeMille

Produção: Cecil B. DeMille e Henry Wilcoxon, para a Paramount.

Argumento: Fredric M. Frank, Theodore St. John, Frank Cavett.

Roteiro: Fredric M. Frank, Barré Lyndon, Theodore St. John. 

Fotografia: George Barnes – em Cores

Montagem: Anne Bauchens 

Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H. Tyler

Figurinos: Edith Head, Dorothy Jeakins, e Miles White

Música: Victor Young 

Metragem: 152 minutos  

Betty Hutton – Holly 

Cornel Wilde – O Grande Sebastian 

Charlton Heston – Brad Braden 

James Stewart – Palhaço Buttons 

Dorothy Lamour – Phyllis 

Gloria Grahame – Angel 

Henry Wilcoxon – Agente Gregory, FBI

Lyle Bettger – Klaus 

Lawrence Tierney – Mr. Henderson 

Emmett Kelly – ele mesmo. 

John Kellogg – Harry 

Frank Wilcox – Médico da trupe  

Lillian Albertson – Mãe de Buttons 

Julia Faye – Birdie 

PARTICIPACOES ESPECIAIS

Bing Crosby

 Bob Hope

William Boyd (Hopalong Cassidy)

 CECIL B.DeMILLE

 como narrador.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Tributo à um Querido Cinéfilo Baiano. O Maior de Todos os Comentaristas.

É com imenso pesar que soube no último fim de semana sobre o falecimento de um querido amigo, muito embora não viesse a conhece-lo pessoalmente, mas que durante os anos que estive em frente do extinto espaço Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema, que editei durante 12 anos, ele sempre esteve presente em meus artigos, sempre comentando de forma eficiente e cheia de riqueza de detalhes. Trocávamos conversas por e-mail e chegamos a nos falar algumas vezes pelo telefone. Mas, acima de todas estas qualidades como cinéfilo e grande resenhista, havia um homem maravilhoso, um ser humano que era de todo “alma e coração” como eu o definia. Falo do querido e saudoso Jurandir Bernardes Lima, alcunhado sempre em suas resenhas como o “Faroeste”. Sim, isso mesmo! Ele era um assíduo amante dos Westerns, fossem eles dirigidos por John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann, Delmer Daves ou Sam Peckinpah. No entanto, ao longo dos anos a comentar no meu extinto blog, fui percebendo que ele era um admirador eclético da Sétima Arte, expressando suas observações em qualquer gênero cinematográfico. Um verdadeiro cinéfilo!

Jurandir Bernardes Lima: Cinéfilo e grande resenhista.

Nascido em Salvador (terra boa!), Bahia, a 20 de outubro de 1944, o “nobre Ju” ou o “nobre baiano” como eu o intitulava, adentrou no mundo do cinema através de um primo ainda na sua adolescência. Jurandir se encantou de tal maneira pela grande tela que não mais se separou dela, acompanhando por toda a vida. Inicialmente, foi tomado pelos faroestes, onde seu ídolo principal era Gary Cooper. Entretanto, outros astros também o fazia deslumbrar, como Randolph Scott, James Stewart, Roy Rogers, William Holden,  John Wayne, Henry Fonda, Glenn Ford, Alan Ladd, Robert Taylor, Paul Newman, Burt Lancaster, Ernest Borgnine, Robert Duvall, entre outros. Jurandir amadureceu rapidamente, passando a admirar com igual intensidade outros gêneros da Sétima Arte além dos faroestes, e se deixar fascinar por outros astros e estrelas do passado.

Exemplar do Supletivo de Cinema do jornal A Tarde, de Salvador, que influenciou muito o Jurandir pelo gosto pela 7ºArte.
Segundo a família, Jurandir começou a trabalhar muito cedo e parte do salário era consumido com idas ao cinema. Um grande jornal de Salvador, chamado A Tarde, circulava diariamente após o meio dia, e aos sábados, saía com um suplemento exclusivo sobre cinema. O “Nobre Baiano”. então um adolescente, comprava um exemplar todo sábado do jornal somente por conta do suplemento, que certamente, era recheado de anúncios e divulgações de filmes a serem apresentados pelas salas de exibição de Salvador. E ele assim acompanhava os filmes em cartaz.

Gary Cooper, um dos ídolos figadais do "nobre baiano"!

Um fato curioso, narrado pelo irmão de Jurandir, Mariano, chegou-me ao conhecimento: Geralmente, Jurandir mandava os irmãos ou primos (ou todos juntos!), comprar o jornal A Tarde que vinha com o suplemento de cinema tão desejado. Como o suplemento não poderia ser vendido separadamente, o “nobre baiano” queria o jornal em toda íntegra. Para os irmãos e primos, todos ainda meninos, era uma verdadeira “folia” irem a banca em busca do jornal, porém a algazarra era tamanha que o jornaleiro se enfurecia com os guris, acreditando que eles queriam que ele tirasse o suplemento do jornal e desse a eles. O jornaleiro colocava a gurizada para correr, que fugia de tanto medo! Contudo, isso não era frequente, pois o jovem Jurandir não poderia ficar sem seu precioso suplemento sobre cinema. 

Jurandir tinha seus gostos ecléticos, apreciava grandes obras primas e seus diretores. Era apaixonado pelo filme de Frank Capra A Felicidade Não Se Compra, de 1947, com James Stewart, Donna Reed e Thomas Mitchell.

Nesse suplemento cinematográfico do jornal A Tarde tinha de tudo que se passava no mundo do cinema, inclusive os apontamentos de um crítico de Salvador, José Augusto, que escrevia sempre uma coluna, e Jurandir “devorava” com interesse seus comentários (decerto, do mesmo modo que eu e meu amigo e colega Adilson Carvalho do CCP mergulhávamos profundamente pelas críticas do saudoso Paulo Perdigão pelo jornal O Globo). Além do suplemento, Jurandir chegou a possuir um caderno onde anotava o filme, o diretor, e até mesmo a cotação, isto é, dando até notas de 0 a 5 estrelas.

Um dos westerns prediletos do Jurandir era  Da Terra Nascem os Homens, superprodução de William Wyler de 1958, com Gregory Peck

Mas todo cinéfilo tem lembranças deste porte, que ao longo dos anos torna-se uma reminiscência gostosa de se recordar. E o nobre Ju não era exceção. Era um homem saudoso de uma época em que as salas de cinema eram pelos bairros, o cinema de rua, não nos shoppings como nos nossos dias atuais. 

Jurandir tinha muito respeito por Shane, 1953, de George Stevens, estrelado por Alan Ladd.

O amigo Jurandir tinha predileção especial por alguns filmes, como Da Terra Nascem os Homens (Gregory Peck, Charlton Heston e Jean Simmons, direção William Wyler), Ben Hur (A versão única e inesgotável com Heston sob a direção de William Wyler), Spartacus (Kirk Douglas, direção de Stanley Kubrick) A Felicidade Não se Compra (James Stewart e Donna Reed, direção de Frank Capra), Os Brutos Também Amam (Shane, com Alan Ladd & Van Heflin, direção George Stevens). E entre muitos... e tantos outros, que o “nobre baiano” sempre comentava comigo, fosse publicamente dentro dos meus próprios artigos no blog, fosse in off por e-mails. 

Nem só de Westerns vivia o "nobre baiano". Ele adorava superproduções épicas, como a definitiva e inesgotável versão de Ben-Hur (1959), detentora de 11 Oscars e com Charlton Heston

Mas em sua vida pessoal, o “nobre baiano” também gostava de pescar. Lembro-me certa vez que ele chegou a falar isso comigo. Nascido perto do mar, na Ladeira da Barra, entre o Largo da Vitória e o bairro da Barra (Salvador), dentro da Baía de Todos os Santos, com vista magnifica, ele gostava muito de pescaria. Mas no quesito cinema, nunca conheci ninguém, nem antes e nem depois, que pudesse fazer com tanta maestria, com riqueza de observações e detalhes, comentários tão preciosos que, em verdade, eram magníficas aulas.

Spartacus (1960): Kirk Douglas, Tony Curtis e Jean Simmons

No livro que publiquei em 2018, Paladino do Oeste, editado em Curitiba pela Editora Estronho como parte integrante da coleção TV Estronho, e escrito juntamente com Saulo Adami, dediquei uma nota para o querido Jurandir, profundo conhecedor do cinema: “ Aos fãs da série Paladino do Oeste e aos amantes do western, em especial ao Jurandir Bernardes Lima, cowboy baiano, um dos melhores comentaristas, com quem sempre troco tiros de conhecimento e paixão pela Sétima Arte”. 

Capa do livro Paladino do Oeste (Ed. Estronho, 2018) de Paulo Telles e Saulo Adami.

É isso, amigos e leitores! Jurandir era tudo isso e ainda muito mais. Cinéfilo, amigo, valoroso pai, marido, avô e irmão. Ele colaborou em outros blogs e sites sobre cinema, sempre mantendo sua linha e sempre a ser destacado por suas valiosas opiniões, fosse acerca de um filme, artista ou diretor, sendo admirado também por outros editores de sites. Infelizmente, com a extinção do Filmes Antigos Club, suas resenhas se perderam. Mas na memória, sempre será mantida viva sua inteligência e capacidade analítica de observar detalhadamente cada grande filme. O querido Jurandir deixa esposa, Ana Maria, e cinco filhas: Ana Patrícia, Ana Paula, Ana Cristina, Aline e Carla. E quatro netos: Fernando, Ana Julia, Luiza e Levi.  E é inegável que também deixa um vazio cultural, pois era uma pessoa imensamente humanitária, que com suas opiniões, era capaz de transmitir uma das mais dadivosas qualidades que um ser humano pode emanar para com o próximo: transmitir a arte do conhecimento e sua experiência ao longo de toda sua vida.

Um exemplar de Paladino do Oeste foi enviado de cortesia para o amigo Jurandir, a quem também fiz uma dedicatória na página inicial. 

Jurandir se foi em 9 de dezembro do ano passado, e somente na última semana fiquei sabendo deste triste ocorrido através de seu irmão, Mariano Bernardes Lima, por e-mail. O último contato que tive com o “nobre baiano” foi no início de 2019, pouco depois de enviar para ele um exemplar do livro Paladino do Oeste. Na ocasião, ele chegou a declarar que estava fazendo poucos comentários nos espaços, por razões pessoais.

Jurandir Bernardes Lima (1944-2022)

Eu, Paulo Telles, e os demais integrantes do Cinema com Poesia (CCP) lamentamos profundamente sua perda e nos solidarizamos com a família e com os demais amigos. E agradeço ao Mariano por fazer contato e informar-me do falecimento de seu irmão.

Fique em paz, nobre baiano! Obrigado por suas colaborações e deixar-nos boas lembranças, que certamente, estão imortalizadas na mente e no coração daqueles que o amam e admiram. O cinema também agradece, afinal, cinema é tudo de bom... e sempre será!

Paulo Telles

Esta homenagem está sendo prestada no site

CINEMA COM POESIA

https://cinemacompoesia.wordpress.com/





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